sábado, 5 de setembro de 2015

MEU GATO FUGIU!

Tenho um gato preto. Ele é gordo e folgado. Está lá com seus nove anos de idade. Chegou em casa com apenas 15 dias, portanto hoje faz parte da família. Junto com ele vieram mais três gatos, todos da raça SRD (Sem Raça Definida!). Com o passar dos anos, restaram somente ele e mais um.

Durante o dia, dormem juntos no sofá. Quando chegamos em casa, seja de dia ou de noite, parecem adivinhar que estamos do outro lado da porta do apartamento, pois lá encontram-se eles esperando para nos cumprimentar. O poder auditivo de gatos é algo impressionante.

É aí onde reside o perigo. Houve várias tentativas do gato preto sair para o hall, mas toda vez, com o pé, conseguia fazê-lo voltar para dentro de casa. Um dia até conseguiu esquivar-se e foi parar no meio do hall. Porém, ao chamá-lo, voltou correndo. Temos de ficar sempre atentos para que nenhum dos dois escapem, embora o outro gato seja mais tranquilo e jamais pôs as patas para fora de casa.

Rotina vai, rotina vem. Gosto de chamá-los quando estou em casa. Certo dia, cadê o gato preto? O outro respondeu, mas nada do gato preto. Procurei em todos os esconderijos habituais. Nada. Procurei atrás do monitor do computador, um lugar predileto. Nada. Afastei sofá e poltronas da sala para ver se estava lá. Nada. Mesmo tendo a certeza de que não poderia ter escapado, sai para o hall e o chamei. Nada. Voltei. Achei que ouvira um fraco miado. O desgraçado estava gozando de mim? Vasculhei a casa toda de novo. Nada. Quando menos espero, ouço novamente aquele miado. Olho para cima e ei-lo, belo e folgado no topo de uma cristaleira alta que quase toca o teto. Ele me olha e eu o encaro. Como é que subiu ali, seu gato maroto?  Solta um mio mais forte, como a dizer: Achou!

Naquele fatídico dia, o gato preto consegue se desvencilhar dos meus pés e sai pelo hall afora. Chega próximo das escadas que vão para o andar de baixo, olha para mim como a me desafiar: Venha me pegar! Naquele instante, ouve-se o latido do buldogue do vizinho por detrás da porta. O gato se assusta e desce correndo pelas escadas. E eu corro atrás dele. Ele para no hall daquele andar; parece hesitar, não sabendo o que fazer. Ouve meus passos e minha respiração ofegante. Espera até eu vê-lo e, de novo, desembesta pela escada abaixo para o outro andar. Só que desta vez ele encontra a porta de um apartamento aberta e entra, sem cerimônia, talvez pensando que fosse o seu. Estou chegando lá, suando às bicas, quando sou quase atropelado por ele, pois sai voando do apartamento perseguido por um enorme gato alaranjado, da raça Maine Coon. Sei que, em geral, são animais dóceis, porém meu gato preto invadiu seu espaço. E lá vou eu, subindo lances de escada atrás deles para ver o que aconteceu. No meu andar, uma cena inusitada: o Maine Coon está na soleira da porta de casa, se esfregando no meu outro gato.

E o gato preto? Aquele covarde foi encontrado, mais tarde, debaixo do sofá. Ficou dois dias sem se alimentar, tamanho o susto que levou. Atualmente ele não se digna nem a levantar para vir nos cumprimentar quando chegamos da rua.  Deve ainda sonhar com o Maine Coon, o maior gato doméstico existente e que, para ele, deve ser parecido com algum tipo de monstro.


sexta-feira, 17 de julho de 2015

O CRÓTON E O AMOR



um conto de Victor José Fryc

Tadeu era um estudante de filosofia que, graças a enormes sacrifícios, estava chegando ao final de seus estudos. Vinha de uma família humilde de um povoado perto de Buenos Aires.
Vivia numa pensão, cuja dona era Aurora, uma ruiva quase quarentona que conservava uma beleza, mistura de crioula e portenha, ou seja, uma flor do bairro. Sua pele branca era adornada por pingentes que se concentravam entre seus seios maternais e volumosos, porém estéticos, ao estilo renascentista. Seus olhos, caramelados de manhã e cor de açúcar queimado à noite, faiscavam magia e vivacidade cintilante.
Mantinha uma prudente distância de seus hóspedes, todos homens, funcionários do mercado próximo da pensão e caminhoneiros que pernoitavam esperando o turno para descarregar. Em síntese, Aurora não alugava quartos para mulheres.
Tadeu recebia um tratamento especial e era favorecido pelo fato de ser um intelectual que dava brilho e prestígio à pensão. Aurora o chamava de “doutorzinho”.
A beleza de Aurora acobertava um caráter decidido, forte e destemido diante dessa clientela tosca e rude.
Todos conheciam o caráter de Aurora desde que expulsou seu marido de casa, açoitado, e deve-se reconhecer que não foi um ato de injustiça. A causa desencadeante do drama foi Aurora encontrar uma mulher enroscada no pescoço do seu marido como se fosse um clássico lenço ao estilo Gardel. Aurora tratou de tomar uma atitude, atingindo-o na cabeça e outras zonas topográficas do seu corpo, o que tentou proteger com uma retirada vergonhosa. Pela manhã voltou. Aurora recorreu novamente a seu habitual método: usar o chicote. Ele nunca mais voltou. Entendeu que a esposa do leão não era uma leoa, mas uma pantera.
Desde aquele momento, Aurora mudou seu caráter e hábitos. Tornou-se jovial e seus movimentos adquiriram um ritmo e uma estética chamativa e sedutora. Suas saias se encurtaram, deixando à mostra pernas brancas e musculosas. Seu decote, ao contrário, desceu, deixando em liberdade o perfume de sua pele. A batida de seu coração acelerava, acompanhada de um rubor de faces toda vez que aparecia o Tadeu. Ao voltar de tarde, Tadeu recebia um mate espumoso e quente que era uma óbvia mensagem direta e, à noite, enquanto estudava madrugada adentro, Aurora, com um quimono que casualmente se abria deixando entrever sua roupa íntima, levava uma garrafa térmica com café. Pouco a pouco foi se aproximando. Tadeu se apavorava quando Aurora procedia a avançar cada vez mais sobre um território minado e perigoso. Não podia lhe dizer que se sentia assediado, pois suas atitudes provocavam no estudante uma recidiva do complexo de Édipo, ainda mais pelo fato de estar longe de sua família.
Entretanto, a situação que mais o perturbava e preocupava era que estava noivo e iria se casar dentro de poucos meses. Sua noiva era da alta sociedade e morava num bairro de mansões suntuosas e tradicionais. Os pais da moça optaram por aceitar o Tadeu pela sua honestidade e inteligência.
Até que sucedeu o inevitável. Certa noite Aurora se dispôs a atacar de surpresa com artilharia pesada, empregando intensamente suas armas estratégicas. Às altas horas, Aurora cruzou o pátio da pensão e se dirigiu ao quarto do Tadeu com uma garrafa térmica com café. Bateu e abriu a porta. Deixou a garrafa na mesa e fingiu observar o livro que Tadeu lia, agachando-se sobre seu ombro; abriu-se o quimono deixando à mostra toda sua nudez. Tadeu submergiu seu Édipo entre os seus seios e foi obrigado a se submeter à rendição incondicional. Aurora queria recuperar o tempo perdido e, assim, Tadeu condenado à escravidão, teve de aceitar as condições impostas sem deixar de sentir culpa por considerar uma traição à sua prometida. Mas esta culpa não durava muito, pois Aurora logo se encarregava de fazê-lo esquecer.
A roda do tempo seguia inexoravelmente e Tadeu cada dia se desesperava mais, e quanto mais ele desejava se desvencilhar de Aurora, mais ela o enchia de carinho. Definitivamente deveria tomar uma atitude para se separar dela e buscava uma saída a menos traumática possível: “Era por amor ou por medo do chicote?”
Como poderia ter sucesso? Diria por exemplo:
“Tenho uma noiva, um compromisso tomado há muito tempo e que é inevitável. Enfim, a vida é assim”...“Não, não aceitaria”.
 “Sou pobre, não tenho um tostão”...”Impossível; me diria que não há falta de dinheiro para o amor”.
 “Vou para o exterior com um contrato”...”Improvável. Seria capaz de vender tudo e querer me acompanhar a qualquer lugar do mundo”.
”Parece-me que estou enlouquecendo; estou doente...Por favor, meu Deus, que devo fazer? Tenho que encontrar uma solução. Sim, algo que a decepcione e que despertará desprezo por mim; asco, repugnância”.
Permaneceu pensativo por longo tempo e encontrou o princípio de uma solução. Por exemplo; “Se não tomar banho...Não, é absurdo”.
 “Já encontrei. Irei cometer um ato degradante, que manche o ato sexual, para que fique a lembrança como uma marca depreciável, indelével, gravada a fogo. Se for possível, que produza uma repugnância tal que destrua por vez suas ânsias sexuais. Que toda vez que seus instintos irrefreáveis a levarem ao desejo e que este desejo a levasse até o quarto, não se atreveria entrar. Que ato poderia ser este?”
”Já sei! Irei defecar na cama. Isso, defecarei na cama. Terá que ser uma grande defecação, volumosa, se possível podre ou fermentada, dá na mesma; que libere um cheiro insuportável e nauseabundo como de ácido sulfídrico. Que manche os lençóis e cobertas da cama de uma cor que nenhum pintor seja capaz de reproduzir numa tela. Que se faça de uma forma explosiva e, se for possível, salpique até o espelho do armário e que o cheiro persista suspenso no ar por vários dias e a lembrança daquele odor fique por vários meses ou anos ou por toda a vida. Que seja impossível comer um lanche ali sem se lembrar disso.
“Pior ainda: que inunde a cama com uma diarreia como uma catarata, ininterrupta e irrefreável, cataclísmica, que infiltre o colchão até inutilizá-lo; que ultrapasse os limites do colchão e escorra pelos pés da cama até atingir o chão. Que se repita a cada instante e não me dê tempo de chegar ao banheiro, como se fosse cólera”.
Depois deste inferno de merda, não havia dúvida que Aurora o deixaria. Para lograr êxito, Tadeu recorreu a um amigo estudante de medicina de último ano que atendia num hospital de Buenos Aires.
— Preciso que me salve deste atoleiro.
— Bem, para este fim, deverá tomar óleo de cróton. Costuma-se administrá-lo aos loucos para que defequem após vários dias com prisão de ventre. A dose é de meia gota. Entrego-lhe um frasco e, cuidado, só deverá tomar meia gota. Esta é a dose recomendada.
— Está bem, obrigado pelo frasco.
Perto da meia-noite, Tadeu foi se preparar. Pegou o frasco e, angustiado, ficou paralisado ao lembrar, surpreso, que seu amigo havia lhe dito para tomar meia gota. Mas como poderia tomar meia gota? Não poderia ligar ao seu amigo a estas horas. Esta noite tinha que ser a decisiva e por nada iria adiar o “ato” diarreico. Precisava terminar a relação agora ou nunca. Era uma questão de vida ou morte.
Por mais que pensasse e pensasse, não conseguiu chegar a uma conclusão de como dividir uma gota em duas partes. Tinha entendido direito? Escutara bem? Não seria que seu amigo apenas frisara para que tomasse muito cuidado? Não havia outra solução: precisaria tomar pelo menos uma gota.
Tomou uma gota de óleo de cróton.
Aurora foi ao quarto de Tadeu como de costume. Era meia-noite. Deixou a garrafa de café sobre a mesa e abraçou contra o peito a cabeça loira do moço. Tadeu estava pálido e transpirava suor frio. Seus intestinos começaram a dialogar à distância e a contraírem espasmodicamente. As contorções não tardaram a surgir de forma violenta. Os dois caíram abraçados na cama e um beijo ruidoso encheu o ambiente, mas imediatamente, como um eco misterioso, ouviram-se sons musicais de instrumentos de bronze: trompetes, trombones e cornos ingleses, seguidos de um derrame interminável de merda líquida que cobriu toda a cama.
Aurora se ergueu surpresa, enquanto Tadeu continuava com a diarreia.
Foi em busca de umas toalhas e um balde com água, enquanto lamentava:
— Pobre amor. Que aconteceu? Deram-lhe por aí alguma comida em más condições?
Tratou de limpá-lo e de trocar a roupa da cama, porém Tadeu continuava com a diarreia sem parar.
A situação complicou quando Tadeu entrou em colapso grave. Aurora chamou uma ambulância e Tadeu foi parar na Terapia Intensiva à beira da morte.

O estudante de medicina foi visitá-lo quando já estava fora de perigo e Tadeu o repreendeu:
— Desgraçado, assassino, quase me manda para o outro mundo.
— Você é o único culpado. Te adverti que a dose era de somente meia gota de óleo de cróton.
— Sei, mas quer me dizer como se faz para se tomar apenas meia gota?
— É muito simples. Não há nenhuma filosofia nisso. Coloca-se uma gota em um copo de água e bebe-se só meio copo!
Aurora, na cabeceira da cama, acariciava os cachos loiros do Tadeu e olhava-o amorosamente.
Conclusão: ¡Que historia de mierda! ¿No?

tradução e adaptação do espanhol

VICTOR JOSÉ FRYC é Membro Honorário da SOBRAMES-SP. Participou do XVII Congresso Nacional da SOBRAMES, realizado em São Paulo, em 1998, e da V Jornada Médico-literária Paulista em Águas de São Pedro, em 1999. É membro-fundador da LISAME, Liga Sul-americana de Médicos Escritores, fundada em 1998, por iniciativa do Dr. Flerts Nebó. “El crotón y el amor” foi apresentado por ele numa Pizza Literária e publicada na Antologia Paulista de 2000. Teve outros textos publicados em diversas antologias da SOBRAMES-SP. Em 2002, participou do Prêmio “Flerts Nebó” para A Melhor Prosa do Ano, na qualidade de jurado.
Foi presidente da Associação de Médicos Escritores, ligada à Associação de Médicos Municipais de Buenos Aires. Tem vários livros publicados, entre os quais: Relatos de la Guardia, El crimen de Amerling e El violin perdido. Além de médico e escritor, desde os oito anos de idade, toca o violino e participa de uma orquestra de tango em Buenos Aires.
Dr. Fryc é médico de família, tendo se formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires, em 1962. Vive e trabalha no bairro de Mataderos, na capital da Argentina.
Perdemos contato com Dr. Fryc. Desde que decidi fazer a tradução e adaptação deste texto, tenho tentado encontrá-lo, através de cartas e inúmeros E-mails para a Associação de Médicos Municipais de Buenos Aires, sem obter uma resposta sequer.

domingo, 21 de junho de 2015

O COMETA 67P



(imagem da Internet)

Em 2014, quando escrevi um ensaio a respeito de “Cometas”, contei sobre uma sonda espacial europeia chamada Rosetta, que fora lançada em 2004 com a missão específica de estudar o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, cuja superfície mede apenas 14 km2. A sonda viajou mais de seis bilhões de quilômetros até entrar em órbita do cometa. Foi o primeiro objeto construído pelo homem a realizar tal façanha, mantendo uma órbita a 100 km do cometa, acompanhando sua velocidade de 55.000 km/h. Isto ocorreu em 6 de agosto de 2014, alguns meses depois de completar 10 anos do lançamento.

Acoplado à sonda Rosetta estava um pequeno veículo robótico cujo nome é Philae, ambos monitorados por um Centro de Controle em Cologne, na Alemanha. Seu nome deriva de um obelisco com inscrições bilíngues, da Ilha de Philae, e que foi usado juntamente com a Pedra da Rosetta para decifrar os hieroglifos egípcios. Em 12 de novembro Philae pousou na superfície do 67P, num feito único. No pouso, o robô não conseguiu se fixar ao solo e deu um salto de aproximadamente um quilômetro antes de voltar à superfície do cometa, flutuando até parar. Imediatamente, vários dos instrumentos a bordo começaram a mandar dados para determinar a composição do solo.

Comemorou-se muito o sucesso da missão, mas essa alegria durou pouco. Infelizmente, três dias depois o veículo parou de funcionar e entrou em modo de hibernação. Isto deveu-se ao fato de estar equipado com baterias solares, e Philae pousou num local de sombra onde não conseguia recarregar, porque os raios solares não chegavam até ele.

Naqueles três dias em que ficou mandando dados, um dos instrumentos detectou partículas orgânicas na atmosfera do cometa, incluindo hidrogênio e carbono. Constatou-se que a superfície era formada por gelo e que no local onde pousou, não conseguiu perfurar o gelo, pois estava muito duro e espesso.

Desde a inoperância do Philae, a sonda espacial Rosetta permaneceu em órbita do cometa. Em 14 de junho de 2015, recebeu-se uma transmissão de 85 segundos do veículo robótico, retransmitida da sonda para o Centro na Alemanha, indicando que as baterias foram recarregadas e estava novamente operacional. O cometa vai se aproximando do Sol e está sofrendo um processo de aquecimento e, devido ao seu lento derretimento, está começando a liberar sua cauda. Philae está sendo iluminado pelo sol que fez com que pudesse retornar às atividades planejadas.

Os cientistas irão alterar a órbita de Rosetta para que a comunicação entre o cometa e a Terra seja facilitada, e se possa fazer novas pesquisas, resultando em mais dados científicos. Eles também estão com esperanças de descobrir a exata localização de Philae, que continua um mistério.

Entre as várias pesquisas, as amostras do solo do cometa que serão colhidas por perfurações com brocas especiais, espera-se poder desvendar detalhes de como os planetas — e possivelmente mesmo a vida — evoluíram. Acredita-se que a rocha e o gelo que compõem um cometa conservem moléculas orgânicas primitivas como se ele fosse uma cápsula do tempo.

Segundo consta, o cometa 67P alcançará o ponto mais próximo do Sol em 13 de agosto, quando então começará a se afastar daquele astro. O veículo robótico deverá receber luz solar suficiente para continuar em funcionamento até outubro, quando mais uma vez ficará inoperante, provavelmente para sempre.

É uma lástima que após ter percorrido uma distância impressionante durante 10 anos, só possa ser aproveitado por menos de um ano, virando lixo cósmico!

Referências: Wikipedia, BBC e CBC


sexta-feira, 22 de maio de 2015

MARIA-SEM-VERGONHA


(foto da Internet)


Sempre tive muita curiosidade de saber por que essa planta, de origem africana e de nome científico impatiens walleriana, tem o nome popular de maria-sem-vergonha. É conhecida, em inglês, de busy lizzie.

Seu nome científico de impatiens é bem pertinente, pois cresce muito depressa, ou seja, não tem a paciência de se desenvolver lentamente, como a maioria de seus pares. Tem também o nome popular de “beijo” pois, ao mais suave dos toques, suas cápsulas verdes parecem desabrochar, arremessando ao longe suas sementes. As cápsulas vazias se enrolam a seguir e, penduradas nos seus ramos, ornamentam esta planta. Sua alta capacidade de reprodução faz com que se torne uma praga em qualquer jardim.

Sua fama de sem-vergonha prende-se ao fato de que cresce em qualquer tipo de solo, mesmo naquele pobre em nutrientes. Além das sementes que fazem-na se multiplicar desavergonhadamente, reproduz-se também por galhos espetados na terra, facilmente formando raízes e, assim, se espalhando mais depressa do que qualquer erva daninha. Prefere o sol, mas prospera bem na sombra das árvores, plantada propositadamente para substituir aquela grama que não cresce ali. Não gosta de clima frio, nem de geada, portanto não evolui bem na região sul do Brasil. É muito apreciada pelas belas flores de pétalas simples ou dobradas, de cor roxa, salmão e branca, assim como diversos tons de vermelho.

A maria-sem-vergonha aceita ser plantada em vasos, servindo como ornamento em ambientes fechados. Tem-se de cuidar principalmente para que não sofra infestação por cochonilhas e moscas-brancas. Infelizmente, nunca pudemos deixar vasos com flores dentro de casa, nem mesmo violetas sul-africanas — uma flor que também gostamos — pois os nossos gatos apreciam as flores mais do que a gente e as comem. Os gatos são altamente seletivos e só se alimentam das pétalas, deixando para lá os talinhos das flores e a folhagem.

Existe uma outra planta de nome maria-sem-vergonha, a catharanthus roseus, também conhecida por vários outros nomes, vinca-de-madagascar, vinca-de-gato, boa-noite, ou beijo-de-mulata. É endêmica de Madagascar. Em inglês, é conhecida por Madagascar periwinkle. É tão popular quanto a outra maria descrita acima. Esta planta tem aptidões extraordinárias. Os curandeiros de Zanzibar e Madagascar a utilizavam para combater o diabetes. Pesquisadores norte-americanos estudaram a planta e, entre outras, derivaram duas importantes substâncias: a Vimblastina, usada no tratamento de leucemia infantil, com remissão se elevando de 10% para 95% dos casos, e a Vincristina, usada no tratamento de linfoma de Hodgkin. Os dois medicamentos são usados para vários tipos de cânceres, já que agem na inibição da mitose. Convenhamos, esta planta não tem nada de sem-vergonha!