sábado, 27 de setembro de 2008

A VINGANÇA

La vendetta è un piatto
che se mangia fresco


OUTRO DIA, NUM DOS INTERVALOS ENTRE CONSULTAS no ambulatório onde trabalho, um de meus colegas contou-me a seguinte experiência:
Vários anos atrás, estava retornando de um plantão, de carro e foi fechado por outro automóvel, resultando numa colisão na qual seu carro novo ficara muito amassado.
O motorista desceu, se apresentou como o dono da lanchonete em frente ao local do sinistro e garantiu que pagaria o conserto.
Tanto é, que levou-o a uma oficina mecânica a menos de um quarteirão de distância e foi feito e aprovado na hora um orçamento pelo causador do acidente.
Alguns dias se passaram. Quando meu colega foi buscar o carro, qual não foi a surpresa de encontrá-lo ainda desmontado.
— Seu doutor, o moço da lanchonete disse que não vai pagar — informou o mecânico.
— Como assim?
— Disseram-lhe que estava sendo burro e otário em pagar o conserto.
O colega foi até a lanchonete e lá o homem foi categórico. Não ia pagar, por recomendação de amigos, pois não tinha nenhuma obrigação e que ele se virasse!
Diante disso, meu colega não teve argumentos. A alternativa foi voltar à oficina, pagar o conserto e sair com o carro, quando este ficou pronto.
Procurou a delegacia do bairro. Chegando, viu uma viatura parada defronte com quatro policiais, daqueles que usam camisa de manga curta bem justa a envolver braços musculosos e óculos escuros tipo Ray-ban, de aspecto bastante ameaçador.
Foi conversar com eles. Contou-lhes o que tinha acontecido. Fez-lhes uma proposta.
— Gostaria que dessem um susto nele. Se levarem sua grana, o problema é de vocês. Fica com ela. Eu não quero nada.
Concordaram.
Meu colega voltou à lanchonete e se posicionou em local estratégico, a menos de 20 metros de distância (do outro lado da avenida).
Repentinamente, chega a viatura Veraneio, de sirene ligada, cantando os pneus, subindo na calçada, parando abruptamente na porta da lanchonete. Descem dela os quatro homens fardados e entram.
— Quem é... — fala um deles, consultando uma anotação —, ...Fulano de Tal?
— Sou..., sou eu — responde o proprietário, assustado.
— Ah! — diz outro policial. — Estamos investigando uma colisão em que o cidadão se envolveu e não quer pagar o conserto do carro da vítima. Foi apresentada queixa e agora estamos coletando dados para montar um processo contra o senhor.
— Mas..., mas... — tenta dizer o homem da lanchonete.
— Não tem nada de "mas" — retruca agressivamente um dos soldados. — A vítima vai te processar!
— É que meus amigos me disseram que estava sendo trouxa em querer pagar o conserto, já que não se fez Boletim de Ocorrência — justificou o cidadão.
— Belos amigos que você tem. O senhor não sabe que isso não se faz?
Outro policial vira-se para ele e diz:
— Bem, se o senhor quiser, podemos dar um jeitinho, mediante uma caixinha...
Esperança aparece nos olhos do causador de toda a confusão.
— Sim, sim?
Essa conversa foi relatada posteriormente a meu colega pelos policiais. De onde havia ficado observando, vira as gesticulações apavoradas do dono da lanchonete, mas nada conseguira ouvir àquela distância.
Devem ter recebido uma soma em dinheiro, muito embora não tivessem lhe dito nem que sim, nem que não e ele preferiu também não perguntar.
Entretanto, depois da viatura ir embora, o colega foi até a lanchonete.
Chegou perto do proprietário e disse:
— Isso é para o senhor aprender com quem está lidando.
— De... desculpe!
— Não tem nada de desculpas. Isso foi só pra começar. O senhor nem imagina o que ainda vem por aí. Não perde por esperar!
Deu-lhe as costas e foi-se embora.
Cerca de um mês depois, por ser aquela avenida passagem obrigatória para meu colega voltar do plantão, olhou para a lanchonete. Estava afixada uma grande faixa escrita: "Sob Nova Direção".
Só pôde chegar a uma conclusão: o apavorado dono vendera a lanchonete de tanto medo que ficara de outras investidas do colega prejudicado.

domingo, 14 de setembro de 2008

ÁRVORES


Essa obra, muito apreciada na língua inglesa, foi escrita por Alfred Joyce Kilmer (1886-1918), um jornalista, crítico e poeta norte-americano. Era sargento da infantaria americana e foi morto durante a Segunda Batalha do Marne (França), na I Guerra Mundial.

Poema tão belo tal, nunca se verá,
Qual frondosa árvore se confrontará.

Uma árvore sedenta que se projeta
Contra a tenra e doce Terra, se aperta;

Seus ramos, a Deus, se elevam em prece poderosa
E a árvore verdejante agradece, formosa;

Cresceu ela ao som do intenso temporal
Provou no íntimo, neve e frio invernal;

Pássaros na árvore, durante o verão,
Formam ninhos nos galhos e fazem serão.

Talento para poemas é possível tolos ter,
Mas criar uma árvore só Deus sabe fazer.

(Tradução de Walter W. Harris)

domingo, 7 de setembro de 2008

SOLDADO RASO


Quando uma pessoa usa uniforme, seja na vida civil ou militar, pressupõe-se que a mesma esteja representando a entidade à qual está vinculada a veste. É inconcebível que seja de qualquer outra forma. Recentemente, chocou a opinião pública o fato de policiais militares fardados terem sido flagrados arrombando automóveis para roubar rádios e toca-CDs.
Em duas ocasiões diferentes, pude constatar como o homem não é devidamente preparado para vestir uma farda. Tratando-se de civis, travestidos de soldados, servindo compulsoriamente o Exército Brasileiro, e recém-saídos do berço paterno, talvez tivesse sido por falta de amadurecimento, uma vez que a disciplina militar rigorosa, bastante diversa daquela que se traz de casa, leva tempo para ser assimilada.
Há muitos anos, aguardava numa fila, no centro da cidade, para pegar o ônibus que me levaria para casa. A espera era grande, a fila comprida, o dia muito quente. Era costume — não sei se hoje ainda é assim — formar uma segunda fila, no ponto inicial, para quem fosse viajar em pé. Naquela, já havia pelo menos umas vinte pessoas. Quando o ônibus chegou, empoeirado e sujo, as filas pareciam encolher, pois as pessoas se aproximavam mais uma das outras para entrar no veículo. Subiu o número certo de pessoas que iriam sentadas e eu sobrei, optando por aguardar, e a segunda fila começou a andar. Em dado momento, um soldado de verde-oliva deu um empurrão no homem à sua frente e disse:
— Saia, que sou soldado!
No mesmo instante, quando ele já havia colocado o pé no primeiro degrau do ônibus, um velhinho segurou-lhe pelo ombro e falou:
— Nada disso! Eu sou general!
Imediatamente, o militar desceu, se esgueirou e bateu continência.
O velhinho subiu e, da porta, dirigiu-se ao soldado:
— General da banda!!!
Todos que presenciaram a cena caíram na gargalhada. O soldado corou, virou-se e, um tanto acabrunhado, foi-se embora. Este certamente aprendeu a lição da forma mais dura: pela desmoralização.
Nos primeiros anos depois de formado, dava plantão de 24 horas num Pronto Socorro Municipal. Certa noite, com a sala de espera cheia de pacientes e acompanhantes, um soldado fardado, que acompanhava sua mulher grávida, começou a bradar que a esposa dele tinha que passar na frente dos outros pacientes, porque ele era militar. Na qualidade de chefe do plantão, fui conversar com ele. A paciente estava muito bem e iria apenas passar em consulta de rotina com a ginecologista, conforme havia sido recomendado numa consulta prévia. Tentei explicar-lhe que teria de aguardar sua vez, mas o rapaz não quis nem me ouvir. Aos berros, disse:
— Como ousa discutir comigo. Quero minha mulher lá dentro neste instante ou então vou mandar te prender!
Não tive opção, senão me afastar do soldado colérico. Procurei um colega do plantão, mais velho e experiente e contei-lhe o que ocorrera. O que eu não sabia é que ele havia cumprido seu tempo no Exército como médico e estava na Reserva.
— Deixa comigo — garantiu, tranqüilizando-me.
Foi até a Recepção do P.S. e fez um telefonema. Depois, foi até a sala de espera à procura do cidadão uniformizado.
— Soldado! — disse, em tom autoritário — qual é o problema aqui?
Este não se intimidou e vociferou:
— Não admito que minha mulher espere mais para ser atendida! Ou atende agora ou vai todo mundo preso!
O médico olhou demoradamente para o soldado, e pude até observar uma certa pena que sentia no que iria fazer a seguir. Tirou do bolso sua identificação de Oficial do Exército, mostrou para o soldado e declarou:
— Soldado, você é uma vergonha para nosso Exército. Você me acompanhe, pois está preso por abuso de autoridade. Ficará trancado num dos consultórios e vai aguardar a chegada da Polícia do Exército, que já mandei chamar.
O rapaz emudeceu, bem como todos os presentes, que viram-no acompanhar o médico até a sala referida. Um grito trouxe todos de volta à realidade. A esposa do infeliz desatou a chorar e quase desmaiou. Foi necessário levá-la à sala de medicação para ser examinada.
Apesar da atitude tomada por nós, a vontade do soldado raso tornou-se realidade: sua mulher conseguiu passar na frente dos outros para ser atendida!...