De longe, ouvi quando ele foi chamado pelo seu dono.
— Venha, Piolho, venha.
O mendigo estava de cócoras e estalava os dedos na direção do cachorrinho, oferecendo-lhe um pedaço mal-encarado de um pãozinho, que propunha dividir com seu companheiro.
Descrever aquele espécime de animal talvez fosse difícil, visto que não era muito diferente dos outros cães que costumam acompanhar os mendigos. Era um macho de porte mediano, de pêlo liso amarelo-escuro. O que chamava atenção era uma mancha preta em volta de um dos olhos, como se usasse um tapa-olho.
Piolho atendeu imediatamente o dono, abanando o rabo, dando um latido rouco e correndo em disparada até ele. Enquanto o cãozinho saboreava o “delicioso” pão, o mendigo sorria e acariciava-o.
Junto a eles, estava uma carrocinha de um só eixo, com duas rodas de automóvel de diferentes tamanhos e pneus bem carecas e, vista por trás, pendia para o lado da roda menor. Estacionada, a parte da frente ficava erguida, com uma travessa de madeira que servia para o mendigo puxar o carrinho. Dentro dele, havia uma montoeira de objetos, desde papelão, sacos com garrafas “pet” e uma roda de bicicleta, até vários ferros retorcidos e um sem número de jornais e revistas.
Era fim de tarde, o Sol já estava se pondo e os transeuntes passavam apressadamente, ignorando completamente os dois, na sua pressa e preocupação em chegar, o mais breve possível, ao aconchego do lar. O mendigo também não demonstrava nenhum interesse pelos cidadãos, assim como não pedia esmolas. Piolho, por vezes, se afastava para cheirar os calcanhares de alguma pessoa, porém logo desistia e voltava para junto da carrocinha. Como o mendigo estava sentado à beira da calçada, no meio-fio, o cachorrinho se esgueirava e lhe dava lambidas no rosto. Ele sorria, mesmo que fosse um sorriso um tanto triste, tentando afastá-lo dele e passando a manga suja da camisa nas cansadas fácies, para enxugar a saliva do cão.
Escarafunchou um saco de papel todo amassado, enquanto o cachorro o rodeava, mais uma vez abanando a cauda. Achou o que estava procurando: outro pãozinho. Parecia que o cão tinha mais fome que ele, pelos pulos que dava e seus latidos. Repetindo seu gesto anterior, o mendigo dividiu a refeição com Piolho. Lentamente, levantou-se e foi buscar na carrocinha uma garrafa “pet” com água. Bebeu um pouco do gargalo e depois despejou o resto numa pequena tigela metálica. A água foi prontamente aceita pelo animalzinho.
Não havia pressa, pois não iam a lugar algum. O mendigo já estava se preparando para a noite que chegava. Tirou da carrocinha vários trapos que colocou no chão ao lado da mesma e, por cima destes, dois ou três cobertores velhos, rasgados e sujos. O Sol já havia descido no horizonte. A escuridão tomava conta do pedaço, pois não havia iluminação de rua no local onde estava estacionada a carrocinha. O mendigo deitou-se, cobrindo-se com as mantas. Nem precisou chamar pelo fiel companheiro. Este se acomodou a seu lado, deu um gostoso bocejo, se ajeitou, encostando-se no homem, colocou a cabeça sobre as patas dianteiras e fechou os olhos. Por algum tempo, o mendigo permaneceu de olhos abertos. Parecia devanear. O que será que passava pelos seus pensamentos? A sua infância? Seus sonhos inalcançáveis? Uma família perdida? Aos poucos, o sono foi chegando, os olhos cerrando. Houve um último momento no qual se posicionou melhor naquele chão duro, e dormiu.
No despertar, bateu-lhe forte uma saudade no peito. Restava apenas uma velha coleira ainda com alguns pêlos grudados e um pão amanhecido que não tinha com quem dividir...
domingo, 24 de agosto de 2008
O CACHORRO E O MENDIGO
domingo, 17 de agosto de 2008
TEMPUS FUGIT
Lábios carnudos e rosados,
Beijam o ar que me tocou
Perfumes de mulher fragrados,
Lembranças do passado soou.
Sabor de mel, macios. Tormento!
Calor que acelera o meu coração,
Fugistes bem naquele momento,
Deixando-me no desespero e solidão.
Emoções fugazes glorificam
Frágeis paixões inocentes,
Ano após ano consolidam
Vidas e almas ardentes.
Encontrar o teu doce semblante,
Oh! êxtase de doçura desejosa,
Impaciente pelo instante palpitante
De sentir-te, de perto, amorosa.
Sonhos carinhosos provocantes,
Abraçam minha mente indolente.
Por revê-la por breves instantes,
Esperaria até o sol poente.
domingo, 10 de agosto de 2008
IN MEMORIAN
ESTÁ ÓBVIO QUE A GRAFIA DO TÍTULO ACIMA É UM ERRO CRASSO pois, em latim, “em memória de...” é IN MEMORIAM, com “M” no final.
Foi uma lástima que o latim deixasse de ser ensinado no curso secundário, base para tantos idiomas, inclusive o inglês, responsável por aproximadamente 70% daquela língua, face à permanência dos romanos na Inglaterra por 400 anos, no início da Era Cristã.
Lembro-me bem da morte do Papa João XXIII. Naquela ocasião, o Brasil lançou um selo postal em sua homenagem, com os dizeres “In Memorian”, com “N” no final. O selo foi recolhido quando se descobriu o erro, porém foi liberado a seguir, para não fazer com que os poucos selos vendidos se tornassem valiosas peças raras de filatelistas.
Em convites de casamento, então, é muito freqüente essa grafia errada, ao se referirem a um dos genitores dos noivos, já falecido.
Essa problemática nos leva a outra, de tal semelhança, que é justamente a tentativa de se escrever em outra língua, quando não a conhece suficientemente bem, induzindo a erros. Os exemplos mais evidentes são do mau uso de palavras inglesas no comércio. Visitantes estrangeiros não conseguem nem entender o seu significado, empregado naquele sentido, embora sabe-se de exemplos escritos propositalmente assim, para chamar a atenção, como é o caso de ‘Ocean Pacific’, quando deveria ser ‘Pacific Ocean’.
Muito mais sério que isso, é a divulgação internacional de revistas científicas brasileiras, em que firmas são contratadas para traduzir os trabalhos e apresentá-los numa coluna ao lado do texto em português. Para os incautos, aceita-se de olhos fechados a tradução feita. Enfim, fora feita por profissionais. Os erros são tantos que foi motivo de um protesto de minha parte a uma determinada revista médica que o encaminhou ao tradutor, um médico, que me mandou um E-mail grosseiro, referindo que residira no exterior e freqüentara importantes universidades, para justificar sua capacidade de tradutor. Respondi, dizendo-lhe que sua agressividade era descabida, haja vista que minha queixa fora dirigida ao editor da revista, sem saber que era um colega de profissão que estava fazendo aquela tarefa que, sem dúvida, era bastante árdua.
Essa questão não ocorre apenas no Brasil. Vem-me à mente os manuais de instruções de equipamentos eletrônicos oriundos dos países asiáticos, cujo inglês é pecaminoso, chegando-se a ponto de não se entender o que se diz com a instrução dada.
Outro exemplo, voltando a falar do serviço postal, é dos editoriais emitidos pelos Correios a cada novo selo lançado. Houve uma época que eram trilíngües (português, inglês e francês). Pelo menos, o inglês era uma vergonha. Atualmente, alguém tem feito boas traduções para esses editais.
Precisa haver uma conscientização geral de que, no que tange a linguagem escrita, o domínio do idioma é imprescindível, fundamentalmente a oficial, ou quando o público-alvo seja um profundo conhecedor da língua. Obviamente, não é o caso da língua falada, onde admitem-se erros mais aparentes e que são perdoados. Como diz o ditado: “palavras ao vento...”.
domingo, 3 de agosto de 2008
OS AMBULANTES DE OUTRORA
O fim da Avenida Paulista, antes da descida para o Pacaembu, em São Paulo, é completamente diferente da aparência que tinha no começo dos anos 50. Não havia viadutos e várias ruas que afluíam para a avenida, já não existem mais. Lembro-me perfeitamente bem do ponto de táxi na esquina da Rua Minas Gerais com a Paulista. Quando ia passear com meu pai, gostava de parar lá para admirar aqueles automóveis Ford, Buick, Chevrolet, etc. que eram tão usados como carros de praça.
Bem naquela região e conservada até hoje, porém com outro nome, está a rua sem saída — chamada de travessa — onde morávamos na época. Era uma vila bastante reservada, no sentido de que poucas pessoas costumavam entrar ali, salvo seus moradores e visitas. Não obstante, foi lá que travei conhecimento com os primeiros ambulantes de minha vida.
Todas as manhãs eu era acordado pelo som de cascos nos paralelepípedos e descia correndo as escadas para, junto com minha mãe, comprar pão (e principalmente pão doce) do padeiro, que trazia seus produtos numa carrocinha fechada. O engraçado é que eu não dava a mínima atenção para seu cavalo, um interesse infantil comum; tudo que queria era que o padeiro abrisse a porta que se situava na parte de trás da carrocinha para que pudesse inalar o delicioso aroma de pão fresco. Aliás, toda vez que entro numa padaria e chega às narinas aquele cheiro de pão, bate a saudade de minha infância. Não voltava para casa. O pão doce era comido lá mesmo. Olhava a meu redor e lá estavam as crianças das casas vizinhas fazendo a mesma coisa que eu. Em volta da carrocinha, nossas mães acertavam as contas com o padeiro.
Freqüentemente, minhas atividades infantis — sejam recreativas ou escolares — eram interrompidas por um sujeito que andava por toda a travessa, entoando caracteristicamente: “Roupa velha! Roupa velha!”. Passavam-se menos de trinta segundos e ouvia-se novamente o mesmo adágio: “Roupa velha! Roupa velha!”. Sua aparição foi uma constante nos anos em que vivemos naquela rua e, em nenhuma ocasião vi alguém vendendo-lhe qualquer peça de vestuário. Era um judeu baixinho, de nariz adunco, que estava sempre de terno e chapéu, meio puídos, e ainda carregando outro paletó dobrado no braço esquerdo.
Outro personagem que invade minhas recordações daqueles tempos também me distraía de meus afazeres. Este, no entanto, parecia fazer negócios melhores com os habitantes da vila do que o comprador de roupa velha. Ele entrava na travessa, fazendo sua presença sentida ao cantar: “Jornal, revista, garrafeiro! Jornal, revista, garrafeiro!”. Puxava um carrinho que, normalmente, encontrava-se apinhado com suas aquisições. Este ambulante vinha regularmente, e minha mãe sempre tinha alguma coisa para lhe vender. Foi a primeira vez que vi um dinamômetro, que o cidadão utilizava para pesar os jornais. Pagava uma ninharia por eles, porém era um trabalho digno e honesto. Seu serviço jamais foi encarado como esmola. Bem diferente dos dias de hoje, quando se olha com desconfiança para os puxadores dos mesmos tipos de carrinhos, que recolhem tudo por nada, levando até aparelhos eletroeletrônicos!
Esses três ambulantes ficaram marcados em minha memória, talvez porque fossem habitués de nossa travessa onde, como crianças, passávamos grande parte do dia brincando em relativa segurança, pelo isolamento daquela ruela sem saída.
Todavia, seria injusto deixar de pelo menos mencionar aqui, outros ambulantes que presenciei naquela época, alguns dos quais existem até hoje: o realejo, com seu periquito e os bilhetes da sorte, o fotógrafo da Praça da República, mais conhecido como “lambe-lambe”, o doceiro na porta da escola, com seu famoso “quebra-queixo” e a “raspadinha”, entre outros.
Como bem escreveu Casimiro de Abreu em “Meus Oito Anos”:
“Oh que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!”