Meu irmão era peão de uma fazenda e, ocasionalmente, visitava-nos durante seu período de férias. Desta vez, sua presença fora uma dádiva de Deus. Não me esqueço do seu feito, apesar de passados mais de quarenta anos.
Morávamos em um bairro afastado do centro da cidade — hoje um local infestado por arranha-céus. A rua era de terra batida, lugar predileto das crianças para jogarem “taco” ou “bolinha de gude”, além do tradicional futebol, com o gol delimitado apenas por umas pedrinhas. Era uma época feliz, sem qualquer preocupação com o porvir.
O poço teria vinte e três metros de profundidade e sua água era de excelente qualidade. Era potável e, portanto, minha mãe não se preocupava em fervê-la para o consumo. O poço apresentava apenas um problema, a bomba era velha e enguiçava a toda hora. Tinha de ser consertada freqüentemente. Uma parte do mecanismo ficava na superfície, porém a outra era em um nível abaixo, obrigando-se a destampar o poço para se ter acesso a ela. Como criança, prestava pouca atenção às dificuldades dos pais, embora me encontrasse presente diversas vezes quando meu pai consertava o mecanismo de bombear a água.
O poço ficava num canto isolado do quintal, rodeado por um jardim, impecavelmente cuidado por minha mãe. Abundavam as rosas, mas outras flores também alegravam o ambiente. Nossos cães, três fox-terriers, ficavam isolados por uma cerca, com um pequeno portão. Assim, não pisoteavam o precioso jardim, nem defecavam ali.
Neste dia, lá estava meu pai consertando novamente a bomba que engripara na noite anterior. Concentrado no que fazia, não ouviu o telefone tocar, que eu atendi, chamando-o, porque alguém queria lhe falar. Largou tudo, correndo até o aparelho, pois tratava-se de um telefonema importante. Deixou o poço aberto e, pior que isto, o portão da cerca também. Os cachorros, que sempre foram proibidos de passar para aquele pedaço de chão, aproveitaram para fazer uma averiguação. Não conhecendo bem o terreno, um deles, uma fêmea, foi investigar aquele buraco sem tampa e caiu dentro do poço.
Fomos atraídos pelos latidos dos outros dois fox, que rodeavam a entrada do poço. Lá do fundo, ouvíamos os ganidos da Topsy, a mãe dos outros cães, e suas tentativas de se manter com a cabeça fora d’água. A primeira idéia que nos veio, foi a de descer um balde e ver se ela pulava dentro dele. Tínhamos corda suficiente na garagem, porque uma vez tivemos de retirar água do poço de balde, por falta de eletricidade. No entanto, não havia jeito de fazer a cadela entrar no balde.
Precisava ser retirada do poço a qualquer custo, pois senão morreria, e o tempo urgia. Achávamos que sua resistência não seria longa. Foi então que meu mano se ofereceu para descer pelo poço para salvá-la. Não restava outra solução. Explicou que cavara muitos poços na fazenda e tinha a experiência necessária para isto.
Muito a contragosto, meu pai amarrou-lhe a corda na cintura. Até eu duvidava que ele conseguiria segurá-lo, se ele despencasse poço abaixo. E lá se foi. Pude observá-lo descer os primeiros metros, que eram cercados de tijolos, com as costas contra um dos lados e os pés no outro lado arredondado do poço, assim comprimindo o corpo contra a parede para garantir o equilíbrio. Abaixava uma perna, depois a outra e deslizava as costas quase ao mesmo tempo. Era evidente que não era a primeira vez que fazia isto, como havia nos garantido.
Depois de passar o revestimento do poço, o percurso para baixo ficou mais difícil, pois a parede só de terra era úmida e gosmenta, terrivelmente escorregadia. Qualquer passo em falso e sua queda teria sido trágica. Depois de um tempo que pareceu interminável, veio um grito lá do fundo, dizendo que havia atingido a água e estava segurando a cadela, quase nas últimas. Chegara bem a tempo!
Soltou a corda e pediu para mandar o balde para baixo presa na mesma. Rapidamente, meu pai obedeceu e, em poucos minutos, a Topsy estava a salvo, sendo cheirada e lambida pelos outros cães. Minha mãe pegou uma toalha velha e esfregou a cadela, até que a mesma parasse de tremer.
Meu mano começou a dura tarefa de subir novamente. Estava todo enlameado e, devido a isto, sentia muito receio de não conseguir chegar à superfície sem escorregar. Em duas ocasiões, quase perdeu o ponto de apoio e teve de ensaiar uma descida, para depois subir de novo. Olhava para cima e só via o pequeno orifício da clareira que correspondia à abertura da tampa do poço. Com esforço sobre-humano, foi gradativamente vencendo os metros. O orifício foi se tornando maior até que sentiu que encostara nos tijolos. O coração estava na boca, estava ofegante e suava profusamente. Convenceu-se que mais um pouco e atingiria a abertura. Meu pai jogou-lhe a corda, que novamente amarrou na cintura e desta vez foi quase que içado para fora do poço.
Seu estado era deplorável. Apesar disto, todos nós o abraçamos e demos boas risadas, porque não teve um que não ficou sujo de lama. Um bom banho quente esperava por todos. Meu pai, muito reservado quanto a bebidas alcoólicas, abriu uma garrafa de vinho do porto para celebrar, e até eu pude saborear um pequeno cálice.
Nunca mais foi possível tomar a água daquele poço, sem que a mesma fosse fervida. A presença da cadela, e os distúrbios para salvá-la, desequilibraram para sempre aquele lençol potável d’água. A Topsy também nunca mais foi a mesma. Sua saúde tornou-se precária e passou a dormir dentro de casa. Durante o inverno, pegou uma pneumonia. Uma manhã, fui vê-la e ela estava enrolada dentro de sua caixa de papelão na cozinha. Morrera dormindo.
domingo, 28 de dezembro de 2008
O POÇO
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
A LENDA DA ÁRVORE DE NATAL
(ou uma sátira a uma piada de mau gosto)
Colaborador: Roberto Antonio Aniche, médico ortopedista de São Paulo.
O Papai Noel é um gordo morador de Itaquera, que todo final de ano trabalha vestido como o bom velhinho. É hipertenso e diabético, isto explica o seu rosto vermelho e redondo. Não gosta de crianças.
A Mamãe Noel foi descoberta quando fazia uma ponta no restaurante self-service Comida da Fazenda no Shopping Penha. Tão gorda quanto o Papai Noel, suas pernas lembram linfangite crônica. Mal humorada e com dores nos joelhos de tanto ficar em pé, aceitou de bom grado um emprego temporário para ficar sentada.
Os duendes foram encontrados alcoolizados num circo e concordaram em trabalhar somente uma noite, desde que continuassem alcoolizados.
O anjinho do final do conto é um garoto pentelho, mas ingênuo, não tem nada a ver com estas criaturas fantásticas que nos guardam os caminhos.
Qualquer semelhança com a vida real será mera coincidência, ou melhor, impossível, já que Papai Noel não existe, Mamãe Noel é invenção de feministas masculinizadas, duendes só existem petrificados em jardins e anjinhos, bom, isto é outra estória.
Tudo começa na véspera do Natal, quando no Polo Norte neva muito, faz muito frio e vento e somente alguém com um grande coração e apego à humanidade sairia naquela noite para entregar presentes às crianças do mundo. Mas Papai Noel tem esse coração nobre, esta bondade estampada no rosto vermelho e gordo.
Não importa se está chovendo, nevando, ventando, esfriando, o fato é que, mesmo do alto do seu diabetes, Papai Noel tem que sair de casa, carregar o trenó, arrear as renas e sair, tocando seu sininho, para entregar presentes para as crianças boas do mundo todo. A cada ano que passa ele trabalha menos: as crianças só passam de ano por decreto, comem o que aparece, mas enganam a fome como os habitantes dos Andes, só que em vez de mastigar, cheiram a coca.
O Papai Noel deste ano não está habituado com o frio, umidade, vento, e principalmente trabalho, já que sempre deu um jeito de ficar encostado no INSS e acabou contraindo uma daquelas gripes imensas, mesmo tendo sido vacinado no Posto.
Chamou a Mamãe Noel para ajudar a colocar os brinquedos no trenó. A velha gorda estava bem quentinha na cozinha, sentada, dando repouso à artrose dos joelhos.
— Levantar daqui? Não sou sua empregada, velho esclerosado!
E continuou ao lado do fogão, assando alguma coisa que cheirava tão bem que era impossível deixar de pensar no Natal. Papai Noel insistiu. Foi chamado de vagabundo, gordo, vai procurar sua turma, etc. etc.
Papai Noel lembrou dos duentes, afinal, eram eles os fabricantes de brinquedos. Correu, ou tentou correr no meio da neve, e chegou ao galpão. Abriu a porta pesada e teve a sua segunda decepção: fim de ano, acabou o trabalho, todos se confraternizavam comendo lingüiça, churrasco de asa de frango, cachaça.
Um bando de duendes já é coisa difícil de se encontrar, imaginem um bando de duendes sóbrios, isto sim é raridade. Papai Noel pediu, chamou, chorou, implorou, mas ninguém notava sua presença. Foi aí que deu um grito alto, esmurrando uma mesa. Conseguiu chamar a atenção: todos os duendes calaram-se prestando atenção no bom velhinho gripado.
Ele falou tudo de novo: Mamãe Noel era um pé-no-saco, ele estava velho, diabético, hipertenso, com uma gripe enorme e tinha que carregar o trenó com brinquedos. Os duendes prestaram atenção, mesmo completamente cachaçados. Um deles cochicou com outro, que cochichou com outro e assim por diante. Papai Noel alegrou-se esperando a tão necessária ajuda. Foi quando todos gritaram em uníssono:
“Vai à merda!” e continuaram a beber...
Papai Noel saiu, pegou um saco de brinquedos bem grande, nariz fungando, tosse com chiadeira, secreção, encheu o saco de brinquedos, foi ao trenó que estava coberto de neve. Colocou o saco sobre o trenó. O saco de brinquedos caiu do outro lado na neve, espalhou um monte de coisas. Espirro. Foi ao outro lado, agachou, colocou os brinquedos no saco, recolocou no trenó. Os duendes caindo no chão de tanto rir. O bom velhinho soltou um palavrão.
Foi buscar as renas. Uma estava com a pata quebrada, outra lhe deu um coice. Amarrou todas e jogou toda a força do seu peso para tirá-las do curral. Conseguiu. Pisou num monte macio e mal cheiroso. Outro palavrão. Amarrou as renas nas correias do trenó.
Subiu na boléia, torceu o tornozelo, fungou novamente e chichoteou as renas com tanta raiva que o trenó virou, caindo em cima do joelho da artrose. Os brinquedos se espalharam novamente na neve, ele fungava, caído com a perna embaixo do trenó. Uma rena soltou o barro fedorento perto dele.

Nesta parte da história entra o anjinho, com os cabelos cacheados pintados de loiro, asinhas postiças, sem um floco de neve, puxando um pinheiro enorme recém cortado da floresta.
Papai Noel está fulo de raiva e olha o anjinho com um ódio capaz de assar um humano normal, ainda caído, com gelo entrando nas roupas, o tornozelo torcido, fungando...
Foi aí que o anjinho perguntou ao Papai Noel deitado na neve, sob uma platéia de duendes bêbados que não parava de rir do velhinho:
— E aí Papai Noel, aonde eu enfio este pinheiro?
E aí está a explicação do porquê toda árvore de Natal ter um anjinho na ponta...
Em tempo:
Feliz Natal a todos os que ainda acreditam em Papai Noel, duendes e anjinhos. Que o maior presente seja o renascimento dentro de nossos corações, de toda a bondade e o amor que deveriam sempre nortear a humanidade e os nossos caminhos.
Papai Noel está fulo de raiva e olha o anjinho com um ódio capaz de assar um humano normal, ainda caído, com gelo entrando nas roupas, o tornozelo torcido, fungando...
Foi aí que o anjinho perguntou ao Papai Noel deitado na neve, sob uma platéia de duendes bêbados que não parava de rir do velhinho:
— E aí Papai Noel, aonde eu enfio este pinheiro?
E aí está a explicação do porquê toda árvore de Natal ter um anjinho na ponta...
Em tempo:
Feliz Natal a todos os que ainda acreditam em Papai Noel, duendes e anjinhos. Que o maior presente seja o renascimento dentro de nossos corações, de toda a bondade e o amor que deveriam sempre nortear a humanidade e os nossos caminhos.
domingo, 21 de dezembro de 2008
"Nas Coxas"
TELHAS DE BARRO PARA COBERTURA DE EDIFICAÇÕES existem desde os tempos mais remotos. Foram encontradas na China do período neolítico, datando de mais ou menos 10.000 a.C. e, no Oriente Médio, pouco tempo depois. O seu uso se espalhou pela Ásia e Europa em larga escala. Tanto os gregos como os romanos as usavam, o que foi facilitado após o invento da argamassa por esses últimos, quando puderam ser cimentadas sobre muros e beirais também.
Com a descoberta da América, a tecnologia da fabricação de telhas foi trazida para o novo continente. No século XVII, seu uso tornou-se quase obrigatório nas grandes cidades, por oferecer baixo risco de incêndios, fato fundamentado nas devastadoras conflagrações de Londres, em 1666, e de Boston, em 1679.
Telhas de barro eram, também, preferidas pela sua durabilidade, fácil manutenção e falta de condutibilidade térmica. Nos Estados Unidos, houve um declínio na sua fabricação, em meados do século XIX, pelo surgimento de outros materiais de custo mais barato e, às vezes, mais leves. Foi o caso do cobre, lata, ferro, ferro galvanizado e zinco. Popularizou-se, também, o uso de telhas feitas com placas de ardósia. Entretanto, com o aperfeiçoamento de sua fabricação e automação industrial, o produto passou a custar menos, coincidindo com o furor da construção, na América do Norte, de vilas em estilo italiano, onde se utilizavam telhas de barro, voltando a se tornar populares no começo do século XX.
No Brasil Colonial, os escravos eram encarregados da fabricação das telhas. Geralmente, por ser um trabalho menos pesado, ficava a cargo das escravas e dos escravos idosos e/ou doentes. A técnica adotada era a de moldar a argila na face anterior de suas coxas, produzindo o formato necessário das, assim ditas, telhas coloniais. Obviamente, elas não ficavam uniformes, pois havia coxas magras, roliças, finas, largas, longas, curtas e deformadas. Por isso, as telhas já secas e queimadas eram de diversos tamanhos com diâmetro e espessura variados. Conseqüentemente, depois de prontos, os telhados eram irregulares e desalinhados, levando a um aspecto de terem sido mal feitos. Estes eram descritos como telhados “feitos nas coxas”.
Daí, vem aos dias de hoje a expressão idiomática, denotando algo feito sem capricho ou, ainda, uma atitude de descaso.
Atualmente, com moldes padronizados e a industrialização, as telhas coloniais ficam todas iguais, resultando em coberturas bonitas e uniformes, não podendo alegar que foram “feitas nas coxas”, mas, há de se convir, os telhados, verdadeiramente coloniais, ofereciam um charme todo especial àquelas casas de outrora.
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