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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

O NAUFRÁGIO DO BIRKENHEAD

O NAUFRÁGIO DO BIRKENHEAD
(no National Maritime Museum)

O evento que deu origem ao protocolo “mulheres e crianças primeiro”

Embora não exista base legal para o protocolo de “mulheres e crianças primeiro” em Direito Marítimo Internacional, essa prática não oficial de se carregar botes salva-vidas com mulheres e crianças primeiro é uma prática estabelecida que pode ser rastreada até a era vitoriana. É um relato de cavalheirismo que inspirou pintores e poetas, além de estabelecer o padrão para capitães e oficiais da marinha no século 21 e começou com o desastre de um navio chamado HMS (O Navio de Sua Majestade) Birkenhead, em 1852.
Esse procedimento faz com que haja um recomeço de vida para as sobreviventes que tiveram o infortúnio de participar de um evento como o descrito abaixo.
O Birkenhead foi lançado ao mar em 30 de dezembro de 1845 e foi um dos primeiros navios de casco de ferro construídos para a Marinha Real Britânica. Inicialmente, o Birkenhead pretendia ser uma fragata a vapor, mas por razões técnicas, ela foi convertida em um navio de guerra. Ela era o navio de transporte de tropas mais rápido e confortável da época, capaz de alcançar o Cabo da Boa Esperança em menos de 40 dias.
Infelizmente, a viagem de 1852 do Birkenhead em direção ao Cabo seria sua última. Partiu da Inglaterra com a finalidade de levar tropas para a África do Sul. Depois de uma breve parada no porto de Simonstown para reabastecer com suprimentos, o navio partiu desse porto em 25 de fevereiro de 1852, com cerca de 640 homens, mulheres e crianças a bordo na última pernada da jornada até a Baía de Algoa, seu destino final. Com o objetivo de obter uma melhor velocidade, o capitão decidiu que o navio seguisse a 4,8 km da costa da África do Sul. Navegava a uma velocidade constante de 8 nós (aproximadamente 15,7 km/h) e usava apenas seus motores a vapor.
Por volta das 2 horas da manhã, o Birkenhead tragicamente atingiu uma rocha submersa. Embora esta rocha fosse visível quando o mar estava agitado, dificilmente era observada quando estava calmo, como no dia em que o Birkenhead passava por lá. Abriu-se um grande buraco no casco do navio e a água inundou a parte da frente do convés inferior, matando centenas de soldados enquanto dormiam.
O capitão, numa tentativa de deslocar o navio da rocha, ordenou que os motores revertessem — apenas infligindo maiores danos ao Birkenhead. Outra colisão aconteceu. Em questão de segundos, os compartimentos dianteiros do navio foram inundados e o navio começou a afundar.
Os soldados restantes se reuniram no convés e aguardaram ordens de seus oficiais. Uma parte da tripulação recebeu instruções para cuidar dos botes salva-vidas; os outros soldados receberam ordens de permanecer no convés mais alto do navio.  
Devido à falta de cuidados com os cabos para baixar os botes, dois deles ficaram inoperantes. Outro bote salva-vidas se encheu de água imediatamente por manutenção inadequada. Os passageiros ficaram com apenas três botes, lamentavelmente inadequados para todos escaparem, pois dois dos maiores barcos com capacidade para 150 pessoas não estavam entre eles. Consequentemente, a tradição naval de “mulheres e crianças primeiro” foi inaugurada, com várias sendo remadas para segurança.
O capitão mandou jogar os cavalos ao mar (oito dos nove animais conseguiram nadar até a praia). Um tenente-coronel que assumira o comando de todo o pessoal militar, conseguiu manter o mais alto nível de disciplina entre as tropas, se reunindo na seção de popa, que era a única parte do navio ainda flutuando. Poucos minutos depois, esta seção também afundou e, pouco antes de desaparecer completamente, o capitão gritou: “Todos aqueles que sabem nadar, pulem no mar e sigam até os botes!”. O tenente-coronel discordou dessa ordem porque percebeu que se os homens nadassem para os botes salva-vidas, pela sobrecarga, os pequenos botes afundariam também, colocando o resto dos passageiros em perigo. Ordenou que suas tropas permanecessem a bordo, e a maioria fez isso, exceto por vários soldados que tentaram nadar até os barcos.
Os bravos soldados ficaram parados por mais de 20 minutos, agarrados aos restos do navio. Mais tarde, alguns deles chegaram à praia depois de nadar por 12 longas horas. Infelizmente, a maioria dos homens se afogou ou acabou sendo devorada por tubarões. No dia seguinte, uma escuna encontrou um dos botes salva-vidas e depois chegou aos destroços do Birkenhead. Encontrou-se 40 sobreviventes agarrados a pedaços de madeira.
Apenas 193 pessoas sobreviveram ao naufrágio. Hoje, um farol se encontra no local do acidente, sinalizando para todos os navios que chegam lá perto que há um recife perigoso e mortal nas proximidades.
Esse terrível desastre é lembrado não apenas por causa do grande número de mortos; tornou-se também a primeira evacuação marítima em que o protocolo conhecido como “mulheres e crianças primeiro” foi aplicado. Logo após o naufrágio do Birkenhead, essa famosa frase e regra se tornou um procedimento-padrão, dando assim nova esperança de um recomeço.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

A FLEUMA BRITÂNICA


Em meio à discussão sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (BREXIT), os britânicos fazem uma pausa para debater o que realmente importa: o chá.

Após a jogadora americana de futebol feminino Alex Morgan ter feito um gesto em campo como se estivesse tomando chá, na derrota das inglesas pelas americanas, durante a Copa do Mundo de Futebol Feminino em 2019, reacendeu-se o debate entre os leitores do The Times de Londres, o segundo jornal diário da Inglaterra, sobre um assunto que há muito aflige o povo britânico: quando se serve chá em uma xícara, o que deve ser colocado primeiro, o chá ou o leite?

Um leitor, em uma carta para o editor do jornal, ponderou se Morgan, a jogadora de futebol, derramava seu leite primeiro. Sugeriu que é correto colocar o leite em primeiro lugar. Isso inspirou uma resposta no dia seguinte de outro leitor, discordando dele e desencadeou uma enxurrada de cartas ao editor, as mais interessantes sendo as seguintes:

Numa das cartas, um leitor escreveu que se tratava de um problema social, pois o uso de porcelana barata tende a rachar a louça quando se coloca o chá quente primeiro. Então, deve-se despejar primeiramente o leite que diminui a temperatura, assim evitando acidentes.

Outro leitor argumentou que o chá pode manchar a porcelana e colocando o leite inicialmente, reduz esse efeito deletério.

Nova missiva disse que o chá deve ser despejado primeiro, para se determinar quanto leite é necessário. George Orwell, no seu artigo de 1946 “Uma Bela Xícara de Chá” também recomenda que se coloque o chá antes do leite, pelo mesmo motivo.

Ou seja, os britânicos não perdem uma oportunidade para ficarem agitados e discutir assuntos triviais, porém isso oferece um tipo de visão para o caráter fleumático dessa gente.

As páginas de cartas dos jornais britânicos são um instrumento sensível, que pode ser usado para detectar ondas de consternação que emanam do coração. Por exemplo, o editor de um jornal semanal decidiu eliminar progressivamente o "senhor" como a forma de se endereçar cartas ao editor, e ficou tão inundado de cartas raivosas que ele prontamente reverteu a decisão.

Dezenas de cartas revisadas numa Antologia de 2017 “As Grandes Cartas do The Times” do historiador James Owen, mostrou que, via de regra, não eram inspiradas por eventos históricos, mas sim por assuntos bastante banais.

Cita-se o exemplo de por que os pais da noiva devem pagar as despesas do casamento, por que ratos parecem apenas roer as teclas pretas dos órgãos das igrejas, por que as calças masculinas têm que ter bainha, as formas de finalizar uma carta de uma maneira elegante e amigável. Tudo isso leva a discussões sem fim, porém calorosas.

Como ele mesmo disse: só alguém britânico se empolgaria assim.

baseado em artigo publicado em
 The New York Times (eletrônico)
de 08.07.2019


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A CARROÇA DE FENO



(THE HAY WAIN)

A Carroça de Feno é considerada uma das pinturas mais queridas dos ingleses. Esta pintura de John Constable (1776-1837) demonstra um real cenário rural da Inglaterra entre os condados de Suffolk e Essex, no começo do século XIX.
Com meus seis ou sete anos de idade, meus pais me presentearam com uma pequena reprodução numa moldura preta bem simples que eu achava linda demais, comprada no bazar anual da Igreja Anglicana. Sua largura não passava de uns 30 cm (tamanho de uma folha A4). Ficou na cabeceira de minha cama durante todos os anos em que morei com meus pais. Desconhecia o nome do pintor e da obra. Meus pais também não sabiam quem era o autor desta maravilhosa pintura, pois vieram para a América do Sul ainda no início da adolescência e pouco contato tiveram com a arte inglesa.
 Certo dia, como sou filatelista, recebi uns selos da Inglaterra e num deles estava uma reprodução do quadro com o nome do pintor tão procurado. É claro que já ouvira falar de Constable, mas nunca o relacionei com aquela pintura. O selo foi emitido em 1968, época em que ainda não havia recursos como a Internet. Procurei na Enciclopaedia Britannica de meu pai, edição de 1929, e descobri que se encontra na National Gallery de Londres. Jurei que na primeira viagem para Londres visitaria aquele museu que fica em Trafalgar Square, o que só consegui cumprir em 1992. Surpreendeu-me o tamanho real da pintura: 1,30 m x 1,85 m!
É uma pintura a óleo sobre tela. A figura central e principal do cenário bucólico que se desvenda perante nossos olhos é de dois homens tentando fazer os cavalos atravessarem uma lagoinha, puxando uma carroça com feno. Um cachorro observa a cena e parece estar prestes a latir. Não há relatos da raça do cão, mas lembra muito o Springer Spaniel Inglês. Na minha pesquisa na Internet descobri que o selo postal supramencionado foi o primeiro selo britânico a ser lançado no qual figura um cão. Um velho casebre domina o lado esquerdo da tela. Parece haver uma mulher lavando roupa também vendo o drama da carroça. Não menos importante, embora nunca tenha lido nada a respeito, há um menino com uma vara de pescar junto a um barco a remo. Marrecos nadam com tranquilidade lá perto. O que realmente rouba a cena em minha opinião é a preocupação de Constable com as nuvens, típicas nuvens de verão, formadoras de chuva. Ainda na minha análise do quadro, chama atenção a qualidade das árvores em primeiro plano. Bem no fundo observa-se gente trabalhando na lavoura, cercada por grupos de árvores à distância. Tudo isso fornece ao expectador um ar de labuta rural.
Nascido em Suffolk, Constable era um paisagista que gostava de retratar cenas de sua infância. A Carroça de Feno foi executada enquanto residia em Londres e a exibiu pela primeira vez na Academia Real de Londres em 1821. Foi pouco notada, pois estava pendurada numa parede repleta de quadros de outros pintores. Em 1824 foi convidado para exibi-la em Paris, onde ganhou medalha de ouro.
O verdor dos suas paisagens, assim como a austeridade de seus traços o impediram de se tornar membro da Academia Real até 1829, com a idade de 52 anos, pois consideravam que ele não se enquadrava no conceito de pinturas daquela época. Não aceitavam a clareza com que Constable representava suas paisagens com um frescor inconfundível de inabalável realismo.
O casebre e aquela lagoinha existem. Ainda reside gente lá e há uma placa avisando que é propriedade particular e a área é restrita, não sendo permitida a visitação. Na época do verão a Terra de Constable (como é conhecida a região) é assediada por turistas, com centro de convivência e um grande estacionamento lá perto.
Este quadro é tão conhecido que é encontrado como quebra-cabeças, impresso em pratos, em jogos americanos e em toalhas de mesa. Sua popularidade é tão impressionante, que há até mesmo papel de parede com esta pintura de John Constable, A Carroça de Feno!
 


quinta-feira, 27 de abril de 2017

A REVOLTA IRLANDESA E ALEMÃ NO RIO DE JANEIRO


(um episódio esquecido da História do Brasil)

As Províncias Unidas do Rio da Prata se tornaram independentes da Espanha em 1809, tendo como capital Buenos Aires (o nome Argentina só foi utilizado após 1826). A Província Cisplatina fazia parte do Império do Brasil, mas a Argentina a reivindicava para si. A Província era estrategicamente muito importante para o Brasil, pois se localizava no delta dos rios Paraná e Paraguai, dois rios importantes para o escoamento do ouro das Minas Gerais e da prata do Peru.
Em 1825, as Províncias Unidas do Rio da Prata invadiram a Cisplatina, instigando os moradores, principalmente do interior, contra o Brasil. O Imperador D. Pedro I considerou a situação intolerável e lhes declarou guerra.
À medida que a guerra avançava, foi necessário contratar estrangeiros para reforçar o contingente armado. Os jornais, políticos e homens de negócios que se opunham à guerra, haviam envenenado a população contra estes soldados para lutar uma guerra que parecia não ter fim. Havia batalhas nas ruas do Rio de Janeiro entre os estrangeiros (principalmente alemães) e os brasileiros e escravos africanos, levando muitas vezes a graves consequências.
D. Pedro encontrava-se em situação bastante delicada, pois tinha de resolver logo esta guerra com o país vizinho. Precisava de mais soldados, a fim de fortalecer as tropas combatentes. Com esta finalidade, enviou um mercenário irlandês de nome Coronel Cotter para recrutar seus compatriotas com a promessa de fazendas de 20 hectares para cada família, livres de qualquer custo ou vínculo.
Mais de 2500 fazendeiros pobres e iliteratos e suas famílias se aventuraram. Muitos venderam o pouco que tinham para comprar implementos agrícolas para a vida nova no Brasil. Aparentemente, não sabiam que tinham sido recrutados para lutar como mercenários.
Dez navios deixaram Cork, na Irlanda e chegaram ao Rio de Janeiro entre dezembro de 1827 e janeiro de 1828. Quando chegaram, viram as promessas virarem pó, pois os irlandeses descobriram, ao aportarem, que Cotter havia lhes faltado com a verdade. A maioria recusou fazer parte da milícia, pois foram trazidos da Irlanda como colonos. Resistiram bravamente em não usar o uniforme do exército imperial e somente após a intervenção do embaixador inglês, houve uma trégua na exigência de fazerem parte da tropa de mercenários.
Os irlandeses foram abandonados, sem proteção ou apoio das autoridades. Tiveram de formar grupos para se defenderem, lutando com paus e pedras contra os agressores, que consistiam fundamentalmente dos escravos africanos, que formavam uma boa parte da população do Rio de Janeiro e que tinham profunda antipatia pelos imigrantes irlandeses e alemães que eles chamavam de escravos brancos.
Havia grande descontentamento entre os irlandeses e os mercenários alemães devido ao mau tratamento dado pelos comandantes, falta de pagamento de salários e boatos de que era iminente a ida deles para o sul para lutar. Um dos alemães foi condenado a cinquenta chibatadas por uma pequena infração, que foi quintuplicada para 250, sem nenhuma justificativa. Depois de 210 chibatadas, os alemães libertaram seu camarada e atacaram o oficial. Este foi o estopim para a revolta, que começou em 9 de junho de 1828. Notícias da revolta alemã rapidamente chegaram aos irlandeses e cerca de 200 deles se juntaram aos insurgentes.
Dirigiram-se ao centro da cidade, as fileiras aumentando com a participação dos colonos irlandeses frustrados pelas promessas não cumpridas, acompanhados de suas mulheres e crianças. Logo começou intensa violência. Saquearam e queimaram centenas de casas e lojas e, por onde passavam, gritavam: “Morte aos portugueses!” e “Morte aos brasileiros!”. Ameaçavam inclusive enforcar D. Pedro.
No segundo dia chegou-se à conclusão de que as tropas brasileiras no Rio de Janeiro eram insuficientes para acabar com a revolta. Foram fornecidas armas aos cidadãos e, pela primeira vez, aos escravos africanos. Lentamente, os irlandeses e alemães foram obrigados a recuar e a se isolar nos quartéis, os melhores locais para poderem se defender.
O imperador solicitou ajuda das Marinhas Inglesa e Francesa atracadas no porto do Rio. Os marinheiros ocuparam locais estratégicos na cidade, liberando o contingente brasileiro para atacar os amotinados.
No terceiro dia, muitos dos rebeldes se renderam e foram conduzidos ao cais do porto, onde foram aprisionados em navios. Houve grupos que se recusaram e, no dia seguinte, foram dizimados numa batalha com pesadas baixas de ambos os lados. O número oficial entre amotinados, civis e tropas do império, foi de 360 mortos e 480 feridos. O centro do Rio de Janeiro estava destruído, com corpos dos mortos e mutilados por toda parte.
D. Pedro I queria se livrar o quanto antes daqueles rebeldes. Os alemães foram mandados para províncias em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Quanto aos irlandeses, cerca de 1500 foram mandados de volta para a seu país de origem, à custa dos cofres brasileiros, e ainda mais pobres do que quando deixaram a Irlanda.
Dado ao alto custo da guerra pelos dois países e o comprometimento do comércio principalmente com a Grã-Bretanha, aquele país forçou os beligerantes a assinarem, cerca de dois meses depois do motim, o Tratado de Montevidéu, onde foi reconhecida a independência da Província Cisplatina, sob o nome de República Oriental do Uruguai.
Mais uma vez, observa-se a inútil perda de vidas, por causa de uma decisão inescrupulosa e precipitada de um governo autocrático e autoritário. A perda da Província Cisplatina deixou o povo brasileiro muito insatisfeito com o Imperador e, embora não fora o principal motivo, contribuiu para forçar a abdicação de D. Pedro I em 1831.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O REI ARTUR E A TÁVOLA REDONDA




 O Rei Artur é uma figura histórica, no sentido de simbolizar um acontecimento verdadeiro, ou seja, a luta dos celtas contra a invasão dos saxões durante o século V e começo do século VI da era cristã. Por outro lado, embora tenha sido identificado como rei dos celtas, ele não é histórico, pois a existência dele jamais foi comprovada. O que tem chegado aos nossos dias não é uma biografia, mas uma lenda de extraordinária beleza. A maioria dos historiadores acha que Artur provavelmente existiu, ou como um indivíduo, ou como a composição de várias pessoas. Já que muitos heróis medievais eram homens de verdade, há a possibilidade de que Artur tivesse sido um guerreiro medieval celta, sobre o qual foi construída uma superestrutura mitológica. Suas histórias se tornaram importantes como base da origem da Inglaterra atual, principalmente pela narrativa do relacionamento entre saxões e celtas.

Dizem que nasceu em Tintagel, sob a proteção do mago Merlin. Há muita magia em torno do nome de Artur. Viveu com sua esposa, a Rainha Guinevere, em Camelot, sede de sua corte. Outro local importante na lenda arturiana é Avalon, onde Viviane, a Dama do Lago, entregou para Artur a espada Excalibur. Uma outra, que tinha sido dada por Merlin, fora quebrada em combate. Quando Artur se feriu gravemente na sua última batalha, foi levado para Avalon, onde acabou morrendo.

A primeira descrição que se tem de uma távola redonda relacionada com o Rei Artur foi em 1155, pela disputa entre seus cavaleiros que não aceitavam ficar num lugar mais inferior do que de seus pares. Daí a távola redonda, ou seja, uma mesa arredondada, que deixava todos em igualdade de condições à mesa, pois não havia nenhuma cabeceira. Lendas à parte, consta em certas crônicas que o próprio Carlos Magno (c.742-814) possuía uma távola redonda decorada com o mapa de Roma.

A cidade de Winchester, que era “a primeira cidade do Reino Saxão Ocidental”, nunca foi considerada a capital da Inglaterra, pois o consenso geral entre historiadores sobre os anglo-saxões era de que a corte real era itinerante naquela época e não havia uma capital fixa. Duas estruturas são de suma importância: a Catedral e o Castelo. A catedral é bem conhecida, por possuir a mais longa nave de todas as catedrais góticas da Europa. O Castelo de Winchester, originalmente construído para Guilherme, O Conquistador, em 1067, tem o Grande Salão como a única estrutura remanescente. O castelo é famoso, porque lá se encontra uma imitação da Távola Redonda do Rei Artur, e o tampo da mesa está pendurado numa parede deste salão. Acredita-se que esta mesa redonda tenha sido feita para um torneio próximo de Winchester, festejando o enlace de uma filha do Rei Eduardo I, em 1290.

Tomei conhecimento de que a Távola Redonda existia mesmo quando, em 1958, li sobre a mesma no jornal “O Estado de São Paulo”. Guardo o recorte até hoje e fiz uma promessa de que na minha primeira visita à Inglaterra, conheceria esta famosa e lendária mesa. Só consegui cumprir minha intenção 34 anos depois!

É, sem sombra de dúvida, uma mesa fantástica, muito elegante. O tampo mede 5,5m de diâmetro, com espessura de quase 10cm, pesa 1200kg e é feito de carvalho inglês maciço. Está exposta numa das paredes do Grande Salão seguramente desde 1522; provavelmente desde 1348, ano em que se fez uma reforma do salão. A decoração pintada que vi, foi feita no reino de Henrique VIII, que mandou inserir a rosa dos Tudors em seu centro (símbolo de sua dinastia). As cores são tão vivas que parecem ter sido feitas ontem. Logo acima da rosa central encontra-se a figura de Henrique VIII, como a substituir o Rei Artur. Nas bordas da mesa há os nomes de 24 dos lendários Cavaleiros da Távola Redonda (vários nomes vem à mente: Sir Percival, Sir Lancelot, Sir Galahad e Sir Mordred). Torna-se impossível ler o que está escrito, pois o tampo está erguido a uns seis metros do chão. Mesmo observando uma fotografia de perto, para nós, leigos, as palavras góticas ficam difíceis de ler! Esta pintura foi feita especialmente para impressionar Carlos V, da Espanha, quando visitou a Inglaterra naquele ano de 1522. Parece que, originalmente, a mesa não possuía nenhuma decoração. Há sinais de que o tampo fora coberto, antes da decoração mencionada, com feltro ou couro. Com o passar do tempo teve de ser removido, provavelmente porque apodreceu.

As histórias do Rei Artur e seus nobres Cavaleiros da Távola Redonda perduram há mais de 1500 anos e é uma saga épica de fascinante interesse para historiadores e leigos.

Quem visita Winchester, vislumbrando a mesa, pode usar seu imaginário e ver os lugares ocupados por aqueles cavaleiros com suas vestes deslumbrantes, seus elmos e suas espadas, prontos para defender o Rei Artur de saxões e outros invasores, sabendo que suas famílias estariam seguras e os esperavam em Camelot.


domingo, 22 de maio de 2016

DUAS PEDRAS DO DESTINO





Joaquim ben Levy mandou-me o comentário seguinte, após ter lido meu texto UMA PEDRA NA HISTÓRIA DA ESCÓCIA: "Tenho lido várias versões da história (?) Da dita "lia fail". Trata-se da mesma pedra? 

Preferi responder aqui, por achar o tópico demais de interessante para apenas responder à sua indagação no final do texto em apreço.
 
                                                                           (imagem da Internet)
A Pedra do Destino Irlandesa

Na verdade, existem duas Pedras do Destino. A Pedra de Scone, em gaélico escocês An Lia Fáil e em escocês Stane o Scuin, trata-se de um bloco de arenito vermelho usado durante séculos na coroação dos reis escoceses. Como conto no meu texto, é usado na coroação dos monarcas do Reino Unido. A Pedra de Scone foi guardada durante anos na Abadia de Scone, localizada próximo de Perth, na Escócia. Atualmente se encontra no Castelo de Edimburgo. 

No entanto, existe uma outra Pedra do Destino, em gaélico irlandês, Lia Fáil, que é uma pedra que fica no local da coroação dos Grandes Reis da Irlanda. Parece que todos os reis da Irlanda foram coroados ali até cerca de 500 d.C. A Pedra é um menir, ou uma pedra solitária vertical, que data do período neolitico (± 5500 anos atrás) e se localiza do Morro de Tara, no Condado de Meath, na Irlanda.