domingo, 16 de março de 2008

MEU PÉ DE JABUTICABA

A jabuticabeira é uma planta da família das Mirtáceas. A maioria das árvores frutífe- ras do Brasil faz parte dessa família, além de haver muitas espécies ornamentais. Entre as frutíferas destacam-se o cambucá, o cambuci, a cereja-do-rio-grande, a goiaba, o jambo, a pitanga e a uvaia; das ornamentais, pode-se citar a feijoa, o calistemo ou escovinha-de-garrafa e a melaleuca, estas últimas originárias da Austrália.
A flor e o fruto da jabuticabeira nascem grudados no tronco e galhos da árvore, tecnicamente conhecido por caulifloria, daí seu nome botânico Myrciaria cauliflora ou trunciflora. Os pés demoram muito para frutificar, no entanto, depois que começam, cada ano aumenta mais a produção, chegando a dar frutos duas a três vezes ao ano. Há diversas espécies, sendo as mais conhecidas a Sabará e a Paulista, a primeira menor e mais doce e a outra bem maior, um pouco aguada.
Discute-se se a grafia correta é jabuticaba, com "u", ou jaboticaba, com "o". Nos dicionários, pais dos burros, só encontrei a grafia com "u", mas nos livros técnicos, encontram-se ambas. Ainda mais, uma jabuticaba pode significar uma 'crioula nova e solteira'!
Bem, tudo isso eu sei hoje como adulto, depois que me interessei por plantas e plantei jabuticabeiras no meu pomar, mas...
...voltemos à infância. Ah, aquela infância da qual tanta saudade temos, que jamais volverá, quando a única responsabilidade era a de se obedecer aos pais e tirar notas boas na escola. Para mim e meus coleguinhas, jabuticaba era sinônimo de um dos frutos mais gostosos que conhecíamos e que havia no jardim da minha casa. Era também ocasião e desculpa para não estudar e descer pela escadaria até o jardim, que ficava num nível mais baixo que a casa, para comê-la diretamente da árvore.
Lá estava a jabuticabeira, com seus inúmeros galhos, nos convidando para saborear o fruto do seu labor. Galhos finos e tortuosos, que nos espetavam e enchiam as costas de galhinhos, folhas ou simplesmente pó que se desprendiam da planta e que coçavam para valer, enquanto trepávamos na velha árvore, para chegar cada vez mais alto, onde as jabuticabas mais gordas se encontravam.
Inúmeras vezes, minha mãe vinha atrás da gente, clamando para que tomássemos cuidado, para não nos arranhar, nem cair de lá. Dávamos poucos ouvidos ao que dizia, porém colhíamos jabuticabas para ela também, sem reclamar.
É incrível como esta fruta é tão mais gostosa quando colhida diretamente do pé, em relação aquela jabuticaba que foi comprada na feira e depois colocada na geladeira. A geléia de jabuticaba feita por minha mãe era uma verdadeira delícia; a que se comercializa hoje nem chega perto do sabor de outrora.
Um dia, meu pai voltou para casa com uma receita de licor de jabuticaba e lá fui eu colher dos frutos para satisfazer sua vontade de preparar a bebida. Anos mais tarde, encontrei a receita e fui experimentar fazê-la. Consistia em deixar as frutas em álcool por um determinado tempo, depois espremê-las e curtir mais um pouco, para depois acrescentar uma calda de açúcar. Não consegui igualar o licor ao que meu pai fazia.
Depois de quatro anos residindo naquela casa, mudamos para outra e mais tarde ela foi derrubada e o jardim destruído, para a construção de um prédio. Provavelmente, foi o fim da jabuticabeira.
Quero crer que alguém mais sensível tenha feito como um amigo meu de São Paulo. Ao vender sua propriedade para a construção de um Shopping Center, chamou uma firma especializada que transferiu uma jabuticabeira centenária para o jardim de sua casa no litoral. Que me consta, ela sobreviveu e continua dando muitos frutos, para o deleite da molecada que, tal qual eu e meus colegas, devem subir lá e colher as negras, suculentas e redondas jabuticabas...

Um comentário:

  1. Pai, também tenho minhas lembranças das jabu(o)ticabeiras durante a infância. Ao fechar os olhos, foi trepado numa delas, a colher fruto por fruto, que me vi, bem jovenzinho. Pegava três jabuticabas, colocava no engradado para levar embora e chupava uma... No final do dia, estava com a barriga dura e enjoado, de tanta fruta que tinha comido...
    Mas não me importava: gostava do mesmo jeito... voltava no dia seguinte... A Jabuticabeira era dos vizinhos. Enorme! Dava para um menino como eu trepar. As nossas não dava.
    Até hoje adoro as jabuticabas...

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