domingo, 20 de dezembro de 2015

MORFEU



A mitologia grega é muito fértil. Detalha minuciosamente seus deuses. Entre eles está Morfeu, o deus dos sonhos. Era responsável por dar forma aos sonhos. Daí deriva a palavra morfos que significa “forma”.

Sob os cuidados de Morfeu, as pessoas têm um sono profundo, podendo ter sonhos sobre eventos próximos ou sobre o futuro. Morfeu era o mensageiro de sonhos dos deuses, comunicando as mensagens divinas através de imagens e histórias, criando assim os sonhos. Sendo o dono dos sonhos, podia dar o formato que quisesse às criaturas que surgiam nos sonhos, além dele mesmo assumir o papel de um humano.

Em sua forma original, é representado portando asas nas costas parecidas às de borboletas. Segundo a mitologia clássica, ele e seus irmãos receberam as asas de seu tio, a divindade Tânatos, o deus da morte. Diz a lenda que Morfeu não só usava suas asas para alcançar aos que necessitassem de sua ajuda nos sonhos, mas também para carregar seu pai, Hipnos, para o Mundo dos Sonhos, escondendo-o da ira de Zeus. Hipnos era desprovido de asas e um tanto preguiçoso, e passava a maior parte do tempo dormindo!

Seu pai era, portanto, o deus do sono. Sua mãe era Pasiteia, deusa do descanso e relaxamento. Morfeu e seus irmãos formavam os Oneiros (em grego = Sonhos). Tinha três irmãos: Fobetor, criador dos pesadelos e sonhos fóbicos, Fântaso, responsável por sonhos falsos, repletos de fantasmas e Ícelo, responsável por fazer com que sonhos se parecessem mais reais. Sua avó era Nix, a divindade da noite.

Morfeu vivia com sua família no Mundo dos Sonhos, um lugar onde engendrava os sonhos dos mortais. Morfeu dormia numa caverna cheia de sementes de papoula. Este fato é talvez o motivo pelo qual a morfina tenha este nome, conhecida na língua inglesa por morphine ou morphium, cuja base é o ópio extraído das sementes de papoula.

Parece que Morfeu era um dos deuses dos mais ocupados, portanto não tinha esposa. No entanto há controvérsias. Chega-se a identificá-lo junto a Íris, a personificação do arco-íris e  mensageira dos deuses.

A mitologia grega é inebriante, porém ao mesmo tempo cansativa. Portanto, sugiro ao leitor que vá dormir nos braços de Morfeu!

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

OS CHINELOS VOADORES




Recentemente, foi-me contada uma história sobre chinelos voadores. Semelhante à crença de tapetes mágicos, os chinelos também voavam. Foi narrada com tanta convicção, que parecia até verdade. O meu amigo me disse que havia vivido esta experiência quando estivera em Roma a negócios. Estava sozinho, uma vez que sua mulher ficara no Brasil. Costumava dormir cedo pois, pela manhã, tinha um longo trajeto a percorrer até chegar a seu destino em Nemi, não muito longe do Castel Gandolfo, residência de verão do Papa. Gostava de ir lá, porque sempre havia mais italianos que turistas e também porque o clima era bem mais agradável nas colinas que circundam Roma, com quase 5ºC a menos em relação à cidade lá embaixo. Para seus negócios — que não chegou a me dizer quais eram — era o local ideal, pois só lidava com o povo local, não sofrendo intervenção de estrangeiros, nem de turistas palpiteiros. Chegava no hotel exausto, logo tirava os sapatos e vestia os chinelos que comprara próximo do próprio hotel.
Rotineiramente, cansado, tomava um banho de imersão para relaxar, numa banheira antiga bem grande com pés de bronze imitando patas de leão. Quando saia dela, sabia que deixaria um rastro d’água até se enxugar. Por isso colocava os chinelos próximos da porta, para não molhá-los. Naquela noite deixou os chinelos no lugar costumeiro, porém não estavam mais lá quando foi calçá-los. Crente que se enganara foi até o quarto, mas não estavam lá também. Por mais que procurasse, nada. Daí a pouco, ouviu um suave assobio. Ué! Olhou na direção de onde viera o som e viu os chinelos no parapeito da janela do quarto.
— Que diabo estão fazendo ali? Devo estar doido por tê-los colocado lá!
Terminou de se vestir, pois ainda pretendia descer ao restaurante para jantar e decidiu guardar os chinelos. Não estavam mais na janela! Olhou para seus pés e viu que estava usando-os.
— Caramba. Estou mesmo ficando com amnésia.
Ele ainda precisava pentear o cabelo, mas ao dar um passo, pareceu ter dado uma passada mais larga que o normal, fora de seu controle. Mais um passo e quase caiu ao chão. Mais um e observou que os chinelos pareciam ter vida própria. Assustado, sentou-se para retirar os chinelos, mas não conseguiu, pois pareciam grudados nos seus pés. Ouviu então uma risadinha e, depois, novo assobio. Seus cabelos se arrepiaram, pois aqueles sons pareciam ter vindo de seus pés ou, mais precisamente, de seus chinelos.
— Que é isso? Alguma brincadeira? Amanhã vou tirar satisfação com o cara que me vendeu os chinelos.
No entanto, os chinelos queriam se mexer. Como não teve êxito em retirá-los, decidiu levantar de onde sentara e, imediatamente, começou a flutuar. Foi até difícil manter o equilíbrio, mas enfim conseguiu. Derrotado, tomou a decisão de ver o que iria acontecer a seguir.
Os chinelos o levaram até janela, que estava aberta, pois fazia calor e o obrigaram a subir na janela, na qual se segurou com toda a força possível, enquanto os chinelos tentavam fazer com que se soltasse. Olhava lá para baixo, pois estava no 10º andar do hotel e gritava:
— Socorro, me tirem daqui. Não quero morrer!
Não resistiu por muito tempo. Aos poucos, pela insistência dos chinelos, seus dedos abandonaram a janela. Saíram voando, os chinelos levando-o a bel prazer.
— Nããããããão. Vamos voltar. Esqueci de pentear o cabelo!
Mas de nada adiantou a desculpa esfarrapada. Identificou vários lugares: o Coliseu, o Pantheon, a Fontana di Trevi. De repente, ele e os chinelos sobrevoavam Nemi e o Castel Gandolfo. Reconheceu os dois lagos, o menor, o de Nemi e o Lago Albano, próximo ao Palácio Papal, que se encontra na cratera de um vulcão extinto.
Parecia que os chinelos tinham predileção por água, pois começaram a voar sobre a superfície do lago, como se fossem esquis aquáticos. Ele até estava se divertindo; sempre quis saber qual era a sensação de esquiar, digo, voar sobre a água. Mas... tudo que é bom acaba, e os chinelos pararam de esquiar e ele começou a afundar na água. Estava afundando, a água já chegava à sua boca e mal conseguia gritar por socorro.
— Socor... glub, glub.
Deu um sobressalto e abriu os olhos. Estava quase se afogando na banheira do quarto do hotel. Refeito do susto e do pesadelo, levantou-se e se enxugou. Olhou para os inocentes chinelos que colocara longe da banheira para não molharem. Notou um certo brilho à distância. Chegando mais perto, viu que os chinelos estavam ensopados.
— Será que...?
Meu amigo não quis nem saber. Abriu a porta do apartamento, viu a lixeira do andar, pegou os chinelos, abriu a portinhola e jogou os chinelos lixeira abaixo. Quando foi fechar a lixeira, não é que ele ouviu de novo aquela risadinha e um suave assobio!

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

THE FLYING SLIPPERS





The other day I heard a yarn about flying slippers. It reminded me of flying carpets! It was so convincing that it sounded almost true. My friend told me he had been to Rome on business. His wife had remained in Brazil. When alone he tends to go to bed early, so it was easy for him next morning getting up early to go to Nemi way up in the hills that circle Rome, not far from Castel Gandolfo, the Pope's Summer residence, and quite a distance from his hotel. He always enjoys going there, as there are more Italians than tourists, and also because the climate is almost 5ºC cooler that down in Rome itself, and far more agreeable. It was an ideal place for business—he never told me what it was—but the advantage of dealing with the locals, without the intervention of foreigners and tourists made it worthwhile. He would arrive back at the hotel exhausted and would take off his shoes and put on a pair of slippers bought at a store close by the hotel.
When tired, he normally relaxed in an old and large bathtub with bronze lion feet, with hot water up to his chin. He knew that when getting out of the tub, he would leave a trail of water behind him, so he would leave his slippers close to the bathroom door so they wouldn't get wet. That night he had left his slippers in their customary place, but they were not there when he wanted them. Although he was certain he had put them there, he went looking for the slippers in his room. He simply could not find them. All of a sudden he heard a slight whistle. Turning around he saw the slippers on the windowsill.
“How in blazes did they land there? I must be sort of crazy in putting them there!” he muttered.
He intended to go down for dinner once he had finished dressing. He decided to put away his slippers, but they were not on the sill anymore. He looked down at his feet and saw that he was already wearing them.
“Holy smoke. I must have my head examined!”
He still had to comb his hair, but the step forward he gave was larger than usual, completely out of control. He gave another step and almost toppled over. Another pace and the slippers seemed to be in command. Frightened, he tried to take them off but was unable to, for they were stuck to his feet. He heard light laughter, and then again that low whistle. His hair stood on end, for those sounds seemed to come from his feet, or more precisely, from his slippers.
“What's all this? Some kind of a practical joke? Tomorrow I'm going to deal with the chap that sold me these slippers.”
The slippers kept moving. As he was unable to take them off, he got up from where he was seated and immediately started to float in the air. It was even difficult in maintaining his balance. He gave up and decided to see what would happen next.
The slippers took him over to the open window and made him climb onto the sill. He was holding on for dear life, as the slippers were doing everything to make him let go. He looked down from the 10th floor of the hotel.
“Help! Get me away from here! I don't want to die!”, he shouted terrified.
His resistance did not last for long. Despite holding on by his fingernails, the slippers won the battle and they left the window behind, as they flew away.
“Noooooo. Let's go back. Please. I forgot to comb my hair!
That lame excuse was to no avail. He recognised various places: the Coliseum, the Pantheon, the Fontana di Trevi. Suddenly they were flying over Nemi and the Castel Gandolfo. He recognised two lakes, a smaller one, the Lake Nemi, and Lake Albano, closer to the Papal Palace, located in an extinct volcano crater.
The slippers seemed to have a fondness for water because soon they were skimming the surface of the water as though they were on skis. He was even enjoying himself, as he had always wanted to feel the sensation of skiing, that is, gliding over the water. Well... everything comes to an end, and the slippers stopped skiing and he started to sink. He was going under and was suffocating as water reached his mouth. He could hardly cry out.
“Help, hel... blub, blub.”
He gave a jolt and opened his eyes. He was almost drowning in the hotel’s bathtub. Recovering from his panic and nightmare he got up and dried himself. He looked at the innocent slippers where he had left them so they wouldn’t get wet. He thought there was a certain brightness on the slippers, and close up he saw they were soaking wet.
“I wonder?”
My friend never gave it a second thought. He opened the door of the hotel room, saw where there was the opening slot for rubbish, and threw the slippers down the chute to the bin below. When he was about to close the intake door, he heard once again that light laughter and low whistle!
 many thanks go to
K Thomson
for revising the draft

sábado, 5 de setembro de 2015

MEU GATO FUGIU!

Tenho um gato preto. Ele é gordo e folgado. Está lá com seus nove anos de idade. Chegou em casa com apenas 15 dias, portanto hoje faz parte da família. Junto com ele vieram mais três gatos, todos da raça SRD (Sem Raça Definida!). Com o passar dos anos, restaram somente ele e mais um.

Durante o dia, dormem juntos no sofá. Quando chegamos em casa, seja de dia ou de noite, parecem adivinhar que estamos do outro lado da porta do apartamento, pois lá encontram-se eles esperando para nos cumprimentar. O poder auditivo de gatos é algo impressionante.

É aí onde reside o perigo. Houve várias tentativas do gato preto sair para o hall, mas toda vez, com o pé, conseguia fazê-lo voltar para dentro de casa. Um dia até conseguiu esquivar-se e foi parar no meio do hall. Porém, ao chamá-lo, voltou correndo. Temos de ficar sempre atentos para que nenhum dos dois escapem, embora o outro gato seja mais tranquilo e jamais pôs as patas para fora de casa.

Rotina vai, rotina vem. Gosto de chamá-los quando estou em casa. Certo dia, cadê o gato preto? O outro respondeu, mas nada do gato preto. Procurei em todos os esconderijos habituais. Nada. Procurei atrás do monitor do computador, um lugar predileto. Nada. Afastei sofá e poltronas da sala para ver se estava lá. Nada. Mesmo tendo a certeza de que não poderia ter escapado, sai para o hall e o chamei. Nada. Voltei. Achei que ouvira um fraco miado. O desgraçado estava gozando de mim? Vasculhei a casa toda de novo. Nada. Quando menos espero, ouço novamente aquele miado. Olho para cima e ei-lo, belo e folgado no topo de uma cristaleira alta que quase toca o teto. Ele me olha e eu o encaro. Como é que subiu ali, seu gato maroto?  Solta um mio mais forte, como a dizer: Achou!

Naquele fatídico dia, o gato preto consegue se desvencilhar dos meus pés e sai pelo hall afora. Chega próximo das escadas que vão para o andar de baixo, olha para mim como a me desafiar: Venha me pegar! Naquele instante, ouve-se o latido do buldogue do vizinho por detrás da porta. O gato se assusta e desce correndo pelas escadas. E eu corro atrás dele. Ele para no hall daquele andar; parece hesitar, não sabendo o que fazer. Ouve meus passos e minha respiração ofegante. Espera até eu vê-lo e, de novo, desembesta pela escada abaixo para o outro andar. Só que desta vez ele encontra a porta de um apartamento aberta e entra, sem cerimônia, talvez pensando que fosse o seu. Estou chegando lá, suando às bicas, quando sou quase atropelado por ele, pois sai voando do apartamento perseguido por um enorme gato alaranjado, da raça Maine Coon. Sei que, em geral, são animais dóceis, porém meu gato preto invadiu seu espaço. E lá vou eu, subindo lances de escada atrás deles para ver o que aconteceu. No meu andar, uma cena inusitada: o Maine Coon está na soleira da porta de casa, se esfregando no meu outro gato.

E o gato preto? Aquele covarde foi encontrado, mais tarde, debaixo do sofá. Ficou dois dias sem se alimentar, tamanho o susto que levou. Atualmente ele não se digna nem a levantar para vir nos cumprimentar quando chegamos da rua.  Deve ainda sonhar com o Maine Coon, o maior gato doméstico existente e que, para ele, deve ser parecido com algum tipo de monstro.