quinta-feira, 22 de maio de 2008

A LIBÉLULA

O calor dos últimos dias assolava aquela tarde de primavera. Não havia um canto onde pudesse se ajeitar naquele sol das quatro da tarde. O verde do gramado já estava um tanto amarelado, queimado que estava pela falta d’água. Donde me encontrava, suava às bicas sob o guarda-sol, deitado numa espreguiçadeira. Na mesinha ao lado, suco de laranja gelado que tinha acabado de despejar de uma garrafa térmica. Não deveria me queixar daquela tarde de ócio, porém a temperatura exageradamente elevada estava me enervando e, ao mesmo tempo, deixando-me sonolento. A pouca distância de lá, havia um laguinho, com plantas aquáticas, as ninfas em flor brotando de suas folhas flutuantes, a água habitada por várias espécies de sapinhos e visitada por dezenas de insetos diferentes.
Crente de estar sendo atacado por uma porção de abelhas, movimentei as mãos para afastá-las de mim e tive a certeza de ter acertado pelo menos uma. Abri os olhos e vi, na palma da minha mão, uma agonizante libélula. Ela não conseguia se erguer e eu, impotente, apenas a fitava.
— Por que fez isso comigo? — perguntou, com voz trêmula.
Mal pude crer em meus ouvidos. Havia realmente escutado uma libélula falar? Como é que seria possível? Já sabia. Estava dormindo e sonhando. A libélula estava em minha mão direita, portanto dei-me um forte beliscão com os dedos da mão livre e pulei com a dor. Então, era verdade. Estava prestes a ter uma conversa com um inseto! Olhei para todos os lados, pois não queria que ninguém me ouvisse e pensasse que era doido.
— Desculpe, querida, mas pensei que fosse uma abelha e iria me picar.
— E eu lá tenho cara de abelha? E não me chame de querida. Sou muito macho!
Barbaridade! Só dou fora mesmo! Nem consigo acertar o sexo. Terei de tomar mais cuidado com o que digo.
— Conte para mim, Libélula — disse eu —, devo chamá-lo de “Libélulo” ou Sr. Libélula?
— Basta chamar-me de Libélula.
— Está certo! O que posso fazer depois desse mal que lhe causei?
Parecia que a libélula erguia sua cabeça para olhar dentro de meus olhos. Senti que suas patinhas faziam esforço na minha mão, na tentativa de se levantar.
— Tenho a impressão que você não pode fazer nada para me ajudar. Ainda estou meio tonto com o tapa que me deu, mas acho que daqui a pouco me recupero e saio voando. Pelo menos minhas asas parecem estar em ordem — e deu uma batidinha com suas quatro asinhas, de uma tela rósea delicadamente tracejada.
— Se você não se importa, gostaria de saber como é que nós estamos aqui falando um com o outro.
— Ah, mas isso é fácil — explicou a libélula —, somos de uma família de insetos muito antiga. Existimos há mais de 320 milhões de anos. Com o transcorrer do tempo, aprendemos a nos comunicar com os humanos em ocasiões especiais.
Para a libélula parecia uma explicação lógica. Deixei passar.
Reparei que, à medida que ia falando, sua voz se tornava cada vez mais forte, mais potente. As asas, que antes vibravam pouco, agora zuniam. Estava preocupado de que fosse embora antes de dar por encerrado nosso papo.
Indaguei então: — É verdade que vocês picam e sugam sangue? Sempre tive medo de libélulas.
— Ora, imagina! — respondeu a libélula. — Essa é uma idéia absurda. Nossa alimentação se restringe a outros insetos como mosquitos, moscas, abelhas e borboletas.
Continuou a conversa: — Infelizmente, nós é que servimos de alimento para diversos animais e há gente que nos frita dizendo que somos uma gostosa iguaria. Outros até nos trituram para virar remédio!
Observei que havia várias libélulas rondando meu guarda-sol e estava preocupado com um ataque-conjunto para salvar o Sr. Libélula e de como iria me safar daquela tropa. Ele me viu olhando para cima e para os lados e comentou:
— Não fique preocupado, não. Minhas companheiras vieram saber o que havia acontecido comigo. Eu sou muito macho — repetindo o que dissera logo no começo —, e tenho dezenas de namoradas. Como não vou viver para sempre, preciso aproveitar cada instante.
A libélula parecia levantar uma pata dianteira para sinalizar às suas amigas que tudo estava bem.
— Acho que você me deve uma — disse a libélula.
— Como assim? — perguntei, curioso.
— Sim! Depois de ter-me machucado. Quem sabe você podia fundar a S.P.L. ...
— S.P.L.? — repeti, com cara de idiota.
— É claro: a Sociedade Protetora das Libélulas!
Juro que a libélula estava sorrindo.
O número de libélulas-fêmeas havia aumentado e, então, ele me colocou a par da situação.
— Elas estão querendo que eu me vá, porque estão cheias de ovos e precisam pô-los antes do anoitecer. E só conseguirão fazer isso se estiverem tranqüilas, sabendo que estou são e salvo.
Não queria que partisse. Estava gostando cada vez mais de nossa conversa. Para mantê-lo mais um pouco comigo, fiz-lhe uma última pergunta:
— Bem, antes de ir embora, diga-me uma coisa: o que acontece depois que suas amigas põem os ovos?
— Disso eu entendo! — respondeu, entusiasmadamente. — São postos n’água ou nas proximidades e as larvas que nascem, vivem debaixo d’água. A transformação para uma forma adulta como eu pode levar até cinco anos.
— Puxa, que interessante!
Ouvi uma voz ao longe, perguntando:
— O que é tão interessante assim?
Abri os olhos e uma sombra pairava sobre mim. Minha vizinha estava de mãos na cintura e me olhava com ar desconfiado.
— Por acaso falava a meu respeito, da minha pessoa?
Olhava de boca aberta para ela e depois para a minha mão vazia. Devo ter feito uma expressão de total surpresa e também de decepção. Ela que interpretasse como quisesse. Mas para onde fora meu amiguinho, A Libélula?

sábado, 17 de maio de 2008

LIMERICKS

I
Chegou um menino em Santos,
Lá foi ele à praia com mais tantos.
     Molhou-se no mar,
     Salgando o olhar,
E voltou para a areia em prantos.

II

Escrevia meu livro, com estilo,
Quando senti-me inspirado. Do Nilo
      O personagem me falou:
      — Por que não me salvou ?
E eu, boa ideia, o fi-lo.

III

Queria fazer um bom verso,
Para então concorrer no Congresso,
     Meu lápis quebrou,

      Minha paciência s'esgotou
E cá estou, sem fazer mui sucesso. 


IV

Havia um jovem homem que disse:
"Eu sei que eu sei que eu sei".
      Convencido se aventurou,
      Do viaduto pulou, 
Estatelou-se, mas sabia que sabia que sabia!

sábado, 3 de maio de 2008

GUARDA-CHUVAS

Os guarda-chuvas foram inventados na Mesopotâmia, há cerca de 3400 anos atrás, como símbolos de status e de distinção. Tanto lá, como nos antigos Egito, China e Índia, eram utilizados para produzir sombra, protegendo pessoas importantes do sol, e não para resguardá-las da chuva. Muitas vezes, eram grandes e manipulados por escravos.

O Dicionário Aurélio dá como sinonímia “guarda-sol, chapéu-de-chuva, chapéu-de-sol, chapéu, pára-sol, pára-chuva, sombrinha, umbrela, umbela, barraca e, quando preto e de homem, parteira”. Em inglês, tem-se “umbrella” e em italiano “umbella”, termos que derivam do latim “umbra”, que significa “sombra”.

Na cultura chinesa, os guarda-chuvas significavam riqueza e realeza, porque apenas os ricos podiam possuir um item tão bonito e decorativo. Geralmente, eram feitos de papel especial. Os melhores ainda procedem das províncias chinesas de Fujian e Hunan. Num casamento chinês tradicional, o guarda-chuva protege a noiva dos maus espíritos ao deixar sua casa para aguardar o noivo. Abri-lo, durante a cerimônia, representa a fertilidade da noiva e a prosperidade do casal. Muitas vezes é de cor vermelha, um símbolo asiático tradicional da sorte.

Entre os gregos e romanos, os guarda-chuvas eram usados apenas pelo sexo feminino. Em eventos públicos, foram quase banidos, pois obstruíam a visão das pessoas. Foi necessária a intervenção do Imperador Domiciano, a favor das mulheres, para que pudessem continuar a existir. Parece que os romanos foram os primeiros a se proteger da chuva com essa peça. Os antigos gregos ajudaram a introduzir guarda-chuvas na Europa para proteção do sol. Tornou-se modismo entre as mulheres francesas, sendo oficialmente catalogado por volta de 1650.

No século XVIII, um inglês, de nome Jonas Hanway, usou guarda-chuvas a vida toda, fizesse sol ou chuva. Foi humilhado e ridicularizado em público, por este motivo. Após 30 anos de insistência, os homens começaram a reconhecer sua utilidade, e os carregam até os dias de hoje. Por muito tempo, guarda-chuvas, no Reino Unido, eram conhecidos por Hanways.

Poderia se indagar por que são freqüentemente pretos. É certo que não é pelos céus escuros de tempos chuvosos. Origina-se na forma como eram fabricados no século XVIII. O tecido do qual eram feitos precisava ser à prova d’água. Isso se obtinha embebendo-o num tipo de óleo que deixava o tecido bem escuro. Tradicionalmente, a cor preta tornou-se o mais comum.

Hoje, encontram-se guarda-chuvas de todos os tipos e com as mais diversas cores. Há sombrinhas feitas de bambu, umbelas de plástico transparente, guarda-sóis enormes de praia, aqueles automáticos que, às vezes, tornam-se verdadeiras armas nas mãos dos incautos, entre tantos outros diferentes.

Não se pode olvidar da conhecida superstição de que dá azar abrir guarda-chuva dentro de casa. Pode levar a infortúnios e problemas de saúde dos familiares, além de atrair mais chuva.

É um objeto fácil de esquecer em qualquer lugar. Lembro-me de certa vez em que portava um guarda-chuva tradicional e tomei um ônibus. Este estava lotado, e tive de viajar em pé. Pendurei-o no cano metálico horizontal à minha frente e lá ficou, ao descer. Levei uma belíssima bronca de meus pais, já que era deles e de estimação.

Em outra ocasião, estava no centro da cidade, e começou a chover. Não estava prevenido e decidi comprar um guarda-chuva. Era daquele tipo dobrável, que fica reduzido a uns vinte centímetros de comprimento. No entanto, a chuva estava forte, e acabei decidindo voltar para casa de táxi. Nem cheguei a abrir o guarda-chuva. Sentei no banco de trás do veículo e coloquei-o a meu lado. É desnecessário dizer que, ao sair do táxi, deixei-o ali mesmo. Desta feita, eu mesmo me dei uma bronca daquelas pelo esquecimento. Espero que o motorista tenha feito bom proveito...