quinta-feira, 27 de abril de 2017

A REVOLTA IRLANDESA E ALEMÃ NO RIO DE JANEIRO


(um episódio esquecido da História do Brasil)

As Províncias Unidas do Rio da Prata se tornaram independentes da Espanha em 1809, tendo como capital Buenos Aires (o nome Argentina só foi utilizado após 1826). A Província Cisplatina fazia parte do Império do Brasil, mas a Argentina a reivindicava para si. A Província era estrategicamente muito importante para o Brasil, pois se localizava no delta dos rios Paraná e Paraguai, dois rios importantes para o escoamento do ouro das Minas Gerais e da prata do Peru.
Em 1825, as Províncias Unidas do Rio da Prata invadiram a Cisplatina, instigando os moradores, principalmente do interior, contra o Brasil. O Imperador D. Pedro I considerou a situação intolerável e lhes declarou guerra.
À medida que a guerra avançava, foi necessário contratar estrangeiros para reforçar o contingente armado. Os jornais, políticos e homens de negócios que se opunham à guerra, haviam envenenado a população contra estes soldados para lutar uma guerra que parecia não ter fim. Havia batalhas nas ruas do Rio de Janeiro entre os estrangeiros (principalmente alemães) e os brasileiros e escravos africanos, levando muitas vezes a graves consequências.
D. Pedro encontrava-se em situação bastante delicada, pois tinha de resolver logo esta guerra com o país vizinho. Precisava de mais soldados, a fim de fortalecer as tropas combatentes. Com esta finalidade, enviou um mercenário irlandês de nome Coronel Cotter para recrutar seus compatriotas com a promessa de fazendas de 20 hectares para cada família, livres de qualquer custo ou vínculo.
Mais de 2500 fazendeiros pobres e iliteratos e suas famílias se aventuraram. Muitos venderam o pouco que tinham para comprar implementos agrícolas para a vida nova no Brasil. Aparentemente, não sabiam que tinham sido recrutados para lutar como mercenários.
Dez navios deixaram Cork, na Irlanda e chegaram ao Rio de Janeiro entre dezembro de 1827 e janeiro de 1828. Quando chegaram, viram as promessas virarem pó, pois os irlandeses descobriram, ao aportarem, que Cotter havia lhes faltado com a verdade. A maioria recusou fazer parte da milícia, pois foram trazidos da Irlanda como colonos. Resistiram bravamente em não usar o uniforme do exército imperial e somente após a intervenção do embaixador inglês, houve uma trégua na exigência de fazerem parte da tropa de mercenários.
Os irlandeses foram abandonados, sem proteção ou apoio das autoridades. Tiveram de formar grupos para se defenderem, lutando com paus e pedras contra os agressores, que consistiam fundamentalmente dos escravos africanos, que formavam uma boa parte da população do Rio de Janeiro e que tinham profunda antipatia pelos imigrantes irlandeses e alemães que eles chamavam de escravos brancos.
Havia grande descontentamento entre os irlandeses e os mercenários alemães devido ao mau tratamento dado pelos comandantes, falta de pagamento de salários e boatos de que era iminente a ida deles para o sul para lutar. Um dos alemães foi condenado a cinquenta chibatadas por uma pequena infração, que foi quintuplicada para 250, sem nenhuma justificativa. Depois de 210 chibatadas, os alemães libertaram seu camarada e atacaram o oficial. Este foi o estopim para a revolta, que começou em 9 de junho de 1828. Notícias da revolta alemã rapidamente chegaram aos irlandeses e cerca de 200 deles se juntaram aos insurgentes.
Dirigiram-se ao centro da cidade, as fileiras aumentando com a participação dos colonos irlandeses frustrados pelas promessas não cumpridas, acompanhados de suas mulheres e crianças. Logo começou intensa violência. Saquearam e queimaram centenas de casas e lojas e, por onde passavam, gritavam: “Morte aos portugueses!” e “Morte aos brasileiros!”. Ameaçavam inclusive enforcar D. Pedro.
No segundo dia chegou-se à conclusão de que as tropas brasileiras no Rio de Janeiro eram insuficientes para acabar com a revolta. Foram fornecidas armas aos cidadãos e, pela primeira vez, aos escravos africanos. Lentamente, os irlandeses e alemães foram obrigados a recuar e a se isolar nos quartéis, os melhores locais para poderem se defender.
O imperador solicitou ajuda das Marinhas Inglesa e Francesa atracadas no porto do Rio. Os marinheiros ocuparam locais estratégicos na cidade, liberando o contingente brasileiro para atacar os amotinados.
No terceiro dia, muitos dos rebeldes se renderam e foram conduzidos ao cais do porto, onde foram aprisionados em navios. Houve grupos que se recusaram e, no dia seguinte, foram dizimados numa batalha com pesadas baixas de ambos os lados. O número oficial entre amotinados, civis e tropas do império, foi de 360 mortos e 480 feridos. O centro do Rio de Janeiro estava destruído, com corpos dos mortos e mutilados por toda parte.
D. Pedro I queria se livrar o quanto antes daqueles rebeldes. Os alemães foram mandados para províncias em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Quanto aos irlandeses, cerca de 1500 foram mandados de volta para a seu país de origem, à custa dos cofres brasileiros, e ainda mais pobres do que quando deixaram a Irlanda.
Dado ao alto custo da guerra pelos dois países e o comprometimento do comércio principalmente com a Grã-Bretanha, aquele país forçou os beligerantes a assinarem, cerca de dois meses depois do motim, o Tratado de Montevidéu, onde foi reconhecida a independência da Província Cisplatina, sob o nome de República Oriental do Uruguai.
Mais uma vez, observa-se a inútil perda de vidas, por causa de uma decisão inescrupulosa e precipitada de um governo autocrático e autoritário. A perda da Província Cisplatina deixou o povo brasileiro muito insatisfeito com o Imperador e, embora não fora o principal motivo, contribuiu para forçar a abdicação de D. Pedro I em 1831.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O ESCOCÊS E O KILT


Certa noite, um jovem escocês deixou o bar,
E podia-se imaginar, pelo jeito dele andar,
Que havia tomado todas, mais do que pudesse guardar!
Cambaleava até ficar em pé não mais conseguir,
E deitou-se na grama, ao lado da calçada, para dormir.
Pouco tempo depois, duas belas garotas passaram por ele,
E, olhando uma para a outra, pestanejando, disseram dele:
— Oh, que bonito e forte escocês. Nem um pouco velhote,
Será que é verdade o que não usa por baixo do saiote?
Aproximaram-se silenciosamente para mover
Seu kilt, que levantaram alguns centímetros para ver
Nada além do que Deus lhe abençoou ao nascer!
Maravilharam-se com a visão, mas apressaram-se para ir,
Propondo deixar-lhe uma lembrança antes de partir.
Como presente, uma fita azul em laço uma delas amarrou
Em volta da “estrela” escocesa que o saiote erguido mostrou.
Ao acordar pelo chamado da Natureza, o escocês cambaleou
Rumo a um grupo de árvores e atrás de um arbusto ficou.
Levantou seu kilt e estupefato deslumbrou
E disse, em voz trêmula, perante o que lá constatou:
— Meu chapa, eu não sei por onde você andou,
Mas vejo que o prêmio de primeiro lugar você ganhou!!
Poema desenvolvido e baseado na
letra de uma tradicional
canção de língua inglesa, intitulada
“The Drunken Scotsman”
(O Escocês Bêbado)

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O REI ARTUR E A TÁVOLA REDONDA




 O Rei Artur é uma figura histórica, no sentido de simbolizar um acontecimento verdadeiro, ou seja, a luta dos celtas contra a invasão dos saxões durante o século V e começo do século VI da era cristã. Por outro lado, embora tenha sido identificado como rei dos celtas, ele não é histórico, pois a existência dele jamais foi comprovada. O que tem chegado aos nossos dias não é uma biografia, mas uma lenda de extraordinária beleza. A maioria dos historiadores acha que Artur provavelmente existiu, ou como um indivíduo, ou como a composição de várias pessoas. Já que muitos heróis medievais eram homens de verdade, há a possibilidade de que Artur tivesse sido um guerreiro medieval celta, sobre o qual foi construída uma superestrutura mitológica. Suas histórias se tornaram importantes como base da origem da Inglaterra atual, principalmente pela narrativa do relacionamento entre saxões e celtas.

Dizem que nasceu em Tintagel, sob a proteção do mago Merlin. Há muita magia em torno do nome de Artur. Viveu com sua esposa, a Rainha Guinevere, em Camelot, sede de sua corte. Outro local importante na lenda arturiana é Avalon, onde Viviane, a Dama do Lago, entregou para Artur a espada Excalibur. Uma outra, que tinha sido dada por Merlin, fora quebrada em combate. Quando Artur se feriu gravemente na sua última batalha, foi levado para Avalon, onde acabou morrendo.

A primeira descrição que se tem de uma távola redonda relacionada com o Rei Artur foi em 1155, pela disputa entre seus cavaleiros que não aceitavam ficar num lugar mais inferior do que de seus pares. Daí a távola redonda, ou seja, uma mesa arredondada, que deixava todos em igualdade de condições à mesa, pois não havia nenhuma cabeceira. Lendas à parte, consta em certas crônicas que o próprio Carlos Magno (c.742-814) possuía uma távola redonda decorada com o mapa de Roma.

A cidade de Winchester, que era “a primeira cidade do Reino Saxão Ocidental”, nunca foi considerada a capital da Inglaterra, pois o consenso geral entre historiadores sobre os anglo-saxões era de que a corte real era itinerante naquela época e não havia uma capital fixa. Duas estruturas são de suma importância: a Catedral e o Castelo. A catedral é bem conhecida, por possuir a mais longa nave de todas as catedrais góticas da Europa. O Castelo de Winchester, originalmente construído para Guilherme, O Conquistador, em 1067, tem o Grande Salão como a única estrutura remanescente. O castelo é famoso, porque lá se encontra uma imitação da Távola Redonda do Rei Artur, e o tampo da mesa está pendurado numa parede deste salão. Acredita-se que esta mesa redonda tenha sido feita para um torneio próximo de Winchester, festejando o enlace de uma filha do Rei Eduardo I, em 1290.

Tomei conhecimento de que a Távola Redonda existia mesmo quando, em 1958, li sobre a mesma no jornal “O Estado de São Paulo”. Guardo o recorte até hoje e fiz uma promessa de que na minha primeira visita à Inglaterra, conheceria esta famosa e lendária mesa. Só consegui cumprir minha intenção 34 anos depois!

É, sem sombra de dúvida, uma mesa fantástica, muito elegante. O tampo mede 5,5m de diâmetro, com espessura de quase 10cm, pesa 1200kg e é feito de carvalho inglês maciço. Está exposta numa das paredes do Grande Salão seguramente desde 1522; provavelmente desde 1348, ano em que se fez uma reforma do salão. A decoração pintada que vi, foi feita no reino de Henrique VIII, que mandou inserir a rosa dos Tudors em seu centro (símbolo de sua dinastia). As cores são tão vivas que parecem ter sido feitas ontem. Logo acima da rosa central encontra-se a figura de Henrique VIII, como a substituir o Rei Artur. Nas bordas da mesa há os nomes de 24 dos lendários Cavaleiros da Távola Redonda (vários nomes vem à mente: Sir Percival, Sir Lancelot, Sir Galahad e Sir Mordred). Torna-se impossível ler o que está escrito, pois o tampo está erguido a uns seis metros do chão. Mesmo observando uma fotografia de perto, para nós, leigos, as palavras góticas ficam difíceis de ler! Esta pintura foi feita especialmente para impressionar Carlos V, da Espanha, quando visitou a Inglaterra naquele ano de 1522. Parece que, originalmente, a mesa não possuía nenhuma decoração. Há sinais de que o tampo fora coberto, antes da decoração mencionada, com feltro ou couro. Com o passar do tempo teve de ser removido, provavelmente porque apodreceu.

As histórias do Rei Artur e seus nobres Cavaleiros da Távola Redonda perduram há mais de 1500 anos e é uma saga épica de fascinante interesse para historiadores e leigos.

Quem visita Winchester, vislumbrando a mesa, pode usar seu imaginário e ver os lugares ocupados por aqueles cavaleiros com suas vestes deslumbrantes, seus elmos e suas espadas, prontos para defender o Rei Artur de saxões e outros invasores, sabendo que suas famílias estariam seguras e os esperavam em Camelot.


sábado, 3 de setembro de 2016

ESCÓCIA

AOS CAROS LEITORES

Como todos sabem, sou um aficionado pela Escócia.
Decidi, portanto, colocar um marcador para textos
relacionados com este maravilhoso país. É só procurar em 
Modalidades e clicar em 15. Escócia (textos relacionados)
e abrirão os textos sobre a Escócia. Outra alternativa é
procurar no Índice: Escócia, onde encontrará todos
os títulos relacionados.


HISTÓRIAS DE HIGHLANDERS




Highlanders são os escoceses que vivem nas Terras Altas da Escócia. Tradicionalmente, são pessoas rudes, fortes e guerreiras, porém têm um princípio muito importante, o de serem sempre hospitaleiros, e com todos. Há muitas histórias sobre eles, haja vista aquelas eternizadas por grandes escritores, como o novelista Sir Walter Scott e o poeta Robert Burns. Fato ou lenda, todos os escoceses estão familiarizados com as mesmas, como as duas histórias a seguir.


O thistle, aqui conhecido por cardo, é um arbusto espinhento que dá flores roxas muito exóticas. Conta-se que, no século X, os highlanders de um certo castelo escocês já haviam rechaçado várias investidas de vikings provenientes da Noruega. E eles, por sua vez, estavam cansados de tantas derrocadas. Decidiram, então, atacar as fortificações escocesas na calada da noite. Inteligentemente, contando com o elemento surpresa, foram descalços, para que sua presença não fosse percebida. Foi necessário que atravessassem o fosso junto ao castelo, no qual cresciam plantas silvestres, justamente os thistles. Os escoceses foram alertados pelos gritos de agonia dos invasores ao pisarem nos espinhos e, mais uma vez, os vikings foram derrotados. Desde então, o thistle tornou-se a flor-símbolo da Escócia.



Os clãs da Escócia são possuidores de terras que, em geral, eram passadas de geração em geração, sem a menor preocupação de qualquer registro de propriedade. Os limites territoriais, frequentemente, eram motivo de discussões acaloradas e de guerras entre os clãs, com grande perda de vidas. Os MacLeods e os MacDonalds estavam se dizimando devido à disputa de uma península na Ilha de Skye, que fica na costa oeste da Escócia. Os chefes dos clãs estavam preocupados com as mortes que ocorriam e, certa vez, reuniram-se para tentar pôr fim àquela luta. Ficou decidido que se faria uma corrida de barcos, com a partida a uma determinada distância no mar aberto, e quem chegasse primeiro à praia, seria declarado vencedor. Lá se foi um barco-a-remo de cada clã, contando com vários highlanders de braços fortes em cada um. Foi dada a largada e, desde o começo, os MacLeods se encontravam à frente. Os MacDonalds lutavam para passar os adversários, mas, quando se emparelhavam, os MacLeods se esforçavam mais e conseguiam a dianteira. Os chefes dos clãs estavam na praia, aguardando a chegada. O sorriso de satisfação do chefe MacLeod era aparente, pois a poucos metros da praia, a embarcação dos seus estava se aproximando. Repentinamente, um MacDonald levantou-se no seu barco, tirou o punhal preso à sua perna, decepou sua própria mão e a atirou na praia, por cima dos MacLeods, portanto chegando antes deles. Com isso, conquistou o direito de posse das terras para seu clã. Durante toda a vida, aquele highlander foi tratado como herói. Para perpetuar a memória do grande feito, uma mão faz parte do brasão dos MacDonalds. Até hoje, os descendentes daqueles guerreiros são os donos daquela parte da ilha.

thistle

  Brasão dos MacDonalds


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

UMA NOITE MAL DORMIDA

Dormia placidamente, feliz. Qualquer um que o observasse, veria um sorriso estampado em seu rosto. Porém, no meio da noite, acordou de sobressalto. Abriu os olhos e nada enxergou, devido ao breu em que estava mergulhado seu quarto. Apesar da felicidade de seus sonhos, franziu a testa na tentativa de descobrir o que motivara seu despertar. Naquela escuridão, silêncio total. Só ouvia o seu próprio respirar. Prendeu a respiração por uns instantes e, nada! Tudo continuava silente! Percebeu que tinha acordado de bobeira. Estava deitado de costas, e ainda pensou:
— Será que ronco?
Deu uma discreta risadinha, virou-se de lado e, com o velho sorriso estampado no rosto, dormiu novamente. No entanto, não se passaram mais do que dois minutos, ou teria sido mais tempo, pois devido ao sobressalto que sentira ao acordar, tinha esquecido de ver as horas e muito a contragosto, levantou-se e acendeu o abajur. Sentou-se à beira da cama, tentando recompor os pensamentos até sentir um frio a lhe gelar as costas. Silêncio total! Apagou a luz e deitou-se novamente. Deitado de costas de novo, com os olhos bem abertos, obviamente nada via naquele breu. Silêncio total! Ou era? Silêncio total? Estava imaginando coisas ou estava ouvindo um grunhido bem baixinho? De onde vinha? Preocupado, tentou localizar o som. Imaginava que vinha do seu guarda-roupa.
— Será que há ratos lá? Será que estão fazendo a festa com meu pijama de bolinhas vermelhas?
De tanto fazer esforço para localizar os ratos, as pálpebras começaram a ficar pesadas. E ele, um tanto torporoso, já não sabia se estava dormindo, sonhando ou levantando-se para verificar seu pijama no armário.
Conseguiu dormir profundamente, mas acordou de novo com um grunhido que agora parecia vir de mais perto.
— Meu Deus! Será que os ratos vão me atacar?
Começou a dar uma risadinha, que achava que já tendia ao histerismo. Bem, até juraria que sentiu quando lhe mordiscaram o dedão do pé. Prestou bem atenção para localizar o som. Desta vez estava próximo de sua cama. Debaixo da cama? Não se aventurava ligar o abajur novamente. Queria pegar os danadinhos de surpresa. Pôs a mão embaixo da cama, roçou numa coisa felpuda e pensou:
— Peguei um dos sem-vergonhas!
Logo viu que se enganara, pois era uma das meias que tinha tirado do pé ao deitar. Com o sono, adormeceu outra vez, segurando a meia na mão.
Acordou com um susto daqueles. O grunhido agora vinha de sua própria cama! Pôs o braço direito a explorar aquela parte da cama dupla. Tocou num vulto. Verificou que estava quente. Imediatamente lembrou-se da cena daquele filme em que aparece a cabeça de um cavalo na cama de seu dono. Levantou-se rapidamente, acendeu a luz e encontrou uma mulher na sua cama, que dormia tranquilamente, e que grunhia, ou melhor, roncava delicadamente.
Olhou estupidamente para a dona do grunhido. Pôs a mão na cabeça. É claro! Havia bebido um pouco a mais na festa da noite anterior e trouxe uma amiga para sua casa que estava pior do que ele. Tinha tirado os sapatos dela e a deitou na sua cama. A moça simplesmente virou-se de lado, totalmente desligada, e dormiu. Ele ficou um tempo olhando, olhando. Começou a soluçar. Depois, teve de pôr a mão à boca, porque estava chorando de tanto dar risada.
Ratos? Foi até o guarda-roupa. Estava com saudades do pijama de bolinhas vermelhas. Iria tirá-lo de lá para usar na noite seguinte. Abriu o armário. O pijama, que da última vez estivera pendurado num cabide, estava caído na parte inferior do armário, todo comido Estupefato, pegou o pijama. Olhava do pijama para a cama e depois para o guarda-roupa, do armário para a cama e de volta. Pensou:
— Será que havia ratos mesmo?