domingo, 26 de outubro de 2008

BRASIL versus INGLATERRA


SALISBURY É UMA CIDADE PACATA, COM MENOS DE 40.000 HABITANTES, às margens do rio Avon e localizada a uns 100 km a sudoeste de Londres. Tem uma belíssima catedral de estilo gótico primitivo, do século XIII, cuja torre é a mais alta de todo o Reino Unido. A Catedral de Salisbury foi imortalizada nas telas de John Constable, considerado o criador da paisagem romântica, juntamente com Turner, mas mais naturalista que este. Viveu de 1776 a 1837. Uma de suas pinturas mais famosas é A Carroça de Feno (The Haywain), de 1821.

É uma cidade gostosa para se conhecer e passear, com muitas praças e jardins. Em especial, é um centro importante, pois parte-se dela rumo a Stonehenge, distante 8 km, o principal sítio arqueológico das Ilhas Britânicas, formado por dois círculos concêntricos de pedras verticais, com pedras transversais encimando algumas delas, cuja construção fora no final do Neolítico (± 3000 a.C.) e na Idade do Bronze (± 1500 a.C.).

Quando estivemos no Reino Unido, em 2002, fomos passar o dia em Salisbury. Já estivéramos lá há alguns anos e decidimos retornar, de tanto que gostamos da região. A ida para Stonehenge teve de ser adiada para mais tarde, porque somente abriria para o público após rigorosa limpeza graças à presença de 22.000 pessoas no dia anterior, quando fora festejado o “Solstício de Verão”.

Aproveitamos para explorar melhor a cidade. Encontramos belas praças, com muitas plantas ornamentais. Nas calçadas largas havia estruturas metálicas com dezenas de vasos floridos. O culto às flores é um costume dos britânicos, e existem até concursos entre as cidades para saber qual está mais florida.

Visitamos a catedral também, o que não havíamos feito em 1994, porque sofria uma extensa reforma. Estranhamos o fato de encontrar quase ninguém nas ruas. Por onde quer que passávamos, a falta de gente era impressionante. Nossa visita ocorreu na sexta-feira, 21 de junho de 2002. Num dado momento, passamos diante da vitrine de uma loja e vimos que estava passando um jogo de futebol na televisão. Sabíamos que o Brasil enfrentaria a Inglaterra naquele dia, pela Copa do Mundo, mas nem imaginávamos que isso seria às nove e pouco da manhã.

Paramos para assistir ao jogo, e a Inglaterra já perdia. Do outro lado da rua havia um pub, aquele típico bar inglês, antigamente freqüentado apenas pelo sexo masculino e hoje liberado até para famílias. De lá, vinha a vozearia dos torcedores, a cada jogada de seus astros do futebol. Os sons, em grau menor, lembravam-me daqueles dos estádios. O Brasil venceu a Inglaterra por 2 a 1, eliminando-a, e assim passou para as quartas-de-final. A turma barulhenta do pub defronte se silenciara. Minha esposa e eu saímos de lá, sem pronunciar uma palavra sequer, para não correr o risco de sermos identificados como brasileiros.

Mais tarde, quando passamos diante do pub novamente, a caminho de apanharmos o ônibus para Stonehenge, por volta do meio-dia, os ruidosos freqüentadores estavam celebrando não-sei-o-quê, numa exagerada alegria, exaltação e exultação, provavelmente causada por uma excessiva ingestão de bebidas alcoólicas. Ainda paramos numa confeitaria para comer os mais deliciosos scones de minha vida. Só ousaria compará-los aos pães-de-minuto feitos por minha mãe, muito tempo atrás.

Levou quase uma hora para chegarmos a nosso destino, visto que o ônibus passou e parou em diversos vilarejos pitorescos. A impressão que tivemos do sítio arqueológico foi a mesma que da outra vez, divino e maravilhoso, injetando em nossas veias uma paz e tranqüilidade que não conseguimos experimentar em nenhum outro lugar por onde tenhamos viajado.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

THE ORGAN

This true story was told to me by my Dad as part of his schoolday memoirs. Many years after his death, I was able to check it.
At the turn of the nineteenth century, it was compulsory in Britain for parents to send their children to school, otherwise, they could be punished even with imprisonment. For that reason, my father was sent to a boarding-school, remaining there until he was 14 years old.
The school was a bare brick three-floor Victorian building of the mid-1900s in South London.
Besides normal lessons, boys learned carpentry and girls embroidery and cooking. It was one of the first training Centres in England, with the intention of giving students a chance of becoming skilled workers.
Meals were served in the school's Great Dining-room. It was so magnificent that it was equivalent to that of a baronial castle. The walls were covered in mahogany, with centre pillars of marble and a parquet floor. The long tables were prepared to receive 450 pupils besides all the staff. There were a stage and a statue of Queen Victoria in a corner. The other side was dominated by a pipe organ. It was used daily when everyone sang thanksgiving to the Almighty for another day and meal. There were also musicals when the organ went at full blast.
However, there was a problem: the organ was not electric power generated—I was unable to find out whether the school had electricity at all. The instrument worked with air pumped into it by pure muscle strength of the students, one of them my Dad. Normally there would be two boys alternating among themselves in pumping the organ. They would remain behind it and the one that was resting would carve his initials on its wooden back panel.
Researching on Internet, I found an Old Scholars Association and got in touch. It is obvious that all these old scholars had been at the school many years after my father. It is interesting to say that I exchanged letters with a lady who had been there in 1915 when she was two years old. Now at 95, she is still active as Vice-president of the Association.
In one of her letters to me, she wrote: "The Organ in the Main beautiful dining Hall was a splendid instrument. I too used to pump it sometimes and I remember all the carved initials. Sometimes I forgot to pump and then it would wheeze to a stop!"
The school doesn't exist anymore. It was demolished in 1963 to give place to a residential enterprise. One building remains though, that had been the Director's residence. Some years ago we were there, and thinking that it still had something to do with the school I rang the bell and a janitor appeared. When I asked him if there was an organ inside, he looked at me as if I were insane. He had been working there for ages, that building was a government entity and, of course, there was no organ there, only various offices. Imagine asking such a question!
I was only able to find out the meaning of that small building when I made contact with the Old Scholars Association years later.





  

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O ÓRGÃO


ESTA É UMA HISTÓRIA REAL, contada pelo meu pai, com muita saudade, pois se tratava de reminiscências de sua vida escolar. Muitos anos depois de sua morte, tive a comprovação da mesma.
Na Inglaterra, na virada do século XIX, já era obrigatório aos pais colocarem seus filhos na escola, caso contrário poderiam ser punidos, inclusive com aprisionamento. Nesse contexto, meu pai foi enviado a um colégio interno, lá permanecendo dos sete aos 14 anos de idade.

A escola fora construída na segunda metade do século XIX, abrigando mais de 400 crianças. Era bem no estilo vitoriano, com paredes externas de tijolos à vista e com três andares, localizada ao sul de Londres.

Além das atividades escolares habituais, os alunos freqüentavam uma oficina de marcenaria e as meninas eram prendadas em bordados e cozinha. Havia outros afazeres também, como sair em turma da escola para assistir a peças teatrais, sempre acompanhados pelos professores.

As refeições eram compartilhadas no grandioso salão do colégio. Era tão magnífico que equivalia a qualquer salão de um castelo baronial. As paredes eram revestidas de mogno, os pilares de sustentação do teto eram de mármore e o piso de parquete. As longas mesas podiam assentar até 450 alunos e professores. Havia um palco e numa sacada, um busto da Rainha Victoria. O outro lado do refeitório era dominado por um órgão de tubos. Este era usado, diariamente, quando se cantava louvor a Deus em agradecimento por mais um dia e mais uma refeição. Havia também apresentações musicais, com o órgão em pleno funcionamento.

Contudo, havia um problema: o órgão não era gerado a eletricidade — não consegui saber se havia energia elétrica na escola, ou não —. O instrumento funcionava à base do ar bombeado pela força motriz de alunos selecionados, entre os quais, o meu pai. Normalmente, dois alunos providenciavam o funcionamento da bomba, em sistema de revesamento. Enquanto um imprimia o ar para o órgão, o outro descansava. Ficavam escondidos atrás do instrumento e meu pai dizia que entalhavam seus nomes no revestimento de madeira do órgão.

Pesquisando na Internet, localizei uma associação de ex-alunos do colégio e entrei em contato com vários deles. É claro que todos tinham estado lá muitos anos depois de meu pai. Uma senhora com quem mantive correspondência, freqüentou a escola desde os dois anos de idade, pois era sobrinha do diretor da época, em 1915. Ela ainda vive e tem 95 anos de idade.

Em uma de suas cartas escreveu: “O Órgão da lindo Salão Principal era um instrumento esplêndido. Eu também bombeava às vezes e lembro-me de todas as iniciais lá gravadas. Às vezes eu me esquecia de bombear o ar e o órgão ia gradativamente parando de tocar”.

O colégio não existe mais. Foi demolido em 1963, dando lugar a um loteamento residencial. Entretanto, permaneceu uma construção, que foi a residência do diretor da escola. Quando estivemos lá, anos atrás, pensando que fosse a escola, perguntei para o zelador se havia um órgão no recinto. Ele me olhou como se eu fosse um idiota. Aquele prédio, desde que ele trabalhava lá havia muitos anos, sempre fora um repartição pública e, é claro, que só havia salas de escritório, sem nenhum vestígio de qualquer órgão, imagine!

Só fui saber o significado daquele pequeno prédio quando fiz contato com a associação de ex-alunos.

domingo, 12 de outubro de 2008

1666

Há mais de três séculos, uma cidade foi assolada por uma catástrofe
sem precedentes,
que culminou em uma bênção para a Nação...

Fatídica noite de setembro
Mil seiscentos e sessenta e seis,
Do negrume surgem as primeiras labaredas,
em pontos diversos da metrópole de reis.

Londres fedorenta e malcheirosa,
Casas de madeira de sacadas estreitas
Imundície absurda por toda parte,
Infestação de ratos, as ruelas mal feitas.

Avançam pela cidade as chamas
Lambendo, lambiscando, ruindo
Tornando-se grande a conflagração
Tudo pelo seu caminho, destruindo.

Presença funesta nas casas e porões
Londres é partidária do mal,
Transmissores da peste negra
Doença de grande sacrifício mortal.

Calor intenso, poucas vítimas fatais,
Quatro, de fato, em duzentos mil.
Incontáveis ratos mortos no fogo
E afogados no Tâmisa; é a morte do vil!

Igrejas, prédios do governo,
Treze mil casas tombadas,
Inclusive a Catedral de São Paulo,
E renasce nova Londres daquelas queimadas.
Na reconstrução de Londres, levou-se em conta o que fora a cidade anteriormente
e procurou-se aprimorá-la. Esta é a Londres que se conhece hoje...

sábado, 4 de outubro de 2008

A VIDA POR UM FIO


Aprendi, logo nos primeiros anos de Medicina, que estava lidando com a mais delicada das estruturas da natureza: A Vida. Posteriormente, mais amadurecido, soube reconhecer sua excelência não apenas no Ser Humano, como em todas as espécies do Reino Animal.
Pode parecer uma simples bobagem, mas todos que têm um sopro de vida em si, estão sempre presos a ela por um fio. Here today, gone tomorrow, ou seja, 'hoje estamos aqui, amanhã, não mais', é um provérbio filosófico profundo e a pura verdade. Os animais irracionais instintivamente sabem disso e se protegem. Não são tão atirados quanto o Homem.
O Homem meteu-se em encrencas desde os primórdios da história da humanidade e a morte violenta era aceita como natural. Infelizmente, depois de tantos anos de existência, o mundo ainda não aprendeu e a violência persiste, seguida da extinção da vida, que nada vale, como o apagar de uma vela.
Uma contradição, se analisarmos o valor dado por outras espécies animais à vida. Nem precisamos pensar nos mamíferos, cuja reação observamos constantemente. Mas, destrua um ninho de formigas ou cupins e veja como aqueles insetos reagem, na tentativa de proteger e salvar seus ovos e larvas, os embriões de uma nova vida.
Aqui, recém-nascidos são jogados no lixo para morrerem e mães desnaturadas contam que assim fizeram, porque não podiam cuidar dos mesmos! Meu Deus, onde está o instinto animal materno? Perdêmo-lo ao longo da evolução? Que evolução!?
Creio que divago, pois queria apenas demonstrar como a vida está sempre por um fio. Claro, basta estar vivo para morrer, mas não devemos facilitar as coisas, porque aquele esqueleto sorridente, vestido de preto, com a foice erguida, está eternamente pronto para descê-la em nossos pescoços, a nos ceifar.
Dois episódios me chocaram muito no início de minha carreira e que passo a relatar.
Num belo domingo de sol, um pai de família estava na cadeira de plástico à beira da piscina de sua residência, lendo o jornal, como sempre fazia. Em dado momento, sentiu que algo estranho pairava no ar. Não sabia o quê. A leitura do jornal o incomodava e pôs o matutino de lado. Olhou ao redor e pensou consigo mesmo: O que acontece? Subitamente, deu-se conta que reinava silêncio em toda sua volta. Não ouvia os costumeiros gritos de exultação de seu filho de quase cinco anos, enquanto jogava bola no gramado que beirava a piscina. Aquele pai ergueu-se, com premonição em seu coração e correu para a piscina. Ali boiava, inerte, o corpo de seu filho. Quanto tempo estava lá?
Esses detalhes, contou-me aos soluços, quando tive de lhe dizer que trouxera seu filho ao Pronto Socorro tarde demais para qualquer tentativa de reanimação. Se não estivesse tão absorto lendo o jornal, se tivesse optado em brincar com o filho, se a esposa não tivesse ido à igreja, se...
Algumas semanas depois, deu entrada no mesmo Pronto Socorro, uma criança de menos de um ano, com queimaduras de segundo grau em quase cem por cento do corpo. Não havia esperanças de salvá-la, embora foram tomadas todas as medidas necessárias. Faleceu no mesmo dia, no Hospital das Clínicas. Indaguei da mãe o que ocorrera. A mãe explicou: havia limpado o chão da cozinha e achando que precisava de um brilho, passou cera naquele piso. Enquanto terminava, seu bebê, que só engatinhava, entrou no recinto e ficou brincando com um bicho de pelúcia que recebera de presente. Ela teve de se ausentar por breves instantes, para atender o telefone. Cruzou pelo seu outro filho, de três anos, que se dirigia para a cozinha. Antes mesmo de atender o telefone, ouviu um chiado semelhante a água sob grande pressão e depois um cheiro de coisa queimada. Correu de volta e encontrou o filho ainda com uma caixa de fósforos na mão e o bebê prostrado no chão, todo queimado. As roupas estavam chamuscadas e grudadas ao seu corpo.
Era óbvio o que acontecera. Os vapores da cera explodiram quando o menino acendeu um fósforo. Se ela não tivesse decidido encerar a cozinha, se o bebê não tivesse entrado lá, se não tivesse tocado o telefone, se...
São experiências que marcam a nossa vida profissional; algumas tristes, catastróficas como estas, outras felizes, de sucesso, de cura. Mas jamais devemos nos olvidar de que A Vida está sempre por um fio!