Só quem não teve bicicleta quando moleque, não passou por algum episódio, alguma aventura ciclística. Não sou exceção.
Por volta dos 11 anos de idade, era o feliz proprietário de uma bicicleta aro 28, da marca B.S.A., que meu pai comprara de segunda mão de uma família inglesa que partia de volta para seu país de origem. A B.S.A. – Birmingham Small Arms – era uma empresa britânica fabricante de pequenos armamentos e aquele veículo de rodas sua arma mais potente (em minhas mãos).
Era freqüente pregar susto nos meus pais, quando telefonava da casa de amigos a uma distância razoável de onde morávamos. Apesar de ter ocorrido há mais de quarenta anos, a preocupação com a segurança de uma criança já era uma constante, tanto pelo trânsito, como pela sua integridade pessoal.
Certa feita, a bicicleta se encontrava sem freios e pára-lamas. Guinchava quando se pedalava, ou seja, eu era um primor com sua conservação. Ela estava muito bem cuidada em minhas hábeis mãos infantis! Meu pai exigiu que a levasse na bicicletaria para, pelo menos, arrumar os breques. Deu-me o dinheiro e lá fui eu, contente da vida, já calculando quanto sobraria de troco para comprar uns doces. Devolver o troco? Nem pensar!
Assim, distraidamente, fui atravessar uma rua que apresentava um declive acentuado. Tive de me desviar rapidamente de um carro que descia em alta velocidade, mas virei a bicicleta no sentido errado, ou seja, eis que me encontrava seguindo aquele automóvel a quase a mesma velocidade, ladeira abaixo.
Estava sem freios, numa descida violenta, ganhando aceleração a cada instante que passava. Parecia voar. Sabia que a rua de paralelepípedos terminava na outra esquina e a rua que a atravessava lá embaixo era muito movimentada. Sentar no pára-lama traseiro e me jogar da bicicleta, deixando-a seguir em frente, não dava, por que não havia pára-lama. Iria me ralar todo! Com aquela velocidade, saltar de lado também não era possível. Usar os pés na roda da frente para tentar frear nem passou por minha cabeça, embora não sei se teria dado certo, pela velocidade alcançada.
Que fazer! As duas mãos seguravam com firmeza o guidão, parecendo um bloco só, na tentativa de manter o equilíbrio contra o solavanco das pedras do chão. Desatei a gritar por socorro. “Socorro! Socorro!”. Na esquina de baixo havia uma lojinha onde se consertavam geladeiras. O dono saiu lá fora ao ouvir os gritos e viu aquele garoto descendo a ladeira à toda, trepidando sobre o calçamento de paralelepípedos, os óculos saltitando na cara, os pés afastados dos pedais, estes girando loucamente, sem controle. “O que pretende esse doido?” pensou, mas foi para o meio da rua parar os carros que porventura passassem naquele instante. Por sorte, não havia nenhum.
Cruzei a rua, tive milésimos de segundo para me esquivar de um poste, subi na calçada e me espatifei contra o muro de uma casa. Morri? Não, não morri, pois estou aqui contando minha história.
Aliás, nem desfaleci, pois a primeira coisa que veio a minha cabeça foi: “Meus óculos! Meus óculos!”. Os curiosos já se aglomeravam a minha volta, aquele menino de 11 anos que beijara a parede, sangrava pelo nariz e estava deitado em cima de um monte de ferro retorcido, clamando pelos seus óculos. Alguém os encontrou entre os aros da bicicleta, incólumes e me deu.
Com os mesmos no lugar, pude avaliar o estrago. O reboco do muro estava rachado. A roda da frente da bicicleta virara um oito, o pneu de trás estava furado e o quadro todo torto. Eu sangrava pelo nariz, cortara a mão e rasgara a camisa. Minutos depois, apareceu minha mãe (estávamos a poucos quarteirões de casa) que, muito assustada, me levou à farmácia mais próxima. Fizeram-me uns curativos.
Mais tarde fui levado ao otorrino para tratar o nariz quebrado. Da bicicleta, esta chegou na bicicletaria e acho que nunca mais saiu de lá.
Para quem quiser saber, morávamos na Rua Manoel da Nóbrega. Desviei-me do carro na esquina da Rua Otávio Nébias, desci a Rua Maria Figueiredo e atravessei a Rua Tutóia. O poste ainda se encontra lá. A casa agora é comercial e o muro foi retirado para aumentar o local de estacionamento de automóveis...
domingo, 29 de junho de 2008
A BICICLETA
domingo, 22 de junho de 2008
PONTA-DE-LANÇA
Julinho era um excelente jogador. Além de ser um craque no seu esporte predileto, o futebol, gostavam dele porque tinha um ótimo relacionamento com todos. Sua pouca idade — doze — não lhe impedia de participar das peladas com os adultos da vizinhança.
Como faziam seus amigos todos os domingos, logo cedo batiam na porta de sua casa, chamando-o para o jogo. Habitualmente, este se prolongava até quase a hora de almoço. Tinha compromisso assumido com os pais de se apresentar, já de banho tomado, para a reunião familiar, exatamente ao meio-dia e meia.
Aquele domingo parecia que não iria diferir de nenhum outro e lá foi Julinho para seu futebol. Seu pai lia o jornal tranqüilamente, tendo-o buscado no jornaleiro de manhãzinha. Sua mãe varria o quintal e sua irmã ainda dormia.
Costumavam jogar num campinho do outro lado do rio, mas quando lá chegaram, o campo já estava ocupado por dois times conhecidos. Eram todos amigos e, por isso, não gerou discussão. Além do mais, o campinho era propriedade da Prefeitura, portanto, todos tinham igual direito sobre ele.
Ficaram assistindo ao jogo dos outros. Inconformados por não poderem jogar, decidiram bater bola na rua de terra vizinha ao campo. Quem sabe a partida terminaria logo, e então poderiam jogar também. Até pediriam para a outra turma participar, pois faltavam dois elementos para completar duas equipes.
De um lado da rua havia o campinho e, do outro, várias casas, algumas com cercas vivas, outras com grades altas de ferro trabalhado, e uma ou outra nem cerca tinha.
Em dado momento, alguém chutou a bola com muita força. Sabe como é, o entusiasmo, a gritaria e lá foi a bola cair dentro de uma das casas. Julinho, sempre prestativo, tocou a campainha. Ninguém atendeu. Tocou de novo. Nada. Olharam uns para os outros. Era óbvio que os donos da casa estavam ausentes. Com fazer então? Confabularam e decidiu-se que Julinho pularia a cerca para pegar a bola. Ou melhor, escalaria a grade de ferro, pois esta era alta, com lanças no topo.
Dito e feito. Passou para o outro lado sem grandes dificuldades, catou a bola e a jogou para a rua. Agora precisava vencer aquela cerca de novo. Estava cansado. Apesar de ser jovem e ágil, não era todo dia que escalava grades altas e traiçoeiras. Disse traiçoeira? Verdade, pois ao passar por cima das lanças pontiagudas, quando já estava com as pernas do lado de fora da grade, errou a posição de colocar o pé e escorregou. Para não cair, agarrou-se nas lanças e sua mão esquerda foi cravejada pela ponta de uma delas.
Gritou. Pediu socorro. Até o pessoal que estava jogando parou para ver o que estava acontecendo. Julinho se encontrava pendurado na grade, com a mão presa na ponta-de-lança. Os amigos logo entenderam a situação, e dois deles foram amparar suas pernas, para tirar o peso do corpo da mão machucada. Um dos jogadores foi à procura de ajuda. Um dos vizinhos, ouvindo a gritaria, foi ver o que acontecia. Avaliando as circunstâncias, pegou uma serra de metal e serrou aquela ponta-de-lança. Não se aventurou em tentar retirá-la, pois estava fincada como um anzol e só sairia se se ampliasse a ferida.
O mesmo vizinho pôs o menino em seu automóvel e o levou para o Pronto Socorro mais próximo. O médico examinou o rapaz, deu-lhe um analgésico injetável e recomendou que procurasse um hospital, pois necessitaria de cirurgia para retirar aquele “corpo estranho”. A única ambulância disponível tinha saído em uma remoção e tardaria a retornar.
Quando chegaram ao hospital onde eu estava de plantão, já tinham passado por dois outros hospitais que recusaram atendê-lo, alegando que necessitava de um cirurgião de mão. Acostumado que estávamos em atender acidentes do trabalho, das quais uma alta incidência era de traumas de mão, além da política do hospital de não recusar qualquer paciente que necessitasse de atendimento de urgência, Julinho foi internado e levado para o Centro Cirúrgico.
A bem da verdade, ele teve muita sorte. A ponta-de-lança tinha entrado por sob a pele, ferindo muito pouco as estruturas mais nobres da mão. Fomos obrigados a fazer uma extensa incisão por toda a região palmar para liberar o objeto e evitar de lesioná-la ainda mais. Na segunda-feira, depois que me contou como fora o acidente, recebeu alta hospitalar e foi para casa. Acompanhei o menino no nosso Ambulatório. Não apresentou qualquer seqüela e tive a satisfação de lhe dar alta definitiva cerca de quinze dias depois.
No dia seguinte ao infortuno acidente, apareceu um senhor no hospital à minha procura. Apresentou-se como o proprietário da casa onde ocorrera o acidente e veio solicitar que lhe devolvesse a ponta-de-lança para soldá-la de volta na grade. Dei-lhe uma bronca, recomendando que retirasse as outras lanças, ou que pelo menos retirasse as ponteiras tão afiadas. Aleguei que tinha jogado fora. O homem foi embora, muito bravo. Merecia a lição.
Que fim levou a ponta-de-lança? Eu a dera para os funcionários da Manutenção do hospital, pois ficara impressionado com seu peso. Era toda pintada de azul claro. Os rapazes de lá removeram a tinta. Descobrimos que era de bronze. Limaram a ponta, que era muito afiada. Alguns dias depois me devolveram o “corpo estranho”, que guardo como recordação daquele episódio e que uso até hoje como peso de papel.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
MACARRÃO
Colaborador: Geovah Paulo da Cruz, médico oftalmologista, biólogo, escritor e culinarista
O macarrão era comido de dois modos. O mais comum era também aproveitar a água quente do cozimento, o caldo. O macarrão in brodo, comido como sopa, confortava o estômago. Inventaram de colocar outras coisas no cozimento, e estava inventada a minestra, uma sopa mais rica, sobretudo em legumes e alguma carne. Daí surgiu também o minestrone, ou sopão, mais no sentido de riqueza e variedade. Porém o macarrão cuja água se desprezava, escorrida, se comia seco, ou seja, asciutto. Então, todo macarrão assim preparado passou a se chamar genericamente pasta asciutta.
Os macarrões laminares em forma de fita longa receberam denominações de acordo com sua largura. São o tagliarine, fita estreita, e o tagliatelle, fita larga. Em Roma, o macarrão de largura média recebeu o nome particular de fetuccine. Existe ainda o cabelo de anjo (fidelini), muito fino, que se come como os demais, mas que preferentemente se come cozido em leite e açúcar, formando um doce chamado alletria. Em Minas Gerais este doce é indispensável nas festas rurais. O sabor melhora muito se for colocada raspa de casca de limão, para quebrar o excesso de doçura. Outras formas de macarrão laminar recebem denominações variadas conforme o aspecto: farfale (borboleta), conchiglia (concha), cravate (gravata), rondele (enrolado). Alguém teve a idéia de fazer envelopes ou saquinhos de massa com enchimentos diversos, e formatos diversos. Daí, surgiram os capeletti (chapeuzinhos), risolis, e outros. Como os demais, estes tanto podiam ser comidos in brodo, como asciutti. Finalmente a massa posta em camadas, intercaladas com molho e/ou carne resultaram na lasagna, ou enroladas e recheadas no canellone.
Para fazer a lâmina inventou-se um cilindro rotatório, o famoso pau de macarrão. Este cilindro foi o único instrumento durante séculos, até que a revolução industrial vulgarizou a siderurgia e começou-se a fabricar cilindros de ferro agrupados em uma máquina laminadora, movida a braço ou a motor. A partir daí surgiram os macarrões artesanais e os industriais. Mais tarde inventaram a máquina de extrudar. A extrusora empurrava a massa para fora através de orifícios, produzindo fios, cordões cilíndricos maciços ou tubulares. Estava inventado o macarrão redondo. Os extrudados cilíndricos compridos, ocos ou maciços, chamam-se spagheti, e recebem numeração de acordo com seu calibre. É o clássico macarrão brasileiro. Já os curtos e ocos podem ter a forma de uma pena antiga de escrever, o penne, ou formato de parafuso como o fusile. Podem ser lisos ou estriados por fora, isto é, riscados, ranhurados. São os rigatti, como o penne rigatte, o rigatone. Esta conformação tem a finalidade de aumentar a superfície de contacto com os molhos, para segurá-los melhor por aderência.
Cozido o macarrão, se comia puro. Depois inventaram de regá-lo com azeite. A seguir, com azeite temperado com sal e ervas. Em locais onde havia peixe, com pasta azeitada, de sardinha, aliche, anchova. Com a descoberta da América o tomate chegou à Europa. Era tão nobre, que na Itália recebeu o nome de pomo d’oro, isto é, maçã de ouro. O tomate é um fruto muito frágil, de curta duração. Tiveram a idéia de cozinhá-lo, formando um creme que podia ser guardado por longo tempo. Este creme foi posto sobre o macarrão cozido, acrescido dos mais variados temperos e aditivos. Dentre estes, o mais usual é o queijo parmesão curado e ralado. Estava inventada a macarronada. Comendo macarrão desde a mais tenra idade ficava-se condicionado ao modo familiar de fazê-lo, cozinhá-lo e temperá-lo: daí surgiu o famoso macarrão da mamma, e não raro o da nonna. Imbatível, mesmo que ruim. Um primo meu só gostava de bolo queimado, porque sua mãe nunca conseguiu fazer um bolo correto.
Na Itália se usa o grão do tipo duro, cuja massa não se desmancha no cozimento e que chegou aqui recentemente, depois da abertura das importações. No Brasil, historicamente, este grão não existiu. Nosso espaguete de grão mole fica gosmento por fora e mais duro no interior. Na macarronada italiana eles cozinham o molho de tomate por horas e horas, até eliminar toda a acidez, embora o tomate deles seja por natureza mais doce do que o nosso. Eles não admitem que se possa gostar de outro tipo de massa.
Já a nossa macarronada caipira, provinciana, sempre foi feita com macarrão furado, grosso e mole, molho ácido, com cobertura de queijo mineiro ralado, de meia cura ou curado, que também é azedo. Me permito discordar veementemente deles, a nossa também é uma delícia. Tem sabor mais forte, o azedo se mistura com o creme que se forma em torno do cordão, o paladar se excita, fica mais perfumado e como o tomate é menos cozido, mantém a cor vermelha mais rutilante, não fica escuro amarronzado. Nós, brasileiros, já somos bem crescidinhos, temos quinhentos anos de culinária nacional e não estamos sujeitos à ditadura dos gostos e regras de culinária eurocêntricas. Vamos comer os dois macarrões com o mesmo apetite.
E tem mais: macarrão bom é macarrão de pobre, isto é, macarrão escuro, feito com farinha de segunda, cujo trigo foi mal descascado. Tem mais fibras, resta alguma proteína do embrião, as vitaminas não foram todas jogadas fora para se fazer comida de vaca, o farelo de trigo. Indo ao interior, sempre compro macarrão de bote, o mais barato que existe; vem embalado num cartucho de papel grosseiro, em geral azul, e com logotipos e rotulagem antigas. Não tem nada mais saboroso, rústico, gastronômico, nutritivo e, sobretudo emocional: me lembra a macarronada do ajantarado lá de nossa casa, com frango caipira ou pernil de porco. Comer exige alma.
Existe ainda o macarrão nero, negro ou pardo, feito com farinha integral, comida dos naturebas e vegetarianos. É muito nutritivo e saboroso. Dê para suas crianças.
Há poucos dias morreu o inventor do miojo, o macarrão pré-cozido. Miojo também é bom. É prático, barato, saboroso. A criançada adora. Miojo cozido al dente, em muita água e sem os temperos, escorrido como o macarrão comum, pode receber todas as honrarias que se dá a um espaguete clássico, com molhos refinados e carnes.
domingo, 15 de junho de 2008
QUEM ANDA DO LADO ERRADO?
Antigamente, a lógica mandava que as pessoas circulassem pelas estradas e nas ruas da melhor posição possível para poderem usar uma espada para se proteger. Como a maioria é destra, tinha de se manter à esquerda, para não ter de encarar um eventual ataque por cima da cabeça de seu cavalo. Por volta de 1300, esta prática foi oficializada através de uma bula papal, pelo Papa Bonifácio VIII, que recomendava a todos os peregrinos para que andassem à esquerda.
Nada mudou até 1773, quando o aumento de trânsito à cavalo fez com que o governo britânico exigisse que se circulasse do lado esquerdo das vias, e isto virou lei em 1835.
Está menos claro porque muitos adotaram o lado contrário para circular. A versão mais aceita é de que os franceses, como católicos, seguiram a bula papal. Durante o período que antecedeu a Revolução Francesa, a aristocracia guiava suas carruagens em alta velocidade pelo lado esquerdo das ruas, forçando a plebe a pular para o lado direito, para maior segurança. Com a Revolução, os instintos de auto-preservação levaram o que sobrou da aristocracia a se juntar à plebe do lado direito das ruas. O primeiro registro oficial de se manter a circulação do lado direito das vias públicas é de 1794, na cidade de Paris.
A expansão colonialista da Grã-Bretanha espalhou pelo mundo o conceito de se manter o lado esquerdo. Isto incluiu a Índia, Australásia e grande parte da África (embora muito países africanos mudaram para o lado direito depois da sua independência).
A França também manteve muitas colônias após as guerras revolucionárias e conservou as regras de se circular pelo lado direito na maior parte da Europa, estendendo-se a colônias como o Egito. Parece que em relação aos Estados Unidos, foi o General Lafayette que recomendou que se adotasse o lado direito como parte do apoio dado aos americanos durante a preparação para a Guerra da Independência. A primeira lei americana estabelecendo a obrigatoriedade de se ficar à direita data de 1792, em relação a uma estrada entre Lancaster e Philadelphia.
Na época da Rainha Vitória, o Japão foi obrigado a abrir seus portos para os britânicos, por motivos diplomáticos, e os japoneses foram convencidos a adotarem a circulação pelo lado esquerdo, o que permanece até hoje.
Os primeiros automóveis seguiram o princípio das carruagens a tração animal, com o chofer sentado no centro. Quando os proprietários dos carros descobriram como era interessante dirigir, quiseram que as pessoas se sentassem a seu lado enquanto guiavam, e o volante foi definitivamente colocado em um dos lados do painel.
O lado onde ficava o volante seguiu a tradição de cada país e, portanto, os primeiros carros (Benz na Alemanha), o tinham do lado esquerdo, pois se circulava pela direita. A principal exceção foi dos carros de corrida, cujos volantes eram construídos do lado direito, que ficava melhor para corridas em círculo. Por isso, na Europa, quase todos os carros esportivos italianos antes de 1950 tinham o volante do lado direito. Todos os Bugatti também o têm do lado direito.
Apesar da insistência de outros países europeus, é bem provável que a Grã-Bretanha e outros países que circulam do lado esquerdo nunca adotem uma mudança para o lado direito. É economicamente inviável, pelo número elevado de veículos existentes com volante à direita e, também, porque o Japão, o maior produtor de automóveis do mundo, que precisa produzir veículos para seu próprio mercado e para exportação, já alegou que jamais mudará de lado, assim garantindo suprimento para o mundo inteiro.
Desde as primeiras locomotivas, nos primórdios do século XIX, os trens circulavam nas ferrovias pelo lado esquerdo. Isto acontece até hoje, inclusive aqui no Brasil. No entanto, o trânsito por via fluvial se faz pela direita, mesmo na Inglaterra. Não há uma explicação plausível para isto, mas a teoria favorita é de que se nos barcos impulsionados por vara (como as gôndolas) ou a um remo só, o remador destro fica à esquerda, o timoneiro tem de ficar do lado direito, e quando a embarcação chega à margem, a tendência é descer por aquele lado.
domingo, 8 de junho de 2008
O MELHOR AMIGO DO HOMEM
O velho adágio de que o melhor amigo do homem é o cão reveste-se de uma verdade inegável. Acho que todos nós temos algum episódio para narrar que envolva um cachorro.
Pois é, eu estou aqui graças a um cão. Meu pai, quando chegou a São Paulo, logo adquiriu um pastor alemão. Naquela ocasião morava em uma pensão onde não se aceitavam animais de estimação. Foi então obrigado a deixá-lo nos alojamentos da firma para a qual trabalhava. Após um tempo, cansado das exigências da pensão, resolveu procurar outra. Leu um anúncio na revista “Times of Brazil”, da comunidade inglesa, de circulação no eixo Rio-São Paulo. Era de uma pensão inglesa não muito longe de onde estava. Lá, perguntou para o senhorio se poderia levar seu cão e este lhe respondeu que sim, pois gostava muito de cachorros. Meu pai então mudou-se para aquela pensão. Costumava passear no fim de tarde para exercitar o pastor e quem o acompanhava era a filha do dono da pensão. Preciso dizer mais alguma coisa? Era a minha mãe.
Vimos, no metrô de Londres, um homem cego aguardando o trem. Segurava um labrador amarelo a seu lado com uma guia. Fui até ele para saber por qual trem esperava. Prontamente me respondeu que o próximo era o seu, que estava no horário e, agradecendo, disse que seu cão o levaria para dentro da composição. Fiquei revoltado ao saber que aqui em São Paulo, uma advogada cega foi impedida de entrar no metrô com um cão guia, porque não é permitido a entrada de animais no recinto. Ela foi obrigada a recorrer à Justiça para obter permissão!
Em Barcelona, minha esposa e eu deparamos com uma cena inesquecível e que nos marca até hoje. Um pedinte cego encontrava-se na calçada do Passeig de Gràcia, com a mão estendida para pedir esmolas. Encontrava-se estático, ajoelhado, de quadris eretos, imóvel. Nem piscava. A seu lado, o seu cachorro vira-lata, também estático, imóvel, sentado nas ancas. Não movia um átimo de seu corpo. Só faltava também estender a pata para pedir a esmola... Uma cena de impressionar qualquer um. Mais uma vez, o exemplo do fiel cão, o melhor amigo do homem.