terça-feira, 12 de janeiro de 2016

RUMI




imagem da Internet

JALAL AD-DIN MUHAMMAD RUMI viveu no século XIII (1207-1273) e, além de poeta, foi teólogo, jurista e linguista. Seus trabalhos ultrapassaram a Pérsia e foram difundidos por todos os países árabes. A maioria foi escrita em persa, porém, às vezes escreveu em árabe, grego e turco. As traduções para o português — de minha autoria — foram feitas a partir de várias traduções em inglês.

Vista a gratidão como uma capa e será compensado em cada canto de sua vida.

Por que você se encanta tanto com este Mundo, quando há uma mina de ouro dentro de você?

Há mil maneiras de ajoelhar e beijar a terra.

Quando você começa a se desviar do caminho, o caminho aparece.

Você nasceu com asas, por que prefere rastejar pela vida?

Ignorância é a prisão de Deus; a sabedoria o seu palácio.

Muito além do certo e do errado há um jardim. Encontro-lhe lá.

De noite, eu abro a janela e peço para a Lua entrar e apertar seu rosto contra o meu. Respirar em mim. Feche a porta-de-palavras e abra a janela-do-amor. A lua não usará a porta, apenas a janela.

O amor é um jardim. Se não conseguir cheirar a fragrância, não entre no jardim-do-amor.

O jardim-do-amor é de um verde ilimitado e gera muitas frutas, além de tristeza e felicidade.

A brisa da manhã tem segredos para lhe contar. Não volte a dormir.

Tenho vivido à beira da insanidade, querendo saber razões, batendo na porta. Ela abre. Eu estava batendo do lado de dentro!

Antes da morte levar o que lhe foi dado, dê tudo que há para dar.

O canto dos pássaros traz alívio para minhas saudades. Estou tão extasiado quanto eles, mas sem nada para dizer.

Eu sou o ferro que resiste ao mais poderoso imã.

Purifique seus olhos e veja um mundo puro. Sua vida se encherá de formas radiantes.

Se tudo que você é capaz de fazer é rastejar, então rasteje.

Coloque seus pensamentos para dormir; não os deixe sombrear a lua em seu coração. Deixe de pensar.

Mesmo amarrado com milhares de nós, o barbante continua um só.

Que amantes sejam loucos, escandalosos e insensatos
Aqueles que se preocupam com tais coisas
Não amam.

Venha sentar ao meu lado! Vamos brindar o sagrado vinho da felicidade!



OLHE! ISTO É AMOR

Oh, se uma árvore pudesse andar
e se mover com pés e asas!
Não sofreria o poder do machado
nem a dor do serrote!
O sol não vai embora
a cada noite?
Como se iluminaria o mundo
a cada manhã?
E se a água do mar
não se erguesse ao céu,
O que seria das plantas, aceleradas
pelos riachos e suaves chuvas?
A gotícula que partiu de seu lar,
o mar, e para lá retornou?
Encontrou uma ostra à sua espera
e transformou-se em uma pérola.
Yusaf não deixou seu pai em lágrimas,
triste e desesperado?
Com aquela viagem, ele
não ganhou um reino e grande fortuna?
O Profeta não viajou
até Medina, meu amigo?
E lá fundou um novo reino
cujas decisões prevaleciam em centenas de lugares
Faltam pés para uma viagem?
Então viaje para dentro de si!
E receba os raios de sol
como uma mina de rubis?
Está fora de si? Tal viagem
o levará para o seu eu interior
E transformará pó em ouro puro!



UMA ESTRELA SEM NOME

Quando um bebê fica sem babá
facilmente a esquece
e começa a comer alimentos sólidos.

Sementes se alimentam do solo,
e depois erguem-se ao sol.

Do mesmo modo, deveria sentir a luz filtrada
e caminhar em direção à sabedoria e conhecimento,
sem nenhuma camuflagem pessoal.

É assim que você chegou até aqui, como uma estrela
sem nome. Movimente-se pelo céu noturno
com aquelas luzes anônimas.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

HAVE YOU EVER COME ACROSS THIS MOTION PICTURE?



Several years ago I asked my readers if anyone knew about a certain movie that I had seen at a cinema when I was a youngster.

It so happens that my blog only shows the most recent texts unless one does look through the Index, so texts become rather hidden away among the almost two hundred writings, and most of them in Portuguese too! As there are very few texts written in English, I had thought it would be easier to be seen.

Unfortunately, I have never received a comment regarding this motion picture, and I would certainly love to discover its title, and try and obtain a copy, so I am giving it another try.

I have decided to transcript my original text again ipsis litteris,  crossing my fingers and hoping that someone knows of this movie.


I am looking for a movie that could have been made in the late 1940s or in the 1950s. I remember three takes: a tree (Tyburn?) is hit by lightning and two spirits are freed (father and daughter) that wish to avenge themselves of the family responsible for their deaths by hanging from that tree as sorcerers centuries before. The daughter falls in love with the man that represents that family, much against her father's wishes. The next thing I remember is the couple riding in a taxi at night and she asks the man what time is it. He looks out of the window directly at Big Ben and discovers that the taxi is flying. Who is driving? The girl's father. The film ends with the couple miniaturising the father and putting him in a bottle, closing him in with a cork, and placing the bottle on the mantelpiece so they can live in peace ever after.

If some reader can identify this motion picture, please let me know, by sending an E-mail to 
wwharris@gmail.com
Thanks.

Walter

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

MY RUNAWAY CAT



The black cat that lives at home is terribly fat and lazy. He has been with us ever since he was a kitten, and is now nine years old and considered part of the family. He arrived together with three other kittens, all of them belonging to the breed NSB (No Specific Breed!). Last year we lost two of our cats to kidney trouble.
Our cats can often be found sleeping together on the sitting-room sofa. Be it daytime or in the evening, they seem to guess when we are in the hall of our flat, for as soon as we open the door there they are waiting to greet us. It is so wonderful to be received at home by these animals.
It is exactly there where the danger lies. The black cat just loves trying to bypass us and reach the hall, but every time he does, we push him back with our feet. Once he was able to dodge me and landed in the middle of the hall. When I called after him, he came back running, most likely by finding himself in a strange environment. We do pay a lot of attention so that neither of the cats escapes, though the other cat is rather quiet and his paws have never crossed the threshold of our flat.
When I am at home, I like calling the cats, and they generally come along, and when I let them, they climb onto my lap. One day, the black cat did not answer my call and disappeared. I hunted for him all over the place, but no sign of him. He was in none of his customary hiding places: behind the computer: no! Under the sofa: no! I was quite certain that he had not escaped, but just to be on the safe side, I went into the hall and called after him. Nothing! When I went back inside I thought I heard a faint meow. Was he teasing me? I went looking for him again: nothing! I was almost giving up when I heard that meow once again. Following the sound I saw him high up, almost touching the ceiling, on top of our china cabinet. He was looking at me innocently as if saying: “Are you looking for me?”. How the devil did he climb up there? Well, he stretched himself and let out a strong meow: “Now that you have found me, what do you want?”
On a certain fateful day, the black cat was successful in getting around my legs, and in a matter of seconds made for the hallway and his escape! He stopped at the staircase that leads to the floor below, looked over at me in defiance: “Come and catch me!”. Just then our neighbour's bulldog decided to bark behind the door of their flat. That sure frightened the cat, that bolted down the stairs. I ran after him. He halted in the hall of that floor; he seemed to hesitate, not knowing what to do next. He hears my footsteps and my gasping breath. He waits for me and down he flies to another floor. This time he finds an open door to one of the flats, and in he rushes, I am sure thinking that it was our flat. I am almost there, sweating profusely when I am literally run over by him, as he dashes up the flight of steps, pursued by a large marmalade-coloured Main Coon. I know that these big cats are rather meek and harmless, but my black cat had invaded his home... So back upstairs I go to find out what is happening. When I reached my flat, I saw an unexpected scene: the Maine Coon and my other cat were there socialising, rubbing against each other just by the doorstep.
And what of the black cat? That cowardly creature was found later, hidden under the sofa. He stayed two days without eating, scared stiff by his outing. Nowadays he does not come to greet us anymore when we arrive home. He must be having nightmares about the Maine Coon, the largest domestic cat in existence, and perhaps to him some sort of monster!
  

 

domingo, 20 de dezembro de 2015

MORFEU



A mitologia grega é muito fértil. Detalha minuciosamente seus deuses. Entre eles está Morfeu, o deus dos sonhos. Era responsável por dar forma aos sonhos. Daí deriva a palavra morfos que significa “forma”.

Sob os cuidados de Morfeu, as pessoas têm um sono profundo, podendo ter sonhos sobre eventos próximos ou sobre o futuro. Morfeu era o mensageiro de sonhos dos deuses, comunicando as mensagens divinas através de imagens e histórias, criando assim os sonhos. Sendo o dono dos sonhos, podia dar o formato que quisesse às criaturas que surgiam nos sonhos, além dele mesmo assumir o papel de um humano.

Em sua forma original, é representado portando asas nas costas parecidas às de borboletas. Segundo a mitologia clássica, ele e seus irmãos receberam as asas de seu tio, a divindade Tânatos, o deus da morte. Diz a lenda que Morfeu não só usava suas asas para alcançar aos que necessitassem de sua ajuda nos sonhos, mas também para carregar seu pai, Hipnos, para o Mundo dos Sonhos, escondendo-o da ira de Zeus. Hipnos era desprovido de asas e um tanto preguiçoso, e passava a maior parte do tempo dormindo!

Seu pai era, portanto, o deus do sono. Sua mãe era Pasiteia, deusa do descanso e relaxamento. Morfeu e seus irmãos formavam os Oneiros (em grego = Sonhos). Tinha três irmãos: Fobetor, criador dos pesadelos e sonhos fóbicos, Fântaso, responsável por sonhos falsos, repletos de fantasmas e Ícelo, responsável por fazer com que sonhos se parecessem mais reais. Sua avó era Nix, a divindade da noite.

Morfeu vivia com sua família no Mundo dos Sonhos, um lugar onde engendrava os sonhos dos mortais. Morfeu dormia numa caverna cheia de sementes de papoula. Este fato é talvez o motivo pelo qual a morfina tenha este nome, conhecida na língua inglesa por morphine ou morphium, cuja base é o ópio extraído das sementes de papoula.

Parece que Morfeu era um dos deuses dos mais ocupados, portanto não tinha esposa. No entanto há controvérsias. Chega-se a identificá-lo junto a Íris, a personificação do arco-íris e  mensageira dos deuses.

A mitologia grega é inebriante, porém ao mesmo tempo cansativa. Portanto, sugiro ao leitor que vá dormir nos braços de Morfeu!

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

OS CHINELOS VOADORES




Recentemente, foi-me contada uma história sobre chinelos voadores. Semelhante à crença de tapetes mágicos, os chinelos também voavam. Foi narrada com tanta convicção, que parecia até verdade. O meu amigo me disse que havia vivido esta experiência quando estivera em Roma a negócios. Estava sozinho, uma vez que sua mulher ficara no Brasil. Costumava dormir cedo pois, pela manhã, tinha um longo trajeto a percorrer até chegar a seu destino em Nemi, não muito longe do Castel Gandolfo, residência de verão do Papa. Gostava de ir lá, porque sempre havia mais italianos que turistas e também porque o clima era bem mais agradável nas colinas que circundam Roma, com quase 5ºC a menos em relação à cidade lá embaixo. Para seus negócios — que não chegou a me dizer quais eram — era o local ideal, pois só lidava com o povo local, não sofrendo intervenção de estrangeiros, nem de turistas palpiteiros. Chegava no hotel exausto, logo tirava os sapatos e vestia os chinelos que comprara próximo do próprio hotel.
Rotineiramente, cansado, tomava um banho de imersão para relaxar, numa banheira antiga bem grande com pés de bronze imitando patas de leão. Quando saia dela, sabia que deixaria um rastro d’água até se enxugar. Por isso colocava os chinelos próximos da porta, para não molhá-los. Naquela noite deixou os chinelos no lugar costumeiro, porém não estavam mais lá quando foi calçá-los. Crente que se enganara foi até o quarto, mas não estavam lá também. Por mais que procurasse, nada. Daí a pouco, ouviu um suave assobio. Ué! Olhou na direção de onde viera o som e viu os chinelos no parapeito da janela do quarto.
— Que diabo estão fazendo ali? Devo estar doido por tê-los colocado lá!
Terminou de se vestir, pois ainda pretendia descer ao restaurante para jantar e decidiu guardar os chinelos. Não estavam mais na janela! Olhou para seus pés e viu que estava usando-os.
— Caramba. Estou mesmo ficando com amnésia.
Ele ainda precisava pentear o cabelo, mas ao dar um passo, pareceu ter dado uma passada mais larga que o normal, fora de seu controle. Mais um passo e quase caiu ao chão. Mais um e observou que os chinelos pareciam ter vida própria. Assustado, sentou-se para retirar os chinelos, mas não conseguiu, pois pareciam grudados nos seus pés. Ouviu então uma risadinha e, depois, novo assobio. Seus cabelos se arrepiaram, pois aqueles sons pareciam ter vindo de seus pés ou, mais precisamente, de seus chinelos.
— Que é isso? Alguma brincadeira? Amanhã vou tirar satisfação com o cara que me vendeu os chinelos.
No entanto, os chinelos queriam se mexer. Como não teve êxito em retirá-los, decidiu levantar de onde sentara e, imediatamente, começou a flutuar. Foi até difícil manter o equilíbrio, mas enfim conseguiu. Derrotado, tomou a decisão de ver o que iria acontecer a seguir.
Os chinelos o levaram até janela, que estava aberta, pois fazia calor e o obrigaram a subir na janela, na qual se segurou com toda a força possível, enquanto os chinelos tentavam fazer com que se soltasse. Olhava lá para baixo, pois estava no 10º andar do hotel e gritava:
— Socorro, me tirem daqui. Não quero morrer!
Não resistiu por muito tempo. Aos poucos, pela insistência dos chinelos, seus dedos abandonaram a janela. Saíram voando, os chinelos levando-o a bel prazer.
— Nããããããão. Vamos voltar. Esqueci de pentear o cabelo!
Mas de nada adiantou a desculpa esfarrapada. Identificou vários lugares: o Coliseu, o Pantheon, a Fontana di Trevi. De repente, ele e os chinelos sobrevoavam Nemi e o Castel Gandolfo. Reconheceu os dois lagos, o menor, o de Nemi e o Lago Albano, próximo ao Palácio Papal, que se encontra na cratera de um vulcão extinto.
Parecia que os chinelos tinham predileção por água, pois começaram a voar sobre a superfície do lago, como se fossem esquis aquáticos. Ele até estava se divertindo; sempre quis saber qual era a sensação de esquiar, digo, voar sobre a água. Mas... tudo que é bom acaba, e os chinelos pararam de esquiar e ele começou a afundar na água. Estava afundando, a água já chegava à sua boca e mal conseguia gritar por socorro.
— Socor... glub, glub.
Deu um sobressalto e abriu os olhos. Estava quase se afogando na banheira do quarto do hotel. Refeito do susto e do pesadelo, levantou-se e se enxugou. Olhou para os inocentes chinelos que colocara longe da banheira para não molharem. Notou um certo brilho à distância. Chegando mais perto, viu que os chinelos estavam ensopados.
— Será que...?
Meu amigo não quis nem saber. Abriu a porta do apartamento, viu a lixeira do andar, pegou os chinelos, abriu a portinhola e jogou os chinelos lixeira abaixo. Quando foi fechar a lixeira, não é que ele ouviu de novo aquela risadinha e um suave assobio!