segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O ÓRGÃO


ESTA É UMA HISTÓRIA REAL, contada pelo meu pai, com muita saudade, pois se tratava de reminiscências de sua vida escolar. Muitos anos depois de sua morte, tive a comprovação da mesma.
Na Inglaterra, na virada do século XIX, já era obrigatório aos pais colocarem seus filhos na escola, caso contrário poderiam ser punidos, inclusive com aprisionamento. Nesse contexto, meu pai foi enviado a um colégio interno, lá permanecendo dos sete aos 14 anos de idade.

A escola fora construída na segunda metade do século XIX, abrigando mais de 400 crianças. Era bem no estilo vitoriano, com paredes externas de tijolos à vista e com três andares, localizada ao sul de Londres.

Além das atividades escolares habituais, os alunos freqüentavam uma oficina de marcenaria e as meninas eram prendadas em bordados e cozinha. Havia outros afazeres também, como sair em turma da escola para assistir a peças teatrais, sempre acompanhados pelos professores.

As refeições eram compartilhadas no grandioso salão do colégio. Era tão magnífico que equivalia a qualquer salão de um castelo baronial. As paredes eram revestidas de mogno, os pilares de sustentação do teto eram de mármore e o piso de parquete. As longas mesas podiam assentar até 450 alunos e professores. Havia um palco e numa sacada, um busto da Rainha Victoria. O outro lado do refeitório era dominado por um órgão de tubos. Este era usado, diariamente, quando se cantava louvor a Deus em agradecimento por mais um dia e mais uma refeição. Havia também apresentações musicais, com o órgão em pleno funcionamento.

Contudo, havia um problema: o órgão não era gerado a eletricidade — não consegui saber se havia energia elétrica na escola, ou não —. O instrumento funcionava à base do ar bombeado pela força motriz de alunos selecionados, entre os quais, o meu pai. Normalmente, dois alunos providenciavam o funcionamento da bomba, em sistema de revesamento. Enquanto um imprimia o ar para o órgão, o outro descansava. Ficavam escondidos atrás do instrumento e meu pai dizia que entalhavam seus nomes no revestimento de madeira do órgão.

Pesquisando na Internet, localizei uma associação de ex-alunos do colégio e entrei em contato com vários deles. É claro que todos tinham estado lá muitos anos depois de meu pai. Uma senhora com quem mantive correspondência, freqüentou a escola desde os dois anos de idade, pois era sobrinha do diretor da época, em 1915. Ela ainda vive e tem 95 anos de idade.

Em uma de suas cartas escreveu: “O Órgão da lindo Salão Principal era um instrumento esplêndido. Eu também bombeava às vezes e lembro-me de todas as iniciais lá gravadas. Às vezes eu me esquecia de bombear o ar e o órgão ia gradativamente parando de tocar”.

O colégio não existe mais. Foi demolido em 1963, dando lugar a um loteamento residencial. Entretanto, permaneceu uma construção, que foi a residência do diretor da escola. Quando estivemos lá, anos atrás, pensando que fosse a escola, perguntei para o zelador se havia um órgão no recinto. Ele me olhou como se eu fosse um idiota. Aquele prédio, desde que ele trabalhava lá havia muitos anos, sempre fora um repartição pública e, é claro, que só havia salas de escritório, sem nenhum vestígio de qualquer órgão, imagine!

Só fui saber o significado daquele pequeno prédio quando fiz contato com a associação de ex-alunos.

Um comentário:

  1. Anônimo13:42:00

    Com certeza o órgão deve ainda existir, se não foi destruído durante os bombardeios na Segunda Grande Guerra. Os ingleses são conservadores por natureza e a eles se deve muito da história devido a isso. Algum amante de música, ou alguma igreja, ou algum restaurador o deve ainda ter adquirido e, com cereteza, estará num lugar seguro e apropriado, pois um órgão não é fácil de não ser notado. Além de sua presença, tem um forte impacto visual, difícil de resistir ao seu fascínio.
    Fernando.

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