SALISBURY É UMA CIDADE PACATA, COM MENOS DE 40.000 HABITANTES, às margens do rio Avon e localizada a uns 100 km a sudoeste de Londres. Tem uma belíssima catedral de estilo gótico primitivo, do século XIII, cuja torre é a mais alta de todo o Reino Unido. A Catedral de Salisbury foi imortalizada nas telas de John Constable, considerado o criador da paisagem romântica, juntamente com Turner, mas mais naturalista que este. Viveu de 1776 a 1837. Uma de suas pinturas mais famosas é A Carroça de Feno (The Haywain), de 1821.
É uma cidade gostosa para se conhecer e passear, com muitas praças e jardins. Em especial, é um centro importante, pois parte-se dela rumo a Stonehenge, distante 8 km, o principal sítio arqueológico das Ilhas Britânicas, formado por dois círculos concêntricos de pedras verticais, com pedras transversais encimando algumas delas, cuja construção fora no final do Neolítico (± 3000 a.C.) e na Idade do Bronze (± 1500 a.C.).
Quando estivemos no Reino Unido, em 2002, fomos passar o dia em Salisbury. Já estivéramos lá há alguns anos e decidimos retornar, de tanto que gostamos da região. A ida para Stonehenge teve de ser adiada para mais tarde, porque somente abriria para o público após rigorosa limpeza graças à presença de 22.000 pessoas no dia anterior, quando fora festejado o “Solstício de Verão”.
Aproveitamos para explorar melhor a cidade. Encontramos belas praças, com muitas plantas ornamentais. Nas calçadas largas havia estruturas metálicas com dezenas de vasos floridos. O culto às flores é um costume dos britânicos, e existem até concursos entre as cidades para saber qual está mais florida.
Visitamos a catedral também, o que não havíamos feito em 1994, porque sofria uma extensa reforma. Estranhamos o fato de encontrar quase ninguém nas ruas. Por onde quer que passávamos, a falta de gente era impressionante. Nossa visita ocorreu na sexta-feira, 21 de junho de 2002. Num dado momento, passamos diante da vitrine de uma loja e vimos que estava passando um jogo de futebol na televisão. Sabíamos que o Brasil enfrentaria a Inglaterra naquele dia, pela Copa do Mundo, mas nem imaginávamos que isso seria às nove e pouco da manhã.
Paramos para assistir ao jogo, e a Inglaterra já perdia. Do outro lado da rua havia um pub, aquele típico bar inglês, antigamente freqüentado apenas pelo sexo masculino e hoje liberado até para famílias. De lá, vinha a vozearia dos torcedores, a cada jogada de seus astros do futebol. Os sons, em grau menor, lembravam-me daqueles dos estádios. O Brasil venceu a Inglaterra por 2 a 1, eliminando-a, e assim passou para as quartas-de-final. A turma barulhenta do pub defronte se silenciara. Minha esposa e eu saímos de lá, sem pronunciar uma palavra sequer, para não correr o risco de sermos identificados como brasileiros.
Mais tarde, quando passamos diante do pub novamente, a caminho de apanharmos o ônibus para Stonehenge, por volta do meio-dia, os ruidosos freqüentadores estavam celebrando não-sei-o-quê, numa exagerada alegria, exaltação e exultação, provavelmente causada por uma excessiva ingestão de bebidas alcoólicas. Ainda paramos numa confeitaria para comer os mais deliciosos scones de minha vida. Só ousaria compará-los aos pães-de-minuto feitos por minha mãe, muito tempo atrás.
Levou quase uma hora para chegarmos a nosso destino, visto que o ônibus passou e parou em diversos vilarejos pitorescos. A impressão que tivemos do sítio arqueológico foi a mesma que da outra vez, divino e maravilhoso, injetando em nossas veias uma paz e tranqüilidade que não conseguimos experimentar em nenhum outro lugar por onde tenhamos viajado.