sábado, 21 de novembro de 2009

A VELHINHA

Essa zona rural mais parecia uma fotografia de calendário. A estrada pela qual eu guiava meu carro era de terra e acompanhava o caudaloso rio que serpenteava vagarosamente em direção ao vilarejo onde planejava passar a noite. Pelo espelho retrovisor, observei que minha passagem levantava uma vasta cortina de poeira. Ainda bem que não cruzara com ninguém, senão o coitado sofreria de um mal súbito de tanto comer pó! Mas, apesar da intensa seca, o rio apresentava uma exuberante mata ciliar e, do lado oposto da via, campos plantados com canola enchiam os olhos com suas brilhantes flores amarelas. Aqui e acolá, uma árvore se sobrepunha ao mar dourado, destacando-se pela sua pujante nobreza esverdeada.


Havia reparado que de tempos em tempos os campos de canola eram recortados por estreitas ruelas que desembocavam na estrada por onde eu andava. Entretanto, estavam desertas a esta hora, logo após o meio-dia. Provavelmente os lavradores estavam repousando na sombra de alguma daquelas imponentes árvores no meio da plantação. Qual não foi minha surpresa ao ver uma nuvem de pó se erguendo da canola, como a estragar o belo visual do óleo em flor. Era mais uma estradinha vista a distância, tão estreita que seria impossível receber veículos largos, fossem automóvel, caminhão ou trator. Era tão somente apropriada para pedestres.


Tive de frear abruptamente, mais pela aparição inesperada do que para evitar um acidente, ao surgir uma bicicleta do meio da canola sem me dar a mínima atenção, como se eu e meu carro não existíssemos, e que virou na mesma direção em que eu ia. O que era inusitado e inesperado foi a pessoa que a guiava. De onde eu estava, não conseguia ver seu rosto, mas pelas vestimentas, era óbvio que se tratava de uma mulher. E ela dirigia a bicicleta com habilidade. Logo percebi que era antiga, pois não dispunha de marchas e a roda traseira era recoberta por uma tela para não deixar que seu vestido se enroscasse nos aros. Diminuí a velocidade do meu carro, pois não queria envolvê-la com a poeira da estrada. Vagarosamente emparelhei-me com ela. Tive vontade de parar e oferecer-lhe uma carona, mas sabia de antemão que não teria onde por a bicicleta, se é que ela estava realmente indo para a mesma vila que eu. Seu vestido era branco, todo decorado com enormes flores azuis, fazendo com que o vestido mais parecesse azul do que branco. Usava um chapeuzinho preso sob o queixo com uma fita também azul. Quando, rapidamente, os raios solares iluminaram seu rosto, me surpreendi. A ciclista não era uma moça e sim, uma senhora. Havia rugas nas suas faces, daquelas típicas de quem fica muito tempo exposto ao sol e tem de cerrar os olhos devido a seu brilho. O que impressionou-me foi sua expressão de determinação como se precisasse chegar a todo custo aonde quer que estivesse indo. Mas havia lá outra expressão que pude ver naqueles breves instantes de luz sob o chapéu: uma ternura ímpar, uma aura de bondade que me emocionou. Ela olhou momentaneamente para mim, sorriu e acenou, gesticulando para que eu seguisse adiante, dando a entender que não se importava com a poeira.


Cerca de meia hora depois, eu entrava na pacata vila e, após me informar a respeito de acomodações, dirigi-me ao único hotel existente. O calor estava incrível e fui direto tomar um banho para me refrescar. Desci ao saguão para o restaurante do hotel, que mais servia aos moradores da vila que aos hóspedes. Travei uma conversa com o gerente que me orientou de como chegar ao hospital que viera conhecer, motivo principal de minha vinda a essa região.


As distâncias a serem percorridas eram muito curtas naquela minúscula cidade. Entretanto, descobri que o hospital ficava na periferia da vila. Indo a pé naquele calor do meio da tarde, cheguei todo suado. Carregava meu paletó na mão. Estacionado num local reservado para bicicletas — aparentemente todos as usavam — estava a bicicleta que eu vira na estrada. Além de ser a única que não dispunha de marchas e com a armação tipicamente feminina, apresentava aquela providencial rede traseira. Tinha mais um acessório que não havia constatado na estrada: um cesto metálico à frente do guidão, cuja parte inferior apoiava no para-lama dianteiro. Portanto aquela senhora estava aqui no hospital. Será que se sentira mal andando de bicicleta naquele calor e teve de procurar assistência médica? Ou será que era uma enfermeira ou então fazia parte da administração da instituição?


Deixei minhas conjecturas para lá e me concentrei no objetivo de conhecer o hospital. Mas precisava satisfazer minha curiosidade a respeito daquela senhora. Perguntei para um, perguntei para outro, e fiquei sabendo que a tal senhora se encontrava na ala pediátrica do hospital. Minha conclusão lógica foi de que pelo menos não estava doente. A Pediatria ficava numa área enorme, bem iluminada e com inúmeras janelas, com camas postadas uma ao lado das outras, separadas apenas por pequenos armários que também serviam de criados-mudos. As cabeceiras das camas eram voltadas para as paredes, deixando um espaço grande no centro da enfermaria que servia de local de recreação para as crianças. Ao entrar no recinto, vi que as camas estavam vazias. Seus ocupantes, em pijamas de várias cores e tipos, encontravam-se sentados no chão em círculo, absortos e encantados com as palavras da pessoa que, sentada numa banqueta, segurava um livro e lia para eles. Embora estivesse de costas para mim, logo a reconheci como sendo a mesma que vira na estrada, uma vez que ainda usava o mesmo vestido. Silenciosamente fiquei ouvindo e admirando a atuação dela. A seguir, fui me apresentar a meus colegas que me levaram para visitar outras dependências do hospital. Soube que outrora a casa fora uma antiga residência de ricaços que a doaram para a cidade. A casa fora transformada no único hospital da região. Suas instalações foram modernizadas. Recebia a todos gratuitamente. Dispunha de subvenções governamentais para seu sustento. Fundamentalmente priorizava o atendimento de crianças e se tornara uma instituição famosa por isso. Comentei sobre a grande enfermaria que havia visto e da senhora que lia para os garotos. Os colegas sorriram, dando a entender que a velhinha era uma excêntrica e inofensiva senhora da vila. Quanto ao tamanho da ala de pediatria, achavam que fora o salão de festas do casarão. Agradeci pela gentileza de me terem recebido e fui embora.


Voltei ao hotel satisfeito de ter conhecido o hospital a respeito do qual se falava tanto no meio médico e que tinha motivado minha visita. Eu ainda tinha mais uma missão para cumprir naquele vilarejo: saber de uma prima de minha mãe que deveria estar beirando os 100 anos de idade. No final da tarde, depois de me refrescar de novo, mais uma vez tive de recorrer ao gerente do hotel para me informar como chegar à residência da prima. Na rua indicada havia meia dúzia de casas, todas idênticas. Mas eu sabia que era a última antes da esquina. Abri o portãozinho e cheguei na porta de entrada sob uma pequena varanda. Procurei pela campainha que não achei. Bati palmas, bati na porta, chamei por ela. Em vão. Aparentemente, ou estava de cama, ou não estava em casa. De tanto barulho que fiz, alertei a vizinha que, ao saber quem eu era, disse-me que minha prima era um pouco surda e me mostrou onde estava a campainha, escondida no meio da hera perto da varandinha.


A porta foi aberta por uma senhora de idade avançada. Com certeza era minha prima. Havia um estreito vestíbulo de frente à escadaria que subia para o andar superior. A cozinha ficava nos fundos e à direita havia duas salas: uma de estar e outra de jantar. Entramos na primeira. Conversamos amenidades. Fiquei sabendo que tinha 95 anos de idade. Certamente não aparentava. Quando lhe contei do falecimento de meus pais, ficou triste por uns momentos, comentando que trocara correspondência com minha mãe quando eram adolescentes. Para mim, a prima seria uma fonte importante de informações, uma vez que eu me autodenominava o narrador oficial da história da família. Ao lhe explicar meu intento, sorriu. Eu conhecia aquele sorriso. Provavelmente me lembrava de parentes nossos ou vira fotografias dela quando era mais jovem.


Minha prima era tagarela. Não parava de falar, contando sobre episódios de nossos parentes que eu desconhecia. Quando ela começou a falar de sua família próxima, dando os nomes dos netos e bisnetos, tive de interrompê-la e pedir caneta e papel para escrever tudo. Mais uma vez sorriu e me convidou para a cozinha para tomar um chá. Acrescentou que a mesa de lá seria mais adequada para fazer minhas anotações. Em dado momento, quase deixei cair a xícara no chão. Olhando através da porta dos fundos, vi que havia um barracão onde certamente guardaria velhas quinquilharias e implementos de jardinagem. Aliás, à entrada da casa havia um minúsculo jardim de roseiras, muito bem cuidado. No lusco-fusco do fim de tarde, observei que o jardim dos fundos era igualmente cuidado com capricho. Consegui salvar a xícara de um desastre e não passar vergonha diante de minha prima. Recuperei-me. Pois não é que, encostado no barracão, estava a bicicleta que vira várias vezes no transcorrer do dia. Então era ela a velhinha que eu vira na estrada. Era ela que tinha entretido as crianças no hospital com a leitura.


Contei para a prima de nosso encontro na estrada e de minha ida ao hospital e que a vira lendo para os doentinhos. Mais uma vez, vi aquela ternura e determinação estampadas em seu rosto. Como o vilarejo era muito pequeno, explicou, não dispunha de uma biblioteca. Numa reunião da comunidade local ela havia sugerido que se providenciasse uma biblioteca para todos, em especial para os jovens. Sua sugestão nem foi considerada. Em casa tinha poucos livros, principalmente por falta de espaço, segundo ela. Sabia que a cidade vizinha tinha uma biblioteca e se dispôs a pedir emprestado livros para as crianças de seu vilarejo, porém logo reconheceu seu erro: os pais achavam que ela estava se intrometendo em suas vidas. No entanto, queria fazer alguma coisa de útil e descobriu que os menores internados ficavam à mercê de suas doenças, apenas recebendo visitas esporádicas dos parentes. Conversou com o diretor do hospital e ele concordou que ela lesse para as crianças. Não havia como chegar à cidade vizinha a não ser com transporte coletivo que dava uma volta imensa, ou então cortar caminho pelas plantações de canola. Optou ir de bicicleta. Havia dois anos que fazia isso toda semana, buscando livros e devolvendo-os na semana seguinte. Carregava-os no bagageiro dianteiro de sua bicicleta.


Acredito que o exercício lhe fazia bem. Apesar das rugas e da idade, parecia ter saúde de ferro. Tinha uma lucidez invejável. Fiquei muito satisfeito em encontrá-la. Ela deu-me várias fotografias da família, com minha promessa de que seriam aproveitadas no livro que pretendia escrever. Quando me despedi, jurei manter contato, e foi o que fiz durante os três anos seguintes. Mandava-me cartas prolixas, relatando todos os fatos novos sobre seus parentes próximos. Eu lia com avidez e respondia sempre.


Certo dia teve uma queda dentro de casa sofrendo fratura de colo de fêmur. Os filhos a levaram para uma cidade grande, onde foi operada. Insistiu em voltar para o vilarejo após a cirurgia. Na sua última carta para mim, contou que as crianças, para quem tanto leu no hospital, vinham visitá-la e as mais velhas faziam questão de trazer livros para ler para ela. Pacientemente, em agradecimento, ela ouvia tudo com lágrimas contidas.


Quando completou 100 anos de idade, recebeu uma carta de parabéns assinada de próprio punho pela rainha Elizabeth II da Inglaterra, costume antigo para todos os seus súditos centenários. Soube do evento porque um de seus filhos mandou-me um recorte de jornal com uma entrevista dela. Logo depois, sua mente começou a vagar e foi necessário colocá-la numa casa de repouso para receber cuidados apropriados. Não tinha mais condições de morar sozinha. Uma semana após completar 103 anos de idade, houve um surto de influenza na casa de repouso, o vírus levado por uma visita de outro paciente. Tanto ela como mais três ou quatro idosos ficaram gripados, evoluíram para pneumonia e faleceram.


Essa simpática velhinha mexera comigo. Pude observar e admirar sua altivez e dedicação altruísta às crianças. Ela foi um exemplo de vida e, sem dúvida, o orgulho de todos que se sentiram atingidos pela sua alma caridosa e envolvidos pelo seu calor humano.

sábado, 17 de outubro de 2009

A SALA DE ESPERA

Quando entrei no consultório, vi que teria de esperar muito para ser atendido. Todas as poltronas estavam ocupadas, menos uma para onde me dirigi. Quase perco o lugar. Não é que um garoto de uns oito anos quis sentar logo ali! E meus pobres ossos, como é que ficam? Fui salvo pelo gongo.

— D. Francisca, pode entrar com o Marcelinho. É sua vez de passar com o Dr. Juvêncio — disse a recepcionista.

O menino, um tanto contrariado, abandonou sua investida ao meu lugar e foi ter com o pediatra, levado pela mãe.

Sentei-me. Dei um suspiro. O homem a meu lado deu uma olhada de soslaio. O que é, pensei, nunca viu alguém suspirar? A verdade é que eu estava cansado após andar vários quarteirões desde a estação do metrô. Preferia vir ao médico de metrô do que de ônibus por ser mais confortável.

O coração já voltava à sua palpitação normal. Pude então tomar conhecimento do ambiente. Lá estava D. Lúcia, a recepcionista, atrás do balcão, com um telefone em cada mão, olhando para o cliente que acabava de chegar e acenando com o fone para que aguardasse enquanto terminava de anotar alguma coisa, provavelmente a marcação de uma consulta. Ao mesmo tempo, sua boca não parava de se movimentar, mastigando o interminável chiclete. Olhei para a porta de entrada de vidro transparente e vi que estava escurecendo lá fora. Ia cair uma tempestade, e eu não tinha trazido guarda-chuva.

Gosto de passar o meu tempo observando o ambiente onde me encontro até chegar minha vez de ser atendido. Só espero que nem toda essa gente esteja aguardando pelo Dr. João. É claro que não. É uma clínica bem grande, com vários médicos. As paredes da sala de espera estão pintadas de verde claro e os quadros pendurados ficam realçados devido às molduras escuras dos mesmos. Numa delas há dois de natureza morta, um tanto desbotados. Não sei se o pintor quis assim, ou descoloriram com o passar dos anos. Não gostei deles.

Epa! À minha frente, um paciente bocejou. Automaticamente, transmitiu a vontade do bocejo a vários outros dos presentes. Não pude evitar e também abri a boca para bocejar.

Centrada numa outra parede estava a reprodução de uma pintura que sempre apreciei pois, quando pequeno, havia uma parecida na sala de espera de meu pediatra. Nossa, quantos anos isso já faz! Depois de adulto, fui procurar a obra. Seu título: O Médico. O pintor: Sir Luke Fildes, um pintor inglês que retratou uma criança deitada em duas cadeiras forradas de travesseiros, com um médico sentado ao seu lado, com ar pensativo. O médico passara a noite toda ali e o pacientezinho já mostrava sinais de que estava se restabelecendo. Ao fundo, mãe e pai ainda desesperados. Segundo consta, Fildes pintou o quadro para homenagear um médico devido à sua dedicação ao cuidar de seu filho que, todavia, não teve o mesmo final feliz.

Meus devaneios foram interrompidos pela D. Lúcia, que já chamava outro paciente. O interessante foi que nenhum dos pacientes era para o Dr. João. Quis levantar para perguntar se ele se encontrava, mas a preguiça venceu e permaneci sentado.

Comecei a olhar para os rostos dos pacientes. Num canto da sala estava uma senhora de meia-idade, com os cabelos pintados de vermelho. Será que não sabia que essas tinturas destroem as raízes capilares, aumentando o risco de ficar careca? E nunca se olhou no espelho para ver como fica ridícula com aquela cor? “Madame,” gostaria de lhe dizer, “se já tem cabelos brancos e precisa pintá-los, então, por favor, use uma cor marrom ou preta. E pelo amor de Deus, tire esse batom vermelho rutilante da cara. Fica com cara de prostituta!” Ah, se tivesse coragem de ir até ela para dizer isso...

Oposto de onde eu estava sentado, um homem de uns quarenta anos não parava de digitar no seu laptop, apoiado no colo. Era o mesmo que havia bocejado. Parece que agora estava concentrado no que fazia. Vez ou outra, coçava a cabeça, o nariz, o pescoço. Parecia um verdadeiro pulgueiro. Será que veio ver um alergista?

Quais pensamentos teriam o menino e a menina sentados no chão, no meio de todos aqueles adultos? Brincavam silentemente, com alguns objetos de plástico colorido que eu tinha dificuldade de identificar de onde eu estava. Certamente era alguma brincadeira tranquila, que não requeria uma disputa, senão estariam gritando um com o outro ou pelos menos estariam se agitando.

Falando em agitação, na recepção ocorria algum problema. Um sujeito sisudo discutia com D. Lúcia. Ela ainda mastigava um chiclete e segurava um telefone na mão. Com a outra, gesticulava, tentando se defender das agressões verbais do homem. Eu observava isso consternado, pois conhecia a recepcionista há bastante tempo e sabia que era incapaz de fazer mal a uma mosca. Da mesma forma, era incapaz de se defender de atitudes como aquela. Será que eu deveria intervir?

Em dado momento, não resisti e de onde estava, falei, talvez até um pouco alto demais:

— Ei, moço! Vamos com calma!

Os outros pacientes olharam para mim, meio assustados. Imagine intervir numa discussão alheia. D. Lúcia que se virasse!

O homem parou de discutir com a recepcionista e virou-se para mim:

— Como é que é? O senhor que se meta com sua vida!

E soltou meia-dúzia de palavras que não poderia transcrever aqui. Várias pessoas ficaram boquiabertas com as suas vociferações, mas permaneceram inertes à sua reação exagerada. Eu é que não poderia ficar quieto.

— Ora, rapaz, se não quer respeitar alguém que tem idade de ser seu pai, pelo menos considere as senhoras e crianças que aqui estão.

— Eu já disse para se meter com sua vida, seu velho-de-araque!

Já se dirigia em minha direção. Não podia nem imaginar que tentaria me agredir fisicamente. A D. Lúcia estava freneticamente ligando o telefone e falando apressadamente no fone. Com certeza chamava o segurança para retirar o inconveniente dali. Ele se aproximava cada vez mais de mim. Eu gelei. Sabia que não teria condições de me defender, nem me embater com ele. O sujeito era mais alto do que eu, bem forte e estava chegando mais perto. Quis gritar, mas não saía um som sequer de minha boca. Ele se postou à minha frente e sua mão direita desceu no meu ombro.

— Senhor, senhor, acorda! O Dr. João está lhe aguardando!

Abri os olhos. Olhei a meu redor. Ainda havia pacientes na sala de espera. A senhora dos cabelos vermelhos estava lá. O homem do laptop também. Todos olhavam para mim e sorriam. Olhei para o balcão da recepção. D. Lúcia não estava lá, mas ao meu lado, com a mão no meu ombro e repetia:

— O Dr. João o aguarda. O senhor está bem?

Eu ainda não me conformava com aquela situação.

— Cadê o homem que estava gritando com você no balcão e que veio até aqui para me bater?

Tenho certeza que devo ter feito cara de vítima. D. Lúcia me respondeu:

— Eu acho que o senhor estava sonhando, porque ninguém gritou comigo, nem veio aqui bater em você.

Bem, acho que fiz cara de idiota, dei de ombros e me levantei.

Será que tudo fora um sonho mesmo, ou melhor, um pesadelo, ou o cara me acertou e eu apaguei. E agora, com receio de que eu pudesse processar a clínica, estavam todos fingindo que nada acontecera. Mas, pensando bem, não estou sentindo nada, nenhuma dor.

Ah, sei lá!...

domingo, 10 de maio de 2009

AULA INAUGURAL

DUAS FERAS DA MEDICINA PAULISTA foram os Professores Doutores Jairo Ramos e Renato Locchi. Em 1967, quando ingressei na Escola Paulista de Medicina, ambos já tinham se aposentado, mas ainda eram os ilustres dignitários do corpo docente daquela escola de medicina.

Havíamos batalhado arduamente para obter uma classificação entre os duzentos melhores vestibulandos, fazendo jus a uma carteira na Aula Magistral proferida pelo Prof. Jairo, não somente para nós calouros, mas também para os veteranos e todos os professores que lá puderam estar presentes.

Se me perguntarem sobre o que falou, não posso nem alegar de que me esqueci. Não prestei a mínima atenção em suas palavras, porque minha mente estava em intensa ebulição com o prospecto de futuramente ser um médico e, consequentemente, pouco valorizava o que dizia. É claro que hoje, mais maturo, sua oração teria muito sentido e não perderia uma linha de seu discurso.

Os primeiros dias do curso médico correram muito devagar. Visitávamos as dependências da Escola, o Hospital São Paulo e passávamos perto das salas de anatomia, espiando de longe os alunos de 3º ano dissecando alguma peça anatômica.

Foi anunciado que a Aula Inaugural da Disciplina de Anatomia seria proferida pelo Prof. Dr. Renato Locchi, versando sobre “O Respeito ao Cadáver”. Aquela aula foi na própria sala de anatomia, uma sala azulejada, com muitas janelas basculantes, bem arejada e iluminada, e com duas portas largas.

Qual não foi meu susto e mal-estar ao deparar com uma maca lá na frente, com um corpo estendido sobre a mesma, coberto por um fino lençol. Jamais estivera na presença de um defunto em toda minha vida. Não sei da experiência dos outros, mas sentei-me bem perto da porta. Se o professor ameaçasse descobrir o morto, eu sairia voando para o pátio.

Aquele franzino doutor, usando um avental que parecia mais comprido do que ele, entrou na sala, e sua forte presença calou a todos. O que ele falou ali, naquele instante, modificou para sempre o perfil de todos os colegas, conscientizando-os sobre o verdadeiro sentido de Ser Médico. Iniciou sua palestra, contando-nos sobre aquele corpo que se encontrava deitado a alguns palmos dele. Levou-nos a imaginar como aquele ser fora como nós, com alegrias e tristezas, com dezenas de problemas, — e quem não os têm —, os quais deixou para trás ao morrer, além de ter tido família, pai, mãe, esposa, filhos, quem sabe?

Continuou, teorizando sobre a vida daquele homem. Todos nós ficamos encantados com o que disse. Prof. Locchi era, ao mesmo tempo, cativante e firme em suas convicções e propósitos. Aquele falecido deixou seu corpo para o bem da Ciência, para ser utilizado por nós, estudantes de medicina, em benefício da humanidade. Éramos homens de fortuna em poder utilizar aquele cadáver em prol do engrandecimento de nossos conhecimentos científicos.

É desnecessário dizer que o lençol não foi retirado, porém, ao final daquela verdadeira conferência, acho que minha reação teria sido diferente, pois despertou-se em mim a curiosidade de até vislumbrar o rosto daquele homem, para conhecer sua aparência física.

Nos meses que se seguiram, fomos introduzidos paulatinamente ao estudo de peças anatômicas e, no começo do segundo semestre, cada dois alunos recebeu um cadáver para dissecar. Perdêramos totalmente o receio de nos encontrar diante de um morto. As palavras do Prof. Renato Locchi permaneceram frescas em nossas cabeças — como estão até hoje — e foram as diretrizes que moldaram a minha personalidade de médico, bem como de muitos de meus companheiros naqueles seis anos de graduação.

sábado, 18 de abril de 2009

O "BLACK HOUSE"


O INTERIOR DAS TERRAS ALTAS DA ESCÓCIA é de uma pobreza imensa, com vegetação escassa que dificulta o sustento a homens e animais. Por esse motivo, com exceção às vilas que prosperam por estarem junto aos rios e lagos, ou à beira-mar, os povoados são poucos, muito longe uns dos outros e, às vezes, formados apenas por um ou dois casebres, tanto nos Highlands como nas ilhas ao seu redor.

O frio é intenso no outono e inverno e um pouco menos na primavera e verão, quando chove muito e a temperatura, frequentemente, não ultrapassa os 15ºC. Os highlanders construíam suas moradias com o único material disponível naquela região inóspita — a pedra — e cobriam-nas com um tipo de sapé. Devido ao eterno vento, as frestas entre as pedras eram preenchidas com pedriscos e não havia janelas. Uma única porta servia de acesso. Uma chaminé no centro da casa servia para a saída da fumaça originada da fogueira que ficava no seu centro. Os casebres tinham, no máximo, dois cômodos, sendo que um servia apenas para manter os animais durante os dias mais gelados.

Durante os meses mais amenos, a preocupação dos habitantes era de se preparar para o rigoroso inverno. Criavam ovelhas e vacas para abastecê-los de leite e carne, pois, no frio intenso, tornava-se quase impossível sair de seus lares para enfrentar os rigores das intempéries.

Abundante em todos os Highlands, existe o resultado de séculos de acúmulo de uma vegetação rasteira conhecida por heather. Essa matéria vegetal decomposta é chamada de peat e é retirada a enxadadas das encostas das montanhas, dos brejos e das regiões pantanosas. Encontrando-se encharcada, era posta para secar. Depois, ficava guardada dentro das moradias e era usada como carvão para manter a fogueira sempre acesa. No entanto, fazia muita fumaça e, com o passar do tempo, tingia o interior das casas com sua fuligem, daí a denominação de “Casa Negra”, o Black House.

Essas moradias sobreviveram até 50 anos atrás, quando o governo britânico teve enorme dificuldade para convencer os habitantes dos Highlands e os ilhéus, quase eremitas, a viverem em casas de alvenaria, construídas pelo próprio governo, com toda a modernidade possível para localidades afastadas como aquelas.

O inverno nas montanhas altas do país é muito duro e, ainda hoje, nos lugares mais longínquos da Escócia, há Black Houses que servem aos pastores que precisam descansar e se proteger do frio por algumas pernoites. É a vida que os highlanders conhecem. Não têm outra alternativa a não ser enfrentar o tempo, pois foram criados desde a mais tenra infância para isso, não conseguindo se adaptar a um outro modus vivendi.

domingo, 5 de abril de 2009

VARÍOLA !



QUEM NÃO SE LEMBRA DA OBRIGATORIEDADE DE ESTAR COM A VACINAÇÃO ANTIVARIÓLICA em dia para se matricular na escola? Isso era um fato comum até apenas três décadas atrás, quando enfim a Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou que essa grave doença estava erradicada.

Nenhuma outra doença afetou tanto a Humanidade, nem mesmo a peste bubônica, a tuberculose, a cólera ou a febre amarela. Derrubou vários impérios e o Homem viu seus filhos sucumbirem, ficarem desfigurados e cegos pela moléstia.

Há mais de 200 anos, Edward Jenner fez uma importante observação que serviu de fundamento para acabar com esse flagelo. As ordenhadeiras que contraíam varíola bovina pelo contato com úberes de vacas contaram a Jenner que ficaram protegidas da forma humana de varíola. Ele ouviu a voz do povo e comprovou o fato cientificamente. Não havia descoberto a vacinação, que já existia, mas sua técnica oferecia uma defesa confiável contra a doença.

Acredita-se que a varíola surgiu há mais de 10.000 anos em aglomerações agrícolas na África, espalhando-se para a Índia carregada por mercadores egípcios no último milênio antes de Cristo. Há evidências de alterações variólicas nas faces de muitas múmias, em especial na de Ramsés V, que morreu ainda jovem, em 1157 a.C.

A primeira epidemia de que se tem notícia ocorreu em 1350 a.C., na guerra entre egípcios e hititas. Numa epidemia em Atenas, em 430 a.C., observou-se que os sobreviventes da doença tornavam-se imunes a ela. Al-Razi (Abu Bakr Muhammad Ibn Zakariya al-Razi) fez a primeira descrição médica da varíola, em 910 d.C., intitulada De variolis et morbillis commentarius. Relatou que a transmissão se fazia de pessoa a pessoa e sua explicação do porquê as pessoas não desenvolvem a doença uma segunda vez foi a primeira teoria sobre imunidade adquirida.

Houve uma grande epidemia em Roma por volta de 180 d.C., matando entre 3,5 a 7 milhões de indivíduos; eram os primeiros anos do declínio do Império Romano. A disseminação da doença se deu com o avanço dos árabes, as Cruzadas e a descoberta do Novo Mundo. Foi a causa da queda dos impérios Asteca e Inca. Quando os espanhóis chegaram ao México, havia uma população de 25 milhões. Em 100 anos, havia menos de 2 milhões!

O Brasil foi o último país das Américas a eliminar a varíola. Em 1971, foram notificados 19 casos da doença, e apenas um caso em 1972. A partir daquela data, foi considerada erradicada nas Américas. Não se tem notícia de um único caso desde 1977, quando foi constatado o último na Somália (África). A varíola foi declarada erradicada do Mundo, pela OMS, em 1980.

A varíola foi a principal causa de morte nas aglomerações brasileiras, fossem elas vilas, vilarejos ou cidades. Na disseminação pelo interior, contaminou e matou muitos índios e escravos, além da população branca em geral. O mais antigo surto de varíola na cidade de São Paulo data dos primeiros anos da sua fundação. Uma terrível epidemia assolou São Paulo em dezembro de 1873, causando muitas mortes. Em consequência, foram construídos pavilhões de isolamento para varíola, na “antiga estrada do Araçá”, inaugurados em 1880, conhecido como o Hospital dos Variolosos. Em 1932 virou o Hospital de Isolamento Emílio Ribas, o atual Instituto de Infectologia Emílio Ribas, na Avenida Dr. Arnaldo.

Os últimos estoques do vírus da varíola encontram-se abrigados em dois laboratórios de referência da OMS: o Centro de Controle e Prevenção de Doenças em Atlanta (Estados Unidos) e no Centro Estatal de Pesquisas de Virologia e Biotecnologia em Koltsovo (Rússia).

Desde sua erradicação, a Organização Mundial da Saúde, por meio das Assembléias Mundiais de Saúde, vem discutindo a possibilidade de destruição desses estoques do vírus. Até 2007, não se havia chegado a um consenso sobre isso. Há, inclusive, grupos que são formalmente contra a destruição do vírus variólico, pela simples razão de que é um ser vivo que sobreviveu desde os tempos mais remotos e não deve ser liquidado da face da Terra. Outros grupos alegam que os vírus remanescentes devem permanecer para futuras pesquisas médicas, principalmente no combate a outras doenças, como a AIDS, através de estudos de modificações genéticas.

Recentemente, tomou-se conhecimento de que o Laboratório Nacional Sandia, pertencente ao Departamento de Energia dos Estados Unidos, está fazendo experiências com genes da varíola, introduzindo-os em outros organismos para produzir proteínas codificadas, com finalidades não reveladas. O governo não fornece nenhuma informação a respeito, mas sabe-se que a missão da Sandia é focalizada no planejamento e teste de Armas de Destruição em Massa para as Forças Armadas dos Estados Unidos. O DNA da varíola não se originou dos estoques controlados pela OMS, mas de empresas especializadas em engenharia genética.

Nas discussões sobre varíola, nas Assembléias Mundiais de Saúde, sempre há grandes divergências, e os Estados Unidos são inflexíveis em relação à destruição dos vírus variólicos. A OMS, por falta de provas, considera infundadas as alegações americanas de que há outros países que possuem o vírus. No entanto, os americanos afirmam que um cientista russo que passou para o lado deles confirmou que a Rússia desenvolve a varíola como uma arma biológica desde a década de 1980. Relatam, também, que a França mantém estoques com finalidade defensiva, em caso de um surto da doença. Inspetores das Nações Unidas observaram que prisioneiros iraquianos da Guerra do Golfo (1982) estavam imunizados contra a varíola, evidência de que o Iraque tinha o vírus à disposição. Os serviços de inteligência dos Estados Unidos e os russos mantêm que os norte-coreanos têm estoques para fins militares, embora estes sejam de qualidade mediana.

Enfim, são mais de 30 anos que não se tem notícia de um único caso de varíola natural em seres humanos. Todavia, relatam-se vários outros tipos de varíola, em macacos e outros animais.

Fica a dúvida se deve-se manter o vírus vivo em benefício da Humanidade ou destruí-lo para se evitar uma guerra biológica que poderia trazer uma desgraça incomensurável, provavelmente dizimando nações, que estão indefesas contra esse flagelo que se perpetuou durante milênios e há tão pouco pôde ser eliminado.

domingo, 29 de março de 2009

TRAGÉDIA NO MAR



NUNCA HAVIA OUVIDO FALAR DO ARANDORA STAR. Durante muitos anos fora tabu entre os britânicos comentar a seu respeito, principalmente pelos ítalo-escoceses, descendentes dos imigrantes que sucumbiram na tragédia que irei relatar.

Era plena Segunda Guerra Mundial. Nos anos que precederam a Guerra, havia muitos italianos nas Ilhas Britânicas, com uma importante concentração na Escócia. Essas famílias moravam ali desde o começo do século XX. Eram vendedores de sorvete ou tinham lanchonetes onde se vendia peixe e batata frita, uma iguaria que vem até nossos dias, conhecido como fish and chips. Muitos deles tinham filhos e outros parentes servindo nas Forças Armadas Britânicas.

Havia pouco que a Itália entrara no conflito. O primeiro-ministro Winston Churchill considerou que os imigrantes italianos ofereciam perigo à população britânica e achou necessário seu encarceramento. No começo de junho de 1940, todos os homens italianos não fardados, entre 18 e 70 anos de idade, foram presos pela polícia ou pelos militares, levados de suas casas ou de seu trabalho. Relatórios da Cruz Vermelha comprovam que foram maltratados pelas autoridades e mantidos em campos de internamento, em condições desumanas, sem alimentação apropriada, facilidades sanitárias ou assistência médica.

Os detentos não tinham quaisquer direitos e lhes foram negados até mesmo aqueles básicos permitidos a prisioneiros pela Convenção de Genebra. Tiveram seus pertences roubados. Os parentes não foram informados do que acontecera a seus maridos, irmãos ou pais. Quando foram mandados para o além-mar, ninguém foi notificado. As famílias deles que residiam em áreas costeiras, foram obrigadas a mudar para cidades do interior, sem nenhum apoio governamental. Eram mulheres e crianças sem casa e sem qualquer assistência.

Decidiu-se mandar um grupo de cativos para o Canadá e a Austrália a bordo de um navio de nome Arandora Star. Este saiu de Liverpool levando 1570 italianos, alemães e judeus. A embarcação fora pintada de cinza, parecendo um navio de transporte de tropas. Não levava nenhuma cruz vermelha ou qualquer outro meio de identificação e não tinha nenhum comboio de suporte. O número de barcos salva-vidas era suficiente para atender a apenas 500 passageiros e havia uma superlotação a bordo. Oitenta por cento da tripulação fora engajada na manhã do embarque e não houve nenhum treinamento para emergências nem para a tripulação, nem para soldados ou prisioneiros.

Na manhã de 2 de julho de 1940, próximo à costa da Irlanda, o Arandora Star foi torpedeado pelos alemães e afundou, com a perda de quase 700 vidas, das quais 446 eram de imigrantes italianos que haviam feito do Reino Unido sua residência permanente. Muitos dos italianos dormiam no chão do salão de bailes do navio quando o torpedo atingiu a embarcação e foram gravemente feridos por estilhaços dos grandes espelhos lá existentes.

Os sobreviventes do Arandora Star foram mais uma vez maltratados pelos britânicos quando chegaram a terra firme e, apesar de tudo pelo qual tinham passado, foram colocados em outros navios e transportados para campos de internamento na Austrália.

O governo britânico jamais se desculpou pelo ocorrido às vítimas do Arandora Star. O governo americano, que teve vários campos para japoneses durante a Guerra, mais tarde pediu desculpas e providenciou compensação para eles e suas famílias. Entretanto, esses detidos não chegaram a sofrer as mesmas atrocidades dos italianos.

Anualmente são celebradas missas na Itália e nas comunidades italianas do Reino Unido, em memória dos que pereceram, para que nunca se esqueça os sofrimentos pelos quais as vítimas passaram.

Recentemente, o primeiro-ministro escocês e um arcebispo de origem italiana anunciaram que um memorial será erguido em Glasgow, próximo à Catedral de St. Andrews, para lembrar essa “tragédia esquecida” e consideraram-no um “símbolo adequado” da amizade existente entre a Escócia e a Itália. Contudo, muitos não concordam com isso: gostariam de ouvir desculpas oficiais do governo britânico e ver as famílias compensadas pela perda de seus entes queridos.

domingo, 22 de março de 2009

A CASA NA ÁRVORE



Quanta saudade me traz ao escrever estas linhas. Retorno à minha infância e aos muitos sonhos daquela época, alguns que se realizaram, outros que “nem por sonho” aconteceram. Naqueles tempos, ainda começava a era da televisão, um aparelho caro que poucos tinham possibilidade de adquirir. Em conseqüência, as crianças ficavam no quintal ou na rua e, fundamentalmente, brincavam com outros coleguinhas da vizinhança. Era, sem dúvida, uma vida salutar ao ar livre, com muitos jogos e entretenimento.

Tudo isso é muito diferente dos dias atuais, quando os meninos ficam isolados no computador ou, então, assistindo televisão. Para tirá-los de diante dessas telas, os pais têm que recorrer a muitas artimanhas, conscientes do fato de que a vida ao ar livre, mesmo com a poluição existente nas grandes cidades, é mais saudável para os filhos.

Havia árvores frondosas na rua onde morávamos, seguramente plantadas ali por ocasião do planejamento do bairro. Troncos enormes, suas copas eram espraiadas e os ramos cresciam desordenadamente, entrelaçando-se nos fios elétricos que percorriam a rua para servir as casas. Rotineiramente, funcionários da Light & Power vinham cortar os galhos que comprometiam a fiação e estes ficavam até uma semana jogados na calçada, aguardando para serem recolhidos pela Prefeitura.

Para nós, crianças, esses pedaços de árvore eram peças importantes para montarmos, lá mesmo na calçada, as nossas cabanas. Fazíamos como visto em filmes, primeiramente a estrutura com os galhos mais fortes e depois cobrindo o telhado e as laterais com galhos menores que tinham bastante folhas, de tal sorte que mal se via o interior da cabana pelo lado de fora.

Quando havia bastante gente, formavam-se grupos rivais, para ver quem fazia a cabana maior e mais resistente. Os líderes das turmas eram sempre os meninos mais fortes e mais velhos. Lembro-me bem de uma briga que tivemos, devido à derrubada de uma cabana, apenas para provar que aquela era a mais fraca. Ficamos dias sem conversar uns com os outros.

Eram tempos gostosos. Passávamos horas nas cabanas, brincando, conversando, trocando idéias. Quando éramos chamados para almoçar ou jantar, ou porque estava na hora de ir para a escola, resistíamos até o último momento. Freqüentemente, fingíamos que não estávamos ouvindo nossas mães e os safanões eram merecidos quando acabávamos aparecendo.

Entre os diversos tópicos abordados em nossas conversas pueris dentro da cabana estava o plano de se construir uma casa numa árvore. Eu até sabia qual seria a adequada, visto que não poderia ser uma das árvores centenárias da rua. O fundo do nosso quintal era bem grande, com muitas pitangueiras, jabuticabeiras, ameixeiras e goiabeiras. Minha mãe tinha vários canteiros preparados, alguns com flores e alguns com hortaliças e outros vegetais. Porém, bem no meio desse vasto quintal havia um enorme abacateiro. Para nós era de proporções imensas, sendo necessário três meninos para abraçar seu tronco. Foi a primeira vez que ouvi dizer que abacateiros só cresciam nessa proporção quando eram plantados a partir do caroço e não enxertados.

Foi essa árvore que ofereci aos meus coleguinhas para a gente construir nossa casa. Fruto da fértil imaginação infantil e de tê-la visto em revistinhas em quadrinhos e em filmes no cinema, começamos a planejar como seria.

Precisava ter dois aposentos: um para os meninos e outro para as garotas. Não teria a mínima graça ficar lá em cima sem a presença delas. Nossa inocência ainda não permitia planejar nada além de sua singela companhia. O acesso entre os quartos não poderia ser por dentro; queríamos ter uma liberdade que não fosse interrompida pelo sexo oposto. Portanto, haveria entradas separadas e, para tal, seria necessária uma pequena varanda unindo as duas. O acesso seria por uma escada feita de degraus de cabo de vassoura, amarrados um a um por uma corda contínua. Quando lá em cima, a escada podia ser recolhida e ninguém iria nos tirar da nossa casa na árvore. Passamos vários dias desenhando a planta em folhas de papel arrancadas de um velho caderno.

Qual não foi nossa frustração quando tivemos de interromper nossos devaneios porque, de um dia para o outro, a Prefeitura passou e recolheu todo os ramos e galhos cortados. Destruíram nossas cabanas e também levaram nossos planos no papel que havíamos deixado na cabana na noite anterior.

Esperamos ansiosamente pela próxima poda para reiniciar nosso sonho de uma casa na árvore. Já não eram os mesmo companheiros. Alguns estavam mais velhos e não queriam mais saber de nós; outros eram novatos que não entendiam de que estávamos falando. A frustração foi grande para aqueles que haviam participado do planejamento de quase um ano antes. Tentamos fazer nova planta da casa, mas não ficou tão boa quanto aquela que a Prefeitura nos “roubou”.

Enfim, chegamos a uma arte final, assim por dizer, que eu teria de apresentar ao meu pai para aprovação e para ele construir. Pois, é claro que nós, os pequenos, não teríamos condições de realizar essa empreitada. Tremendo por dentro, com os papéis na mão, lá fui eu, sozinho, mostrar os desenhos para ele. Tenho que dizer que ele encarou tudo com muita seriedade, feliz em saber que estávamos colocando nossas cabecinhas para trabalhar num objetivo tão diferente e estimulante.

Após olhar os papéis, com nossos rabiscos irregulares, ele retirou o cachimbo da boca, deu uma batidinha com o mesmo no cinzeiro sobre a mesa e me disse:
— Parabéns, filho, pelo que tem aqui. É uma obra gigantesca que eu não poderia fazer. Também, não há nenhuma árvore aqui por perto em que poderíamos colocar sua casinha.Ao contar-lhe que queria usar o abacateiro do jardim, ele olhou espantado para mim:
— Isso seria impossível. Você não sabia que os galhos do abacateiro são pouco resistentes e quebram com facilidade?

E foi assim que esse sonho não se realizou...