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domingo, 13 de agosto de 2017

DIA DOS PAIS: SER PAI...

Colaborador: Hugo de Almeida Harris
  


Ser pai é valorizar cada instante ao seu lado.
Ser pai é voltar a ser criança, sem vergonha de ser ridículo.
Ser pai é ser coruja, mostrar pra todos que te ama, sem medo de ser piegas.
Ser pai é superar as adversidades, muitas vezes graças à sua fundamental existência.
Ser pai é saber que você sempre será prioridade.
Ser pai é saber que se a sua existência for problema pra alguém que se aproxima de mim, essa pessoa não vale a pena.
Ser pai, porém, é saber equilibrar minha vida pessoal, particular, com sua presença. Pois um papai contente, no íntimo, rende mais.
Ser pai é gostar do simples som de sua voz, de sua risada quando faço cosquinhas ou quando entende algo engraçado num desenho animado.
Ser pai é ficar feliz com cada conquista, mesmo que seja apenas conseguir lavar as mãos sozinho.
Ser pai, hoje, é superar a tristeza de não vê-lo todos os dias, entender o contexto, e fazer você se sentir em casa em cada momento comigo.
Ser pai às vezes é saber dar bronca, não ter medo de educar.
Ser pai é ficar o tempo todo atento para também não ser excessivamente rígido, libertando-me de uma "programação mental" de que criança tem que "entrar na linha". Não, criança tem que ser criança e bagunçar!
Ser pai é tentar fazer você gostar de um ambiente cultural que sempre foi tão caro pra mim e que fez a diferença na minha criação.
Enfim. Pra mim, ser pai é ter você.
Obrigado, meu filho, por me proporcionar um Dia dos Pais

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A GÊNESE SEGUNDO ROBERTO ANICHE


Colaborador: Roberto Antonio Aniche - médico ortopedista em São Paulo

Deus, talvez cansado de andar pelo seu universo infinito e escuro resolveu criar a Luz, dispendendo uma energia maravilhosa que ele tinha, e tem, sempre de sobra para boas coisas. E daí para diante resolveu criar problemas, criando nosso mundinho.

Claro, que Deus sendo perfeito, criou a terra perfeita, mares, rios, florestas, montanhas, ventos e tudo o mais que um grande paraíso deve ter para ser chamado de paraíso. E neste local maravilhoso colocou uma vida indescritível: milhares de espécies animais, desde simples bactérias para fermentar o pão nosso de cada dia até gigantescos seres de quatro patas.

E como tudo era perfeito, todos viviam em paz. Mas Deus resolveu fazer mais um pouco. Pegou da terra perfeita que havia criado, misturou com a água perfeita que fazia jorrar pelo mundo, colocou um pouco de Sua energia e... zás... criou o homem.

Não sei se à sua imagem e semelhança, pois isso é o que está escrito nos livros, mas ninguém nunca viu a Deus, a não ser pela sensação do grande amor que Ele tem por toda a Sua criação.

O homem se vê então, num lugar maravilhoso, cheio de animais calmos e carinhosos, um bosque gigantesco chamado Terra que lhe fornecia tudo o que quisesse. Mas o homem ficou, depois de um certo tempo, entediado. Por exemplo, poderia cantar, mas não tinha plateia, fazia discursos ao vazio (nem sempre Deus, preocupado e ocupado com outras criações em outros pontos do universo estaria ali para ouvi-lo).

Mais ainda, o homem era um desconhecido para si mesmo. Esse primeiro homem, Adão, o solitário, sequer sabia o que fazer com sua genitália, além de regar as plantas sempre que quisesse.

Numa dessas tardes de verão, voltando para conferir a Sua criação, Deus encontra o homem deprimido, entristecido. Deus lhe pergunta:

— O que lhe falta?
— Sei lá, responde Adão. Talvez uma televisão, umas cervejas, amigos para o poker.
— Hummm... Vou fazer você dormir e quando acordar vai ter uma surpresa.

Sem dar tempo nenhum, injetou-lhe um tal de propofol na veia, e como Adão estava em jejum, nem teve tempo de vomitar, adormecendo. A cirurgia foi um sucesso. Afinal Deus é Deus, e retirar uma costela foi trabalho simples. Em seguida, essa costela sofreu um processo de multiplicação e manipulação genética e
eis que, quando Adão acorda, teve grandes surpresas.

A primeira: não teve cicatriz! A segunda: nada doía! A terceira: tinha uma mulher maravilhosa peladinha só para ele! Não tinha concorrentes, não seria traído, e perfeito como ele era, não falharia nenhuma vez!

Daí para diante a história muda: eles correm um atrás do outro, se alimentam, fazem sexo quatro vezes por dia, finalmente se descobrem completamente. Mas claro que tinha que ter um opositor: um dos bichos ficou meio enciumado.
Adão e Eva andavam sempre nus, brincavam com bichinhos incluindo tigres e leões, que eram todos mansinhos, calmos, não disputavam território como os cachorros fariam muitos séculos depois e fariam cocô no lugar e na hora certa.

Ora, a cobra era uma revoltada: não tinha patas, sequer esboços para correr sem ter que se arrastar, não tinha asas para voar como os pássaros e sequer poderia entender o que Adão e Eva faziam enquanto davam gritos e gemidos histéricos. E resolve criar uma revolução. Convence o leão e o tigre que bichos mansos são bichanos e que eles deveriam ser feras, e que carne é muito mais saborosa do que pastar no capim-gordura.

Ora, havia uma árvore da qual Adão e Eva não poderiam colher frutos, e com certeza não era o jatobá, mas sempre foi pintada como uma maçã. A cobra vai e conversa com Eva, mostrando a ela todas as vantagens de experimentar de tudo e não ficar limitada como Deus queria. A mulher que era fraca de miolos, pois fora criada a partir de osso e músculos, pegou a tal fruta e levou-a para Adão, que, tonto como era, comeu parte da fruta, enquanto Eva se refastelava com a outra parte.

Neste momento conquistaram o entendimento. Ninguém sabe quantos anos decorreram da criação até este episódio. O fato é que, depois disso, cada um notou que estava sem roupa, e tiveram vergonha. Talvez Eva estivesse lá pelos seus oitenta anos, e Adão com seus noventa. Ela, cheia de celulite, seios caídos, sem depilar as virilhas. Ele, barrigudo, faltando alguns dentes.

A fruta causou alguns inconvenientes: ele teve flatulência e ela gritou um palavrão. Cobriram-se com folhas que hoje chamamos de roupa. Ninguém foi expulso do paraíso terrestre, pois aqui estamos. Deus, no entanto, presenteou-lhes com o trabalho para a subsistência e com a família, atualmente o tal presente de grego. Para que tivessem filhos retirou o anticoncepcional da água. Para que tivesse partos com dor escondeu o analgésico.

Nasceram dois filhos, Caim e Abel, junto com o ciúme, o egoísmo e o ódio. A necessidade de acumular riquezas fez com que um matasse o outro. A criação de Deus continuou perfeita, mas não do jeito que Ele queria.

E a partir daí, tanto os bichinhos como os homens começaram a se matar para comer carne, os homens tiveram que arar a terra, plantar, criar armas a princípio para se defender, depois para se matarem mutuamente.

Foram construídas, com o passar dos séculos, grandes churrascarias e grandes hospitais cardiológicos, grandes hospícios e imensas técnicas de destruir os povos e o planeta. O homem e a mulher aprenderam muito mais do que não deveriam do que deveriam e modificaram leis divinas muito simples.

Acho que Deus, lá do alto, na minha opinião de modificador da história, olha o nosso planeta, e alisando Sua magnífica barba branca, pensa com seus botões:

— Não era para ficar assim, não era mesmo...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

THOMAS SEVERINO


Colaborador: Hugo de Almeida Harris
 
Este, sim, é um sobrevivente. Veio num eixo de caminhão, provavelmente do Nordeste. Pelo menos foi isso o que o motorista disse para a veterinária que o recolheu, pois ele não havia parado o caminhão desde a Bahia. Quando chegou em nossa casa, os olhos do gato estavam muito machucados, talvez devido à viagem implementada, ao enfrentamento dos ventos, sujeiras e óleo. Cuidamos dele e logo ficou bom. Recebeu o nome de Thômas, que coloco aqui com circunflexo exatamente para chamar atenção para qual é a exata sílaba tônica (sim, sim, é uma homenagem ao Tom, do Tom & Jerry). Devido à sua origem, ganhou um segundo nome, bem característico: Severino. Assim, passou a ser chamado por nós de Thomas Severino. Demorou muito para aceitar que fizéssemos carinho nele. Era muito arredio, talvez devido a seu passado, antes da viagem de caminhão. Aos poucos, foi se abrindo, até mesmo nos procurava para receber um ou outro agrado. Miava muito pouco e, devido a esta escassez, era uma alegria quando fazia.
Agora partiu. Não foi de caminhão. Foi nos braços de meu pai. Estava lá, todo murchinho, deu dois miozinhos baixinhos, como se se despedisse, e apagou. Engraçado como estes bichinhos mexem com a gente. No mesmo ano em que o Filé nos deixou, agora foi a vez do Thomas Severino. Que os dois brinquem bastante, onde quer que estejam...

(2005 - 2014)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A LENDA DA ÁRVORE DE NATAL


(ou uma sátira a uma piada de mau gosto)

Colaborador: Roberto Antonio Aniche, médico ortopedista de São Paulo.

O Papai Noel é um gordo morador de Itaquera, que todo final de ano trabalha vestido como o bom velhinho. É hipertenso e diabético, isto explica o seu rosto vermelho e redondo. Não gosta de crianças.

A Mamãe Noel foi descoberta quando fazia uma ponta no restaurante self-service Comida da Fazenda no Shopping Penha. Tão gorda quanto o Papai Noel, suas pernas lembram linfangite crônica. Mal humorada e com dores nos joelhos de tanto ficar em pé, aceitou de bom grado um emprego temporário para ficar sentada.

Os duendes foram encontrados alcoolizados num circo e concordaram em trabalhar somente uma noite, desde que continuassem alcoolizados.

O anjinho do final do conto é um garoto pentelho, mas ingênuo, não tem nada a ver com estas criaturas fantásticas que nos guardam os caminhos.

Qualquer semelhança com a vida real será mera coincidência, ou melhor, impossível, já que Papai Noel não existe, Mamãe Noel é invenção de feministas masculinizadas, duendes só existem petrificados em jardins e anjinhos, bom, isto é outra estória.

Tudo começa na véspera do Natal, quando no Polo Norte neva muito, faz muito frio e vento e somente alguém com um grande coração e apego à humanidade sairia naquela noite para entregar presentes às crianças do mundo. Mas Papai Noel tem esse coração nobre, esta bondade estampada no rosto vermelho e gordo.

Não importa se está chovendo, nevando, ventando, esfriando, o fato é que, mesmo do alto do seu diabetes, Papai Noel tem que sair de casa, carregar o trenó, arrear as renas e sair, tocando seu sininho, para entregar presentes para as crianças boas do mundo todo. A cada ano que passa ele trabalha menos: as crianças só passam de ano por decreto, comem o que aparece, mas enganam a fome como os habitantes dos Andes, só que em vez de mastigar, cheiram a coca.

O Papai Noel deste ano não está habituado com o frio, umidade, vento, e principalmente trabalho, já que sempre deu um jeito de ficar encostado no INSS e acabou contraindo uma daquelas gripes imensas, mesmo tendo sido vacinado no Posto.

Chamou a Mamãe Noel para ajudar a colocar os brinquedos no trenó. A velha gorda estava bem quentinha na cozinha, sentada, dando repouso à artrose dos joelhos.

— Levantar daqui? Não sou sua empregada, velho esclerosado!

E continuou ao lado do fogão, assando alguma coisa que cheirava tão bem que era impossível deixar de pensar no Natal. Papai Noel insistiu. Foi chamado de vagabundo, gordo, vai procurar sua turma, etc. etc.

Papai Noel lembrou dos duentes, afinal, eram eles os fabricantes de brinquedos. Correu, ou tentou correr no meio da neve, e chegou ao galpão. Abriu a porta pesada e teve a sua segunda decepção: fim de ano, acabou o trabalho, todos se confraternizavam comendo lingüiça, churrasco de asa de frango, cachaça.

Um bando de duendes já é coisa difícil de se encontrar, imaginem um bando de duendes sóbrios, isto sim é raridade. Papai Noel pediu, chamou, chorou, implorou, mas ninguém notava sua presença. Foi aí que deu um grito alto, esmurrando uma mesa. Conseguiu chamar a atenção: todos os duendes calaram-se prestando atenção no bom velhinho gripado.

Ele falou tudo de novo: Mamãe Noel era um pé-no-saco, ele estava velho, diabético, hipertenso, com uma gripe enorme e tinha que carregar o trenó com brinquedos. Os duendes prestaram atenção, mesmo completamente cachaçados. Um deles cochicou com outro, que cochichou com outro e assim por diante. Papai Noel alegrou-se esperando a tão necessária ajuda. Foi quando todos gritaram em uníssono:

“Vai à merda!” e continuaram a beber...

Papai Noel saiu, pegou um saco de brinquedos bem grande, nariz fungando, tosse com chiadeira, secreção, encheu o saco de brinquedos, foi ao trenó que estava coberto de neve. Colocou o saco sobre o trenó. O saco de brinquedos caiu do outro lado na neve, espalhou um monte de coisas. Espirro. Foi ao outro lado, agachou, colocou os brinquedos no saco, recolocou no trenó. Os duendes caindo no chão de tanto rir. O bom velhinho soltou um palavrão.

Foi buscar as renas. Uma estava com a pata quebrada, outra lhe deu um coice. Amarrou todas e jogou toda a força do seu peso para tirá-las do curral. Conseguiu. Pisou num monte macio e mal cheiroso. Outro palavrão. Amarrou as renas nas correias do trenó.

Subiu na boléia, torceu o tornozelo, fungou novamente e chichoteou as renas com tanta raiva que o trenó virou, caindo em cima do joelho da artrose. Os brinquedos se espalharam novamente na neve, ele fungava, caído com a perna embaixo do trenó. Uma rena soltou o barro fedorento perto dele.

Nesta parte da história entra o anjinho, com os cabelos cacheados pintados de loiro, asinhas postiças, sem um floco de neve, puxando um pinheiro enorme recém cortado da floresta.

Papai Noel está fulo de raiva e olha o anjinho com um ódio capaz de assar um humano normal, ainda caído, com gelo entrando nas roupas, o tornozelo torcido, fungando...

Foi aí que o anjinho perguntou ao Papai Noel deitado na neve, sob uma platéia de duendes bêbados que não parava de rir do velhinho:

— E aí Papai Noel, aonde eu enfio este pinheiro?

E aí está a explicação do porquê toda árvore de Natal ter um anjinho na ponta...

Em tempo:


Feliz Natal a todos os que ainda acreditam em Papai Noel, duendes e anjinhos. Que o maior presente seja o renascimento dentro de nossos corações, de toda a bondade e o amor que deveriam sempre nortear a humanidade e os nossos caminhos.


sexta-feira, 20 de junho de 2008

MACARRÃO


Colaborador: Geovah Paulo da Cruz, médico oftalmologista, biólogo, escritor e culinarista
Não importa onde, descobriu-se que a farinha de trigo tinha alguma coisa que mantinha a massa bem ligada, sem se desmanchar. Era o glúten, formado por proteínas vegetais albuminóides muito viscosas que ligavam as moléculas de amido. Sem fermento, amassada com água, sovada e laminada, formava uma folha bastante resistente. Tão resistente que podia formar um lençol quase transparente sem se romper. Obtida a lâmina de massa, esta podia ser cortada em vários formatos. O mais comum era cortá-la em tiras compridas, de largura variada. Depois estas tiras eram postas a secar em um varal, sofrendo grau variado de desidratação, desde massas tenras, ditas frescas, até totalmente secas. Estas tiras, postas a cozinhar em água quente, mantinham-se coesas, sem se desmanchar. Se à massa fossem acrescentados ovos, muito ricos em albumina, melhorava-se a coesão, a coloração, o sabor e a nutrição. É o macarrão, que recebe a denominação genérica de pasta, em italiano, e massa, em português.
O macarrão era comido de dois modos. O mais comum era também aproveitar a água quente do cozimento, o caldo. O macarrão in brodo, comido como sopa, confortava o estômago. Inventaram de colocar outras coisas no cozimento, e estava inventada a minestra, uma sopa mais rica, sobretudo em legumes e alguma carne. Daí surgiu também o minestrone, ou sopão, mais no sentido de riqueza e variedade. Porém o macarrão cuja água se desprezava, escorrida, se comia seco, ou seja, asciutto. Então, todo macarrão assim preparado passou a se chamar genericamente pasta asciutta.
Os macarrões laminares em forma de fita longa receberam denominações de acordo com sua largura. São o tagliarine, fita estreita, e o tagliatelle, fita larga. Em Roma, o macarrão de largura média recebeu o nome particular de fetuccine. Existe ainda o cabelo de anjo (fidelini), muito fino, que se come como os demais, mas que preferentemente se come cozido em leite e açúcar, formando um doce chamado alletria. Em Minas Gerais este doce é indispensável nas festas rurais. O sabor melhora muito se for colocada raspa de casca de limão, para quebrar o excesso de doçura. Outras formas de macarrão laminar recebem denominações variadas conforme o aspecto: farfale (borboleta), conchiglia (concha), cravate (gravata), rondele (enrolado). Alguém teve a idéia de fazer envelopes ou saquinhos de massa com enchimentos diversos, e formatos diversos. Daí, surgiram os capeletti (chapeuzinhos), risolis, e outros. Como os demais, estes tanto podiam ser comidos in brodo, como asciutti. Finalmente a massa posta em camadas, intercaladas com molho e/ou carne resultaram na lasagna, ou enroladas e recheadas no canellone.
Para fazer a lâmina inventou-se um cilindro rotatório, o famoso pau de macarrão. Este cilindro foi o único instrumento durante séculos, até que a revolução industrial vulgarizou a siderurgia e começou-se a fabricar cilindros de ferro agrupados em uma máquina laminadora, movida a braço ou a motor. A partir daí surgiram os macarrões artesanais e os industriais. Mais tarde inventaram a máquina de extrudar. A extrusora empurrava a massa para fora através de orifícios, produzindo fios, cordões cilíndricos maciços ou tubulares. Estava inventado o macarrão redondo. Os extrudados cilíndricos compridos, ocos ou maciços, chamam-se spagheti, e recebem numeração de acordo com seu calibre. É o clássico macarrão brasileiro. Já os curtos e ocos podem ter a forma de uma pena antiga de escrever, o penne, ou formato de parafuso como o fusile. Podem ser lisos ou estriados por fora, isto é, riscados, ranhurados. São os rigatti, como o penne rigatte, o rigatone. Esta conformação tem a finalidade de aumentar a superfície de contacto com os molhos, para segurá-los melhor por aderência.
Cozido o macarrão, se comia puro. Depois inventaram de regá-lo com azeite. A seguir, com azeite temperado com sal e ervas. Em locais onde havia peixe, com pasta azeitada, de sardinha, aliche, anchova. Com a descoberta da América o tomate chegou à Europa. Era tão nobre, que na Itália recebeu o nome de pomo d’oro, isto é, maçã de ouro. O tomate é um fruto muito frágil, de curta duração. Tiveram a idéia de cozinhá-lo, formando um creme que podia ser guardado por longo tempo. Este creme foi posto sobre o macarrão cozido, acrescido dos mais variados temperos e aditivos. Dentre estes, o mais usual é o queijo parmesão curado e ralado. Estava inventada a macarronada. Comendo macarrão desde a mais tenra idade ficava-se condicionado ao modo familiar de fazê-lo, cozinhá-lo e temperá-lo: daí surgiu o famoso macarrão da mamma, e não raro o da nonna. Imbatível, mesmo que ruim. Um primo meu só gostava de bolo queimado, porque sua mãe nunca conseguiu fazer um bolo correto.
Na Itália se usa o grão do tipo duro, cuja massa não se desmancha no cozimento e que chegou aqui recentemente, depois da abertura das importações. No Brasil, historicamente, este grão não existiu. Nosso espaguete de grão mole fica gosmento por fora e mais duro no interior. Na macarronada italiana eles cozinham o molho de tomate por horas e horas, até eliminar toda a acidez, embora o tomate deles seja por natureza mais doce do que o nosso. Eles não admitem que se possa gostar de outro tipo de massa.
Já a nossa macarronada caipira, provinciana, sempre foi feita com macarrão furado, grosso e mole, molho ácido, com cobertura de queijo mineiro ralado, de meia cura ou curado, que também é azedo. Me permito discordar veementemente deles, a nossa também é uma delícia. Tem sabor mais forte, o azedo se mistura com o creme que se forma em torno do cordão, o paladar se excita, fica mais perfumado e como o tomate é menos cozido, mantém a cor vermelha mais rutilante, não fica escuro amarronzado. Nós, brasileiros, já somos bem crescidinhos, temos quinhentos anos de culinária nacional e não estamos sujeitos à ditadura dos gostos e regras de culinária eurocêntricas. Vamos comer os dois macarrões com o mesmo apetite.
E tem mais: macarrão bom é macarrão de pobre, isto é, macarrão escuro, feito com farinha de segunda, cujo trigo foi mal descascado. Tem mais fibras, resta alguma proteína do embrião, as vitaminas não foram todas jogadas fora para se fazer comida de vaca, o farelo de trigo. Indo ao interior, sempre compro macarrão de bote, o mais barato que existe; vem embalado num cartucho de papel grosseiro, em geral azul, e com logotipos e rotulagem antigas. Não tem nada mais saboroso, rústico, gastronômico, nutritivo e, sobretudo emocional: me lembra a macarronada do ajantarado lá de nossa casa, com frango caipira ou pernil de porco. Comer exige alma.
Existe ainda o macarrão nero, negro ou pardo, feito com farinha integral, comida dos naturebas e vegetarianos. É muito nutritivo e saboroso. Dê para suas crianças.
Há poucos dias morreu o inventor do miojo, o macarrão pré-cozido. Miojo também é bom. É prático, barato, saboroso. A criançada adora. Miojo cozido al dente, em muita água e sem os temperos, escorrido como o macarrão comum, pode receber todas as honrarias que se dá a um espaguete clássico, com molhos refinados e carnes.
Para terminar, eis aqui uma receita antiga, uma pastasciutta bem mineira, roceira, rústica, substanciosa. Primitivamente era feita com massa caseira, mas hoje ninguém tem paciência, gosto ou tempo para isto. Compre massa de lasanha fresca, pré-pronta. Ou faça um leve pré-cozimento em lâmina seca, até amolecer. Corte retângulos de mais ou menos 12 x 6 centímetros, como se fosse para fazer um pastel. Ponha o recheio dentro, dobre o envelope e feche, apertando com um garfo. O recheio se faz esmagando queijo mineiro fresco (frescal) ou de meia-cura mole com ovo cozido, sal, ervas e temperos secos a gosto. Cozinhe em água fervente. Retire e escorra. Irrigue com molho vermelho ou com caldo de frango ensopado. Coma com frango. Lamba os beiços.