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sábado, 22 de fevereiro de 2014

O LORDE ESCOCÊS



A designação de Lorde Escocês, ou “Laird”, é dada à pequena nobreza e se situa logo abaixo do título de Barão. O lorde é normalmente de algum lugar ou seja, fulano de tal, lorde de X, sendo X o nome da localidade. Isso me faz lembrar de Leonardo da Vinci, sendo Vinci sua cidade de origem.
    O Lorde Lyon, que representa Sua Majestade a Rainha Elizabeth II sobre a determinação de títulos e dignitários na Escócia, recentemente emitiu o seguinte parecer:

O termo “laird” tem sido usado geralmente para o proprietário de terras, às vezes pelo próprio proprietário ou, mais comumente, por aqueles que residem e trabalham nas terras. É mais uma descrição do que um título e não é apropriado para o dono de uma residência normal, muito menos para o proprietário de uma pequena gleba, adquirida como suvenir. É desnecessário dizer que o termo “laird” não é sinônimo de “lord” ou “lady”.

   Apesar desta orientação oficial, encontram-se inúmeros sites na Internet oferecendo terras na Escócia, recebendo-se em troca uma escritura e o título de “Laird”. Há alguns anos, no site do meu guia escocês, havia um link para uma dessas ofertas. Na ocasião desconhecia o parecer acima, porém, mesmo cético, decidi aderir, quando soube que as £25.00 a pagar seriam utilizadas para reflorestamento na Escócia. Obviamente, jamais aceitei o título de Lorde Escocês, mas a brincadeira era interessante e recebi a escritura com o respectivo título.
   Três anos atrás, estive em John O’Groats, a vila mais setentrional da Grã-Bretanha e achei o loteamento. Teorica-mente, eu era proprietário de um pé quadrado (± 0,093 m2). Pisei nas “minhas terras”, não muito convencido de ser dono delas!
   Aproveitando o ensejo, em 18 de setembro de 2014 ocorrerá um referendum para definir se a Escócia se tornará um país independente do Reino Unido. § Discute-se quem tem direito de voto ou não. Há controvérsias a respeito, no entanto o critério estabelecido é o de que terão direito ao voto apenas os escoceses residentes na Escócia. A população total gira em torno de 5 milhões de habitantes e há mais 800.000 escoceses residindo na Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte que não poderão votar. Acha-se que, pelo fato de morarem longe de suas origens, não serão afetados pelo resultado do referendum e, portanto, não devem opinar, mesmo que fossem considerados verdadeiros Lordes Escoceses.
   Na minha opinião, nenhum destes critérios define bem um escocês. Pode até servir para quem poderá votar ou não, mas o que realmente vale é o verdadeiro sentimento de ser escocês. A Escócia foi paixão à primeira vista. A culpa é dos próprios escoceses que são muito hospitaleiros e, com raríssimas exceções, nos recebem de braços abertos.
   Desde criança, sabia que corria sangue escocês nas minhas veias, pois tinha como parente uma médica de nome Annie McCall (1858-1949), uma das primeiras 50 médicas a se formarem e que ficou famosa em Londres, no fim do século XIX, por ter sido pioneira nos cuidados de mães solteiras. Fundou uma maternidade na qual todos os médicos e a enfermagem eram do sexo feminino. A partir de 1936, passou a ser chamado de Hospital e Maternidade Annie McCall. Durante a Segunda Guerra Mundial o hospital foi bombardeado e teve de ser fechado. Somente depois da morte da doutora, o hospital foi reconstruído e funcionou como uma maternidade sob a responsabilidade do NHS (Serviço Nacional de Saúde), encerrando suas atividades definitivamente em 1970.§§
   Nunca assumi a identidade escocesa por desconhecer o verdadeiro parentesco com aquela doutora. Parece que era uma prima distante, mas, nem por sonho poderia pleitear uma cidadania escocesa, sem provas concretas. Meu tio, que a conheceu, faleceu há quase 40 anos. Em suma, considero-me um pouco escocês, entre as minhas várias miscigenações raciais.
   Ser eu um Laird, é claro, é uma piada. Entretanto, como nós brasileiros costumamos dizer: “Tenho papel passado”!

_______________________ 
§   NOTA: Venceu o “não” nesse referendum e a Escócia não se tornou independente do Reino Unido. 
§§ NOTA: Em 2015, fui à procura da antiga maternidade e encontrei a edificação. Hoje está toda reformada e transformada em residências particulares.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A ÁRVORE DE NATAL



A Batalha de Trafalgar é um episódio dramático das Guerras Napoleônicas e ocorreu no Cabo de Trafalgar, na costa da Espanha, em 21 de outubro de 1805, da qual participaram a França e a Espanha contra a Inglaterra, numa tentativa de invasão através do Canal da Mancha. Uma frota inglesa comandada pelo Almirante Nelson enfrentou o inimigo e uma dura batalha se travou. Foi vencida pelos ingleses, porém Nelson perdeu a vida. Em sua homenagem existe em Londres uma praça denominada Trafalgar Square, em cujo centro encontra-se uma estátua do Almirante Nelson, de mais de cinco metros, no alto de uma coluna com quase 50 metros. Além da Coluna de Nelson, como é conhecida, em Trafalgar Square encontra-se o National Gallery, com pinturas do séc. XII até o séc. XIX, e a Igreja de St. Martin in the Fields, cuja orquestra e seus concertos são mundialmente conhecidos.
            Durante a Segunda Guerra Mundial, a Noruega foi invadida e muito castigada pelos alemães. A atuação e o empenho das tropas da Grã-Bretanha na Noruega fez com que, em termos da Segunda Guerra, a perda de vidas fosse pequena. Além disso, o Reino Unido também concedeu asilo para o rei da Noruega e milhares de refugiados noruegueses.
            Desde 1947, em sinal de gratidão pelo apoio na Guerra, a cidade de Oslo homenageia o povo britânico, presenteando-o com uma árvore de Natal. Não de trata de uma árvore como costuma-se usar aqui no Brasil (Cryptomeria japonica), mas de uma conífera da família dos abetos (Picea abies) que geralmente tem 50 a 60 anos de idade e mede mais de 20 metros e que é encontrada nas encostas florestais geladas da Noruega. Lá é conhecida como A Rainha da Floresta. A doação é feita em novembro, numa cerimônia defronte à Prefeitura de Oslo, na presença do Embaixador Britânico, do Prefeito de Londres e autoridades norueguesas. A árvore é então transportada para a Inglaterra de navio pelo Mar do Norte.
A árvore é erguida em Trafalgar Square e decorada em estilo norueguês, adornada com lâmpadas de halogênio. Este ano as lâmpadas foram acesas em 5 de dezembro e no dia 8 há uma procissão noturna com tochas para a Bênção do Presépio. A partir de 9 de dezembro, e até o dia 22, são feitas apresentações de canções natalinas sob a árvore, com a participação de mais de 50 grupos com a finalidade de ajudar organizações de caridade através de arrecadações durante o evento. O programa se encontra na Internet.
A Rainha da Floresta permanece até a 12ª Noite de Natal (Dia de Reis) quando então é retirada e reciclada, sendo cortada em pedaços para virar adubo.

Quem estiver em Londres na época do Natal, não pode deixar de fazer uma visita a Trafalgar Square para ver a árvore, que se torna ainda mais interessante quando se conhece sua história.

O MUNDO DAS BENGALAS


Desde que o Homem habita a Terra, encontrou no galho de uma árvore um objeto para auxiliá-lo em sua marcha, seja apenas para apoiá-lo em terrenos acidentados, como no caso do cajado, seja para ajudá-lo para ficar em pé por qualquer lesão dos membros inferiores, traumática ou neurológica.
É óbvio pressupor-se que, com o avançar da Humanidade, o homem primitivo foi se aprimorando, escolhendo galhos cada vez mais retos, ou então, recorrendo à pedra lascada, polida e aos metais para também trabalhar os galhos retorcidos. Imagina-se que, acidentalmente, algum primitivo descobriu que uma pequena bolota ou uma pequena curvatura numa das pontas melhorava muito para segurá-la pela mão.
Com o passar do tempo, bengalas tornaram-se símbolos de autoridade. No antigo Egito elas variavam de acordo com a profissão do dono, fosse ele um faraó, um tecelão ou um marinheiro. Era de suma importância que o acompanhasse até a morte e no além, tendo sido encontrada junto às múmias.
Na Idade Média as bengalas eram decoradas com crucifixos e outros símbolos da igreja, uma vez que prevalecia o domínio destes prelados. Os reis europeus portavam bengalas como símbolos de autoridade, muito bem observado nas pinturas da época como, por exemplo, de Henrique VIII. Luiz XIV da França portava sempre bengalas ricamente ornamentadas com joias e as restringiu apenas para a aristocracia. Não permitia que seus súditos usassem bengalas em sua presença.
Basicamente, uma bengala é dividida em quatro partes: o cabo, a haste, o colarinho (que une o cabo à haste, especialmente se forem de materiais diferentes) e a ponteira.
O século XIX, com a Revolução Industrial, presenciou a fabricação em massa de bengalas para todos os gostos. Continuaram representando o poder, fundamentalmente monetário, pois quanto mais rico o proprietário, mais elaborada era sua bengala. Tiffany as fazia, como todas as outras firmas de porcelana. Faberge usava jade e quartzo. Do oriente chegavam bengalas com ornamentos em marfim. Artesãos desenhavam colarinhos, encrustando-os com diamantes. Marinheiros as preparavam de osso de baleia.
São várias as categorias de bengalas. Sempre vem à mente o seu importante uso médico, desde bengalas de madeira, às de metal, onde se pode regular sua altura, àquelas de extremidade com quatro ponteiras para garantir maior estabilidade.
As bengalas decorativas são principalmente do século XIX e até 1920. Os cabos podiam ser esmaltados, de prata, bronze, madeira, vidro, etc. As de cabo de prata eram bastante trabalhadas com cabeças de índios e outras figuras humanas, animais e flores. Os temas eram por demais variados.
Há também bengalas com várias funções. Podem camuflar uma arma branca ou de fogo, podem apresentar um esconderijo para portar documentos ou drogas, ou então ter no seu cabo uma bússola ou um relógio. Eram inúmeras as aplicações. O famoso violinista Jascha Heifitz frequentemente portava um arco de violino dentro de uma bengala que retirava ao se apresentar no palco para um concerto.
No entanto, talvez o uso mais comum foi de ser, no século XIX e XX, um símbolo de elegância para as damas e cavalheiros da época. Não se pode esquecer, contudo, seu uso em plena Segunda Guerra Mundial, onde os comandantes das forças armadas carregavam bengalas finas e curtas debaixo do braço, como símbolo de seu indiscutível poder.
Não poderia deixar de mencionar que existem miniaturas de escudos representando cidades ou locais que podem ser afixadas a uma bengala de madeira. Deixa de ser uma simples bengala para ser uma bem viajada com histórias para contar.

Gosto sempre de lembrar que fui ensinado de que a bengala é um instrumento médico para dar apoio, no entanto, apenas “apoio moral”. Isto não é verdade. Já tive de usar uma bengala em diversas ocasiões e dou graças ao Homem Primitivo pela sua descoberta, pois muito ajuda no apoio aos transtornos físicos também.

domingo, 20 de outubro de 2013

As Elegantes Caixas do Correio Britânico



No século XIX, o serviço postal inglês, o Royal Mail, levava correspondência de um local para outro em suas próprias carruagens, que também serviam para transportar passageiros. Geralmente paravam em estalagens pré-determinadas onde havia um agente do correio para receber e entregar a correspondência. Esta situação perdurou até 1852, quando foram instaladas as primeiras caixas de coleta por ordem de Sir Rowland Hill, chefe do correio e quem idealizou o primeiro selo postal 12 anos antes (1840 – o Penny Black).
       As primeiras caixas de correio eram cilíndricas e imitavam colunas dóricas e se tornaram um ícone da Grã-Bretanha, da mesma maneira que as conhecidas cabines telefônicas vermelhas. A ideia não era original, pois caixas de coleta parecidas já existiam na França.
Com o passar dos anos adotaram-se muitos formatos diferentes. Variaram de acordo com a época em que foram fabricadas e o material utilizado. As mais tradicionais são de ferro fundido, mas já foram feitas de fibra de vidro e de plástico especial, para uso em ambientes fechados como supermercados e aeroportos.
Estas caixas, em geral, medem cerca de 1,70m de altura. Uma parte do corpo fica enterrada no subsolo, para lhe dar maior estabilidade. O corpo da caixa é encimado por um cone protetor que pode, ou não, ser ornamentado. É todo pintado de vermelho com a base preta. Por uns tempos, houve caixas de correio específicas para correspondência aérea que eram pintadas de azul ou verde (1930-1938). A abertura para as cartas geralmente tem uma proteção contra chuva. A largura das aberturas foi acompanhando o aumento do tamanho das cartas, que na época da Rainha Victoria ainda eram muito pequenas. Abaixo dela encontra-se uma placa indicativa dos horários de coleta, muitas vezes com destaque para o último horário do dia em que ocorre. Há ainda caixas do Royal Mail com duas aberturas, uma para o correio local e outra para demais destinos. As caixas de coleta apresentam as insígnias do soberano reinante, desde a Rainha Victoria até a Rainha Elizabeth II, passando por Eduardo VII, George V, Eduardo VIII e George VI. Há uma portinhola na parte inferior com fechadura que o agente do correio abre para retirar as correspondências. Esta portinhola também varia de acordo com o modelo, podendo ser pequena ou abranger quase toda a estrutura vertical da caixa.
O corpo cilíndrico da caixa pode ser redondo, ovalado ou então hexagonal. A caixa de coleta hexagonal é considerada o primor da era victoriana. São graciosas caixas cujo cone protetor é ornamentado com folhas e frutos do acanto (Acanthus mollis), com um tipo de pinha na ponta do cone protetor. São conhecidas por caixas de correio Penfold, em homenagem ao arquiteto que as desenhou. Ainda existem cerca de uma centena delas em uso.
        As caixas do Royal Mail também foram instaladas nas colônias inglesas, conservadas até os dias de hoje em países agora independentes ou que fazem parte da Comunidade Britânica. Recentemente recebi a fotografia de uma caixa de coleta encontrada na Austrália, em Sidney. Tem-se notícias de caixas de correio com os formatos mencionados em Marrocos, Israel, Kuwait, Bahrein e Dubai, territórios que dispunham de agências postais britânicas. Na Irlanda independente, as caixas de coleta que lá permaneceram, foram pintadas de verde.
        Além das caixas cilíndricas, foram também instituídas caixas de coleta de parede, menores e mais baratas, que já surgiram em zonas rurais da Inglaterra por volta de 1857. Há também caixas de coleta presas a postes de luz ou suportadas sobre postes à semelhança das brasileiras.
Depois da Rainha Elizabeth II subir ao trono, as caixas de correio novas foram identificadas com sua insígnia: EIIR. Uma destas foi instalada em Edimburgo, capital da Escócia. Foi pichada e depois destruída por nacionalistas escoceses. Alegou-se que a Rainha Elizabeth I reinou antes do Tratado da União dos países (1707) e, portanto, a nova monarca só poderia ser a Rainha Elizabeth I da Escócia, e não Elizabeth II, pois a outra rainha foi somente dos ingleses. Por uns tempos, as caixas de correio na Escócia tinham como insígnia ER com a coroa inglesa sobre as letras. Depois da devolução dos símbolos escoceses (Pedra do Destino, coroa, cetro e espada) em 1996, após 700 anos nas mãos dos ingleses, todos os tipos de caixas de coleta são identificados apenas com a coroa escocesa, cuja imagem é ligeiramente diferente da coroa inglesa.
Na atualidade, muitas das caixas de coleta encontram-se em museus postais de várias cidades, todavia há caixas tradicionais e modernas espalhadas por todas as ilhas britânicas. Nas comemorações da Olimpíada de Londres em 2012, o Royal Mail e os serviços postais das ilhas de Man e Guernsey (correios independentes) pintaram caixas de coleta de dourado na cidade natal de cada membro da equipe britânica que tinha ganho uma medalha olímpica de ouro. Eram para ser pintadas novamente de vermelho ao final da Olimpíada, porém decidiu-se mantê-las na cor homenageada.
       O interesse por este símbolo dos britânicos é tão grande que, desde 1976, existe o Grupo de Estudos de Caixas de Coleta (Letter Box Study Group) que já conseguiu identificar cerca de 700 tipos diferentes dos três tipos de caixas de coleta, cilíndricos, de parede e de poste (letter boxes, pillar boxes, wall boxes e lamp boxes, respectivamente, para quem desejar pesquisar na Internet).
        Pessoalmente, só me despertei às caixas de coleta e sua flagrante elegância na paisagem britânica após notar o gradativo desaparecimento, em nome da modernidade, das tradicionais e tão características cabines telefônicas vermelhas quadriculadas. Espero que isso não aconteça com as caixas de correio.
Se os britânicos, tão tradicionalistas, não souberem manter as tradições, quem mais irá?


2013

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O HINO E A CULTURA

Não quero polemizar um assunto que vem se arrastando há anos. Reporto-me à intenção de alguns para a mudança da letra do Hino Nacional Brasileiro, pela inaptidão do povo em entendê-la. Alega-se que é por isso que poucos conseguem memorizá-la. A verdade é que o problema é muito mais amplo e se resume em apenas uma palavra: CULTURA ou, se preferir, FALTA DE CULTURA.

Tenho saudade do meu tempo de primário, ginásio e científico. Tivemos uma ótima formação básica, quando os colégios do estado eram exemplares. Cadê o Canto Orfeônico, Trabalhos Manuais, Desenho, Educação Moral e Cívica, Latim e Francês? Hoje nada disso se estuda mais. Pode-se imaginar um Curso de Medicina sem as ciências básicas? Biofísica, Bioquímica, Estatística, Histologia, Anatomia, etc. Seria o caos. Sim, e é o ponto a que se chegou na educação no nosso imenso país: um caos total, com as escolas sucateadas. Onde estão nossos políticos? Onde estão nossos educadores? Fiquei sabendo que está sendo planejada a retirada da Educação Física do currículo escolar e tem até político achando que se deve introduzir uma matéria nas escolas para estudar a atuação dos boinas azuis da ONU na defesa da Paz Mundial!...

Não posso aceitar o argumento de que os tempos são outros e que tudo mudou. Não discuto que o ensino brasileiro tem de acompanhar a modernidade. Sem dúvida houve uma enorme evolução com a era digital, o advento dos computadores e da Internet. No entanto, não se pode esquecer que uma base sólida é fundamental para a consolidação do desenvolvimento mental de nossas crianças. Houve, a bem da verdade, um retrocesso absurdo em nossa educação e, consequentemente, em nossa cultura. Uma simples pergunta: quantos jovens que saem hoje do ensino fundamental, são capazes de ver uma sentença escrita na língua francesa e identificá-la como sendo francês? A resposta é banal: quase nenhum. Imagine se fosse latim, então! Pergunte a algum deles o que é uma clave e se é capaz de identificar uma clave de sol ou de fá? Isto é o que falta hoje entre nós: CULTURA.

Sou defensor do nosso Hino Nacional, tanto pela música como pela letra. Conheço muitos hinos nacionais e nenhum se iguala ao nosso, nem a Marselhesa, que todos acham maravilhoso. Se tivesse de escolher um segundo lugar, seria o da Itália e, em terceiro, o de Portugal: “Heróis do mar, nobre povo valente, imortal (...)”. Concordo que há palavras arcaicas e de duplo significado, ou ainda de sentido figurado, mas qual é a poesia que não as tem? Seria a mesma coisa modificar Os Lusíadas, na forma que foi escrita por Camões.

Nosso Hino Nacional precisa ser ensinado nas escolas desde o primeiro grau. Lembro-me dos cadernos que usávamos, que continham as letras dos hinos pátrios. Aprendi a cantar todos eles, ainda no primário. Por que não os ensinam mais? O estudo e a interpretação das letras tornaria mais fácil sua memorização, além de estimular o desenvolvimento de uma nacionalidade que tanto falta em nós brasileiros, a brasilidade.

Não é o Hino Nacional que tem de ser adaptado à ignorância do nosso povo e sim, o povo necessita e merece ser educado. O Ministério de Educação e Cultura nada faz para melhorar o que mais seria a sua função: educação e cultura. Emaranha-se em assuntos e atividades burocráticas e nada faz em benefício do povo brasileiro. O exemplo maior, no caso específico de nossa profissão médica, é a abertura desenfreada de escolas médicas desnecessárias e sem condições Brasil afora, geralmente para satisfazer políticos ou amigos dos mesmos. Não quero me alongar neste aspecto, mas é verossímil dizer que sem cultura o país acaba na falência. Infelizmente, incrementar cultura e saúde são dois ponderáveis que aqui não dão retorno político, então não se investe nisso.

Poderia ainda continuar, citando exemplos de outros países, onde o próprio povo exige dos seus governantes a educação, cultura e saúde que merecem. Pagam-se impostos elevadíssimos, porém o retorno é compensador. Aqui, desgraçadamente...

Em 1993, por ocasião de uma sugestão de adulteração da letra do Hino Nacional Brasileiro, escrevi a seguinte poesia, que denominei

A P E L O

Brasileiros de nossa terra materna,

Deste país de mudança eterna.

Unam-se nesta hora com firmeza,

Pois o futuro se espelha na grandeza

Deste Hino Nacional

Formoso e tradicional.

Conseguimos conquistá-lo, foi por muita sorte.

Nem que para isso se use clava forte,

Não permitam que se dê sequência,

Batalhem até a última consequência

Para evitar alterações de nosso Hino Nacional,

Símbolo idolatrado em qualquer Festival.

Gigante pela sua própria natureza,

Acordes de Francisco Manoel da Silva, que beleza!

Incomparáveis versos imortais

Os escreveu Osório Duque Estrada, tempos atrás.

Salvem! Salvem! Patriotas mil

Defendam-no, em solo gentil,

Em cada fúlgido momento triunfante

Façam ouvir o brado retumbante

Do nosso querido Hino Nacional,

Esplendor deste impávido colossal,

Brasil!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

UM ÁS NA SUPERAÇÃO


Muitos foram os herois da Segunda Guerra Mundial. Relatos a respeito de atos de bravura, perseverança e de superação são frequentes, além das consequentes mutilações sofridas. Esta é a história de um desses herois. Seu nome era Sir Douglas Bader.

Já se interessara por aviação desde os 13 anos de idade e a encarava como um esporte por excelência. Estudava na Universidade de Cambridge quando, em 1928, prestou concurso para ingressar como cadete na Força Aérea Real (RAF), classificando-se em 5º lugar. Contra a vontade de sua mãe, largou a universidade para se tornar um piloto. Tinha então 18 anos de idade.

Com apenas 11 horas e 15 minutos de voo com instrutor, pôde voar solo pela primeira vez. Após dois anos de treinamento, recebeu seu primeiro posto como Oficial da RAF. Jogava hóquei e lutava boxe, mas também participava de corridas ilegais de automóvel e motocicleta, quase sendo expulso por não apresentar comportamento militar exemplar. Como se não bastasse isto, era um piloto ainda mais arrojado, fazendo acrobacias aéreas perigosas e proibidas. Não eram permitidas manobras acrobáticas abaixo de 2000 pés (700 metros), mas Douglas Bader achava que era uma regra exagerada. Foi até ameaçado de corte marcial se desobedecesse.

Bader foi convidado a participar do famoso Show Aéreo de Hendon, perto de Londres. Dois pilotos já haviam morrido lá durante acrobacias aéreas. Haviam sido alertados para não fazer nenhuma acrobacia abaixo de 2000 pés e permanecer acima de 500 pés o tempo todo. Em 14 de dezembro de 1931, Douglas Bader estava treinando num aeroclube, quando tentou fazer acrobacias a baixa altitude para se exibir. Sua aeronave se espatifou quando a ponta da asa esquerda bateu no chão. Foi imediatamente levado a um hospital e atendido por um proeminente cirurgião (J. Leonard Joyce - 1882–1939), que amputou suas duas pernas - uma acima e a outra abaixo do joelho.

Em 1932, após uma longa e dolorosa convalescença, recebeu duas próteses e lutou muito para voltar a andar sem uso de uma bengala, a dançar e a jogar golfe. Com o tempo, pôde guiar novamente um automóvel, especialmente adaptado para ele. Em meados daquele ano, ele conseguiu provar a todos que ainda tinha a capacidade de pilotar um aeroplano. Um exame médico comprovou que ele poderia voltar a voar, porém a RAF só lhe ofereceu trabalho em escritório. Deixou a RAF e foi trabalhar para a Cia. de Petróleo Asiático (a atual Shell).

Com o aumento das tensões europeias em 1937-1939, Bader não parou de perturbar o Ministério da Aeronáutica até obter uma autorização para passar por testes na Escola Central de Aviação. Apesar da relutância das autoridades em aceitá-lo, sua insistência logrou êxito. Participou de cursos de atualização e voltou a voar solo. É desnecessário dizer que não resistiu à tentação de praticar acrobacias a menos de 600 pés do chão!

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, participou de muitas incursões sobre a Europa ocupada. Abateu o primeiro avião inimigo sobre Dunquerque, quando defendia os combatentes na sua desastrosa retirada de volta às Ilhas Britânicas.

De Oficial foi promovido para Tenente e depois para Líder de Esquadrão. Mais tarde tornou-se Comandante. Acha-se que o sucesso de Douglas Bader como piloto de guerra se devia em parte ao fato de não ter os membros inferiores, uma vez que durante manobras aéreas de combate, a visão dos pilotos escurece pois, devido à força gravitacional, o sangue do cérebro se desloca para as partes inferiores do corpo, geralmente para as pernas. Como Bader não tinha pernas, ele conseguia se manter consciente por mais tempo que seus saudáveis inimigos.

Atribuem-se a ele 20 aeronaves inimigas derrubadas. Várias outras não foram confirmadas. Em março de 1941, tornou-se Comandante do Ar, patente equivalente a um tenente-coronel do Exército ou comandante naval da Marinha.

Em 9 de agosto de 1941, Douglas Bader foi abatido sobre a França ocupada pelos alemães. A fuselagem posterior, a cauda e o leme de seu avião estavam destruídos. Retirou sua máscara de oxigênio e seu capacete e tentou se atirar da cabine, mas teve dificuldades, porque uma das próteses tinha se enroscado em algum equipamento. Enfim, conseguiu quebrá-la e saltar.

As forças alemãs inicialmente trataram Bader com muito respeito. Entraram em contato com os ingleses e o próprio Comandante da Força Aérea Alemã, Hermann Goring, autorizou a “Operação Perna”, quando um bombardeiro inglês voou sobre a França ocupada e deixou cair de paraquedas uma perna artificial para o prisioneiro amputado.

Bader fez de tudo para infernizar a vida dos seus carcereiros e tentou escapar várias vezes. Foi ameaçado de ficar sem suas próteses caso tentasse nova fuga. Foi transferido para o Castelo de Colditz, na Saxônia, onde permaneceu até ser liberado pelo Exército Americano, em abril de 1945.

Douglas Bader foi sempre uma inspiração para deficientes físicos e, mesmo antes da Guerra, ele procurava estimular as pessoas na recuperação de suas mutilações. Depois da Guerra, dedicou uma boa parte de seu tempo trabalhando com deficientes, principalmente amputados, pelo resto de sua vida.

Continuou jogando golfe, demonstrando uma capacidade incrível, superando muitos golfistas profissionais, conseguindo uma tacada invejável de 200 jardas (mais de 180 metros). Andava com suas próteses de membros inferiores sem dificuldade.

Depois da Guerra, voltou a trabalhar para a Shell, tornando-se um alto executivo do grupo de aviação (Shell Aviation / Aeroshell) com 250.000 funcionários sob seu comando. Pôde então voltar a voar, agora pela empresa para a qual trabalhava. Também tornou-se internacionalmente conhecido, viajando o mundo como palestrante. Aposentou-se em 1969. Em 1976, recebeu o título de “Sir” pelos serviços prestados em benefício de amputados. Pilotou uma aeronave pela última vez, em 1979. Tinha problemas cardíacos e faleceu em 1982, aos 72 anos, vítima de um enfarto do miocárdio.

Uma biografia dele foi escrita em 1954 e filmado em 1956: Vontade Indomável (Reach For The Sky). Após sua morte, sua família e amigos formaram a Fundação Douglas Bader, uma organização que tem como objetivo cuidar do bem-estar físico, mental e espiritual de deficientes que não possuam um ou mais membros ou mesmo de outros deficientes físicos. O lema da Fundação é: “O deficiente que luta não é um deficiente, é uma pessoa inspirada”.

domingo, 3 de outubro de 2010

DEVANEIOS DA VIDA

Deve haver algum motivo para que estejamos aqui na Terra. Não é possível que seres racionais que somos — e, às vezes, irracionais também — apenas nasçam, cresçam e morram.

Há um enorme leque de indagações, afirmações e conjecturas sobre a vida, feitas por filósofos, sociólogos e outros pensadores, membros de nosso clã, o do Homo sapiens.

A futilidade de uma existência, as incertezas do amanhã e a tanatofobia induzem o ser humano à procura de uma explicação supersticiosa para sua presença neste mundo cruel e perverso onde, se o indivíduo for fraco ou frágil, será pisoteado como a um inseto rastejante.

A origem das religiões, sejam elas cognominadas pagãs, sejam elas monoteísta cristã, ou não, deve-se justamente a esta ansiedade de se tentar explicar o inexplicável, o ilógico. Mesmo porque, jamais alguém retornou da vida pós-morte, se é que ela existe, apesar das inúmeras afirmações mediúnicas a respeito.

É certeza inabalável que a vida é conturbada pela noção da morte. Sem ela, a vida não tem sentido. Por isso, em todos os caminhos da vida, observamos pessoas dedicadas e abnegadas para com o próximo, muito embora haja sempre forças contrárias para tornar a própria existência intolerável.

O que mais faz a vida sustentável, suportável e razoável, é a família.

Pode-se observar que, ao se estudar o comportamento no reino animal, há uma agressividade maior entre animais que vivem isolados e sozinhos, e não grupalmente. É verdade que há grupos que também são violentos, no entanto, em geral, agem assim com o intuito de se proteger.

É, também, assim, entre os humanos. O recurso da violência, quando em família é, igualmente, para defender a mesma quando se sente ameaçada.

O anseio de se formar uma família é inerente, e torna-se plenamente justificado, psicologicamente, diante do exposto, pois o conjunto é mais forte para defender-se das agruras externas e da própria morte, que sempre necessita ser adiada.

Aliás, o conceito de família pode perfeitamente se estender para organizações, cidades e países, formando-se, deste modo, meios de fortalecimento em sua própria defesa e, no frigir dos ovos, do combate à morte.

Em conclusão, a morte é inexorável. Não pode haver vida sem que haja o término de uma existência. A vida é curta. É única. Precisa ser vivida em toda sua plenitude, com motivação, com direção, e com a percepção de que se chegará ao fim, algum dia...

domingo, 8 de agosto de 2010

DOCES LEMBRANÇAS

Acho que a primeira recordação que tenho é de passear no parque de diversões com meus pais, parando para comer algodão doce. Ficávamos junto ao carrinho observando, através do vidro, o homem colocar açúcar cristal no centro do prato giratório. Em alta velocidade, parecia um redemoinho despejando o algodão doce nas laterais. Como criança, ficava perplexo com aquela magia. Saborear aquele doce era maravilhoso.


Mais tarde, à porta da escola, havia os ambulantes com seus carrinhos, vendendo pipoca e doces para a garotada. Eu gostava mesmo era da “machadinha”, um doce branco e rosa, muito duro, que o vendedor retirava de uma forma retangular, com uma miniatura de um machado e um martelo. Demorava para derreter na boca. Outro doce era o “quebra-queixo”, cortado com um facão, também contido numa forma, feito de coco queimado e caramelo. Este deixava os dedos pegajosos e quem tivesse obturações, que se cuidasse!


Os produtos da Kibon, então, eram deliciosos: as bananinhas amarelas ainda são insuperáveis. Nem se fala do Ki-coisa, um doce recheado de marshmellow e com cobertura achocolatada, e do Ki-bamba, recheado com um chantili espesso e também coberto de chocolate.


Havia um doce que adorava, quando íamos a uma padaria. Ficava a espreitá-lo pelo vidro em baixo do balcão: era o merengue, mas daqueles com dois suspiros bem grandes e bastante chantili. Era, talvez, meu doce predileto.


A bem da verdade, gostava de tudo que era doce. Lembro-me das balas da Söenksen, uma fábrica que não existe mais, com suas latinhas ovaladas, a vermelha escura com balas de cevada e a branca, com balas de limão. Gostava mesmo era das de cevada, cujo sabor sinto na boca ainda hoje, apesar de tantos anos decorridos.


Contam-me que nas escolas particulares que dispunham de lanchonetes, a procura por doces era muito grande. Um dos favoritos era o Dan-Top, com uma base fina de biscoito, recheio de chantili e cobertura de chocolate. Já comi várias vezes, porém nem se compara à sofisticada Nhá Benta da Kopenhagen.


Aliás, mencionada essa doceira, vem à mente as balas de goma de alcaçuz, que fabricavam até recentemente e as geléias de diversos sabores de frutas, que também não fazem mais e que minha mãe tanto apreciava. Eram de derreter na boca.


Acredito que cada um tem uma experiência para contar e dizer também qual fora ou é seu doce predileto. São, indubitavelmente, as doces lembranças da gente!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

QUEDA LIVRE

Nicholas Stephen Alkemade era um canhoneiro de um avião Lancaster da Força Aérea Britânica (RAF) durante a Segunda Guerra Mundial. Manejava canhões que se situavam na cauda do avião, num compartimento de fibra de vidro especial que, de tão apertado, não permitia espaço para seu paraquedas. Era um jovem sargento com 21 anos de idade.

Já havia participado de 12 missões sobre a Alemanha e, em 24 de março de 1944, fazia parte de um bombardeio sobre Berlim com um grupo de 300 aviões. Após despejarem suas bombas e se desvencilharem dos caças inimigos, estavam a caminho de casa. Entretanto, um caça Junkers solitário atacou o Lancaster que, em consequência, incendiou-se. Nicholas ainda teve tempo de atirar e acertar o caça que explodiu e desapareceu na escuridão do céu noturno. O piloto deu ordem para que todos abandonassem o avião.

Com dificuldade, Nicholas saiu de seu recinto de reduzidas dimensões para pegar o paraquedas. Ficou estarrecido ao descobrir que entre ele e seu instrumento de salvação havia intensas labaredas que já consumiam o tecido do paraquedas também. Disposto a não morrer queimado, optou por se atirar do avião condenado, preferindo sofrer uma morte mais rápida. Durante a queda, calculou que levaria 90 segundos para se estatelar ao solo, pois sabia que se encontrava a 5500 metros de altitude ao sair do aparelho em chamas.

O piloto, Jack Newman, e mais três dos sete tripulantes morreram. Eles estão enterrados no Cemitério Militar de Hanover, mas Nicholas não está lá. Ele desmaiou logo depois de se jogar da aeronave. Caiu sobre um conjunto de pinheiros que amorteceram a sua queda e, depois, numa espessa camada de neve. Acordou tremendo de frio. Não acreditava que tivesse sobrevivido à queda. Conseguia mexer os braços e pernas, mas sentia muita dor no joelho. Checou seu relógio e concluiu que quase três horas haviam se passado desde que o aparelho fora atingido.

Nicholas pensou consigo mesmo que aí estava um soldado que não iria se importar em se tornar um prisioneiro de guerra. Todo soldado inglês tinha no seu casaco um apito para usar em situações de emergência e desatou a apitá-lo com toda a força de seus pulmões. Não demorou para que ele fosse encontrado, pois os alemães estavam vasculhando a área à procura dos tripulantes do Lancaster que fora abatido.

Foi levado a um campo de prisioneiros em Frankfurt. Tinha sofrido uma séria contusão de joelho e várias escoriações e queimaduras pelo corpo. No mais, nenhum osso quebrado. Sentia-se um homem afortunado por estar vivo. O maior problema era que os alemães não acreditavam na sua versão do ocorrido e fizeram de tudo para forçá-lo a modificar sua história. Todavia, conseguiu convencer um dos oficiais da Gestapo para que examinasse os destroços do bombardeiro.

Relutantemente, foi autorizada a averiguação e encontrou-se o que sobrara de um paraquedas na fuselagem da cauda do avião. Os ganchos e cintos estavam intactos, provando que o paraquedas não tinha sido utilizado, pois estes se partem quando um paraquedas abre. Além disso, as fivelas coincidiam com as correspondentes presas à roupa do canhoneiro.

Com essa comprovação, Nicholas foi considerado um herói e assim tratado na prisão até sua repatriação em maio de 1945. Os alemães ficaram tão impressionados com a coragem deste homem que registraram seu ato de bravura em um livro e expediram um certificado confirmando os fatos.

Depois da guerra, Nicholas Alkemade ainda sofreu três acidentes graves na indústria química onde trabalhou, sobrevivendo a todos. Faleceu em 22 de junho de 1987, aos 64 anos de idade.

domingo, 5 de abril de 2009

VARÍOLA !



QUEM NÃO SE LEMBRA DA OBRIGATORIEDADE DE ESTAR COM A VACINAÇÃO ANTIVARIÓLICA em dia para se matricular na escola? Isso era um fato comum até apenas três décadas atrás, quando enfim a Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou que essa grave doença estava erradicada.

Nenhuma outra doença afetou tanto a Humanidade, nem mesmo a peste bubônica, a tuberculose, a cólera ou a febre amarela. Derrubou vários impérios e o Homem viu seus filhos sucumbirem, ficarem desfigurados e cegos pela moléstia.

Há mais de 200 anos, Edward Jenner fez uma importante observação que serviu de fundamento para acabar com esse flagelo. As ordenhadeiras que contraíam varíola bovina pelo contato com úberes de vacas contaram a Jenner que ficaram protegidas da forma humana de varíola. Ele ouviu a voz do povo e comprovou o fato cientificamente. Não havia descoberto a vacinação, que já existia, mas sua técnica oferecia uma defesa confiável contra a doença.

Acredita-se que a varíola surgiu há mais de 10.000 anos em aglomerações agrícolas na África, espalhando-se para a Índia carregada por mercadores egípcios no último milênio antes de Cristo. Há evidências de alterações variólicas nas faces de muitas múmias, em especial na de Ramsés V, que morreu ainda jovem, em 1157 a.C.

A primeira epidemia de que se tem notícia ocorreu em 1350 a.C., na guerra entre egípcios e hititas. Numa epidemia em Atenas, em 430 a.C., observou-se que os sobreviventes da doença tornavam-se imunes a ela. Al-Razi (Abu Bakr Muhammad Ibn Zakariya al-Razi) fez a primeira descrição médica da varíola, em 910 d.C., intitulada De variolis et morbillis commentarius. Relatou que a transmissão se fazia de pessoa a pessoa e sua explicação do porquê as pessoas não desenvolvem a doença uma segunda vez foi a primeira teoria sobre imunidade adquirida.

Houve uma grande epidemia em Roma por volta de 180 d.C., matando entre 3,5 a 7 milhões de indivíduos; eram os primeiros anos do declínio do Império Romano. A disseminação da doença se deu com o avanço dos árabes, as Cruzadas e a descoberta do Novo Mundo. Foi a causa da queda dos impérios Asteca e Inca. Quando os espanhóis chegaram ao México, havia uma população de 25 milhões. Em 100 anos, havia menos de 2 milhões!

O Brasil foi o último país das Américas a eliminar a varíola. Em 1971, foram notificados 19 casos da doença, e apenas um caso em 1972. A partir daquela data, foi considerada erradicada nas Américas. Não se tem notícia de um único caso desde 1977, quando foi constatado o último na Somália (África). A varíola foi declarada erradicada do Mundo, pela OMS, em 1980.

A varíola foi a principal causa de morte nas aglomerações brasileiras, fossem elas vilas, vilarejos ou cidades. Na disseminação pelo interior, contaminou e matou muitos índios e escravos, além da população branca em geral. O mais antigo surto de varíola na cidade de São Paulo data dos primeiros anos da sua fundação. Uma terrível epidemia assolou São Paulo em dezembro de 1873, causando muitas mortes. Em consequência, foram construídos pavilhões de isolamento para varíola, na “antiga estrada do Araçá”, inaugurados em 1880, conhecido como o Hospital dos Variolosos. Em 1932 virou o Hospital de Isolamento Emílio Ribas, o atual Instituto de Infectologia Emílio Ribas, na Avenida Dr. Arnaldo.

Os últimos estoques do vírus da varíola encontram-se abrigados em dois laboratórios de referência da OMS: o Centro de Controle e Prevenção de Doenças em Atlanta (Estados Unidos) e no Centro Estatal de Pesquisas de Virologia e Biotecnologia em Koltsovo (Rússia).

Desde sua erradicação, a Organização Mundial da Saúde, por meio das Assembléias Mundiais de Saúde, vem discutindo a possibilidade de destruição desses estoques do vírus. Até 2007, não se havia chegado a um consenso sobre isso. Há, inclusive, grupos que são formalmente contra a destruição do vírus variólico, pela simples razão de que é um ser vivo que sobreviveu desde os tempos mais remotos e não deve ser liquidado da face da Terra. Outros grupos alegam que os vírus remanescentes devem permanecer para futuras pesquisas médicas, principalmente no combate a outras doenças, como a AIDS, através de estudos de modificações genéticas.

Recentemente, tomou-se conhecimento de que o Laboratório Nacional Sandia, pertencente ao Departamento de Energia dos Estados Unidos, está fazendo experiências com genes da varíola, introduzindo-os em outros organismos para produzir proteínas codificadas, com finalidades não reveladas. O governo não fornece nenhuma informação a respeito, mas sabe-se que a missão da Sandia é focalizada no planejamento e teste de Armas de Destruição em Massa para as Forças Armadas dos Estados Unidos. O DNA da varíola não se originou dos estoques controlados pela OMS, mas de empresas especializadas em engenharia genética.

Nas discussões sobre varíola, nas Assembléias Mundiais de Saúde, sempre há grandes divergências, e os Estados Unidos são inflexíveis em relação à destruição dos vírus variólicos. A OMS, por falta de provas, considera infundadas as alegações americanas de que há outros países que possuem o vírus. No entanto, os americanos afirmam que um cientista russo que passou para o lado deles confirmou que a Rússia desenvolve a varíola como uma arma biológica desde a década de 1980. Relatam, também, que a França mantém estoques com finalidade defensiva, em caso de um surto da doença. Inspetores das Nações Unidas observaram que prisioneiros iraquianos da Guerra do Golfo (1982) estavam imunizados contra a varíola, evidência de que o Iraque tinha o vírus à disposição. Os serviços de inteligência dos Estados Unidos e os russos mantêm que os norte-coreanos têm estoques para fins militares, embora estes sejam de qualidade mediana.

Enfim, são mais de 30 anos que não se tem notícia de um único caso de varíola natural em seres humanos. Todavia, relatam-se vários outros tipos de varíola, em macacos e outros animais.

Fica a dúvida se deve-se manter o vírus vivo em benefício da Humanidade ou destruí-lo para se evitar uma guerra biológica que poderia trazer uma desgraça incomensurável, provavelmente dizimando nações, que estão indefesas contra esse flagelo que se perpetuou durante milênios e há tão pouco pôde ser eliminado.

domingo, 29 de março de 2009

TRAGÉDIA NO MAR



NUNCA HAVIA OUVIDO FALAR DO ARANDORA STAR. Durante muitos anos fora tabu entre os britânicos comentar a seu respeito, principalmente pelos ítalo-escoceses, descendentes dos imigrantes que sucumbiram na tragédia que irei relatar.

Era plena Segunda Guerra Mundial. Nos anos que precederam a Guerra, havia muitos italianos nas Ilhas Britânicas, com uma importante concentração na Escócia. Essas famílias moravam ali desde o começo do século XX. Eram vendedores de sorvete ou tinham lanchonetes onde se vendia peixe e batata frita, uma iguaria que vem até nossos dias, conhecido como fish and chips. Muitos deles tinham filhos e outros parentes servindo nas Forças Armadas Britânicas.

Havia pouco que a Itália entrara no conflito. O primeiro-ministro Winston Churchill considerou que os imigrantes italianos ofereciam perigo à população britânica e achou necessário seu encarceramento. No começo de junho de 1940, todos os homens italianos não fardados, entre 18 e 70 anos de idade, foram presos pela polícia ou pelos militares, levados de suas casas ou de seu trabalho. Relatórios da Cruz Vermelha comprovam que foram maltratados pelas autoridades e mantidos em campos de internamento, em condições desumanas, sem alimentação apropriada, facilidades sanitárias ou assistência médica.

Os detentos não tinham quaisquer direitos e lhes foram negados até mesmo aqueles básicos permitidos a prisioneiros pela Convenção de Genebra. Tiveram seus pertences roubados. Os parentes não foram informados do que acontecera a seus maridos, irmãos ou pais. Quando foram mandados para o além-mar, ninguém foi notificado. As famílias deles que residiam em áreas costeiras, foram obrigadas a mudar para cidades do interior, sem nenhum apoio governamental. Eram mulheres e crianças sem casa e sem qualquer assistência.

Decidiu-se mandar um grupo de cativos para o Canadá e a Austrália a bordo de um navio de nome Arandora Star. Este saiu de Liverpool levando 1570 italianos, alemães e judeus. A embarcação fora pintada de cinza, parecendo um navio de transporte de tropas. Não levava nenhuma cruz vermelha ou qualquer outro meio de identificação e não tinha nenhum comboio de suporte. O número de barcos salva-vidas era suficiente para atender a apenas 500 passageiros e havia uma superlotação a bordo. Oitenta por cento da tripulação fora engajada na manhã do embarque e não houve nenhum treinamento para emergências nem para a tripulação, nem para soldados ou prisioneiros.

Na manhã de 2 de julho de 1940, próximo à costa da Irlanda, o Arandora Star foi torpedeado pelos alemães e afundou, com a perda de quase 700 vidas, das quais 446 eram de imigrantes italianos que haviam feito do Reino Unido sua residência permanente. Muitos dos italianos dormiam no chão do salão de bailes do navio quando o torpedo atingiu a embarcação e foram gravemente feridos por estilhaços dos grandes espelhos lá existentes.

Os sobreviventes do Arandora Star foram mais uma vez maltratados pelos britânicos quando chegaram a terra firme e, apesar de tudo pelo qual tinham passado, foram colocados em outros navios e transportados para campos de internamento na Austrália.

O governo britânico jamais se desculpou pelo ocorrido às vítimas do Arandora Star. O governo americano, que teve vários campos para japoneses durante a Guerra, mais tarde pediu desculpas e providenciou compensação para eles e suas famílias. Entretanto, esses detidos não chegaram a sofrer as mesmas atrocidades dos italianos.

Anualmente são celebradas missas na Itália e nas comunidades italianas do Reino Unido, em memória dos que pereceram, para que nunca se esqueça os sofrimentos pelos quais as vítimas passaram.

Recentemente, o primeiro-ministro escocês e um arcebispo de origem italiana anunciaram que um memorial será erguido em Glasgow, próximo à Catedral de St. Andrews, para lembrar essa “tragédia esquecida” e consideraram-no um “símbolo adequado” da amizade existente entre a Escócia e a Itália. Contudo, muitos não concordam com isso: gostariam de ouvir desculpas oficiais do governo britânico e ver as famílias compensadas pela perda de seus entes queridos.