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domingo, 21 de dezembro de 2008

"Nas Coxas"


TELHAS DE BARRO PARA COBERTURA DE EDIFICAÇÕES existem desde os tempos mais remotos. Foram encontradas na China do período neolítico, datando de mais ou menos 10.000 a.C. e, no Oriente Médio, pouco tempo depois. O seu uso se espalhou pela Ásia e Europa em larga escala. Tanto os gregos como os romanos as usavam, o que foi facilitado após o invento da argamassa por esses últimos, quando puderam ser cimentadas sobre muros e beirais também.

Com a descoberta da América, a tecnologia da fabricação de telhas foi trazida para o novo continente. No século XVII, seu uso tornou-se quase obrigatório nas grandes cidades, por oferecer baixo risco de incêndios, fato fundamentado nas devastadoras conflagrações de Londres, em 1666, e de Boston, em 1679.

Telhas de barro eram, também, preferidas pela sua durabilidade, fácil manutenção e falta de condutibilidade térmica. Nos Estados Unidos, houve um declínio na sua fabricação, em meados do século XIX, pelo surgimento de outros materiais de custo mais barato e, às vezes, mais leves. Foi o caso do cobre, lata, ferro, ferro galvanizado e zinco. Popularizou-se, também, o uso de telhas feitas com placas de ardósia. Entretanto, com o aperfeiçoamento de sua fabricação e automação industrial, o produto passou a custar menos, coincidindo com o furor da construção, na América do Norte, de vilas em estilo italiano, onde se utilizavam telhas de barro, voltando a se tornar populares no começo do século XX.

No Brasil Colonial, os escravos eram encarregados da fabricação das telhas. Geralmente, por ser um trabalho menos pesado, ficava a cargo das escravas e dos escravos idosos e/ou doentes. A técnica adotada era a de moldar a argila na face anterior de suas coxas, produzindo o formato necessário das, assim ditas, telhas coloniais. Obviamente, elas não ficavam uniformes, pois havia coxas magras, roliças, finas, largas, longas, curtas e deformadas. Por isso, as telhas já secas e queimadas eram de diversos tamanhos com diâmetro e espessura variados. Conseqüentemente, depois de prontos, os telhados eram irregulares e desalinhados, levando a um aspecto de terem sido mal feitos. Estes eram descritos como telhados “feitos nas coxas”.

Daí, vem aos dias de hoje a expressão idiomática, denotando algo feito sem capricho ou, ainda, uma atitude de descaso.

Atualmente, com moldes padronizados e a industrialização, as telhas coloniais ficam todas iguais, resultando em coberturas bonitas e uniformes, não podendo alegar que foram “feitas nas coxas”, mas, há de se convir, os telhados, verdadeiramente coloniais, ofereciam um charme todo especial àquelas casas de outrora.

domingo, 30 de novembro de 2008

AVICENA

Abu Ali al’Husayn ibn Abdallah ibn Sina, abreviado para Ibn Sina, cuja versão ocidental correspondente é Avicena, nasceu no ano de 980, em Afshana (perto de Bukhara), na Ásia Central (hoje Usbequistão) e faleceu em junho de 1037, em Hamadan, na Pérsia (atualmente Irã).

Foi o filósofo-cientista mais influente do Islã. Foi educado pelo pai, cuja casa servia de ponto de encontro para os homens letrados da época. Era entre estes que o jovem Avicena circulava, tornando-se proficiente em todas as ciências e artes. Adquiriu, com o passar do tempo, grande reputação na prática e ensino da Medicina e como administrador.

Aos dez anos de idade, Avicena já era bem versado no estudo do Alcorão. Começou a estudar Filosofia, lendo várias obras gregas e islâmicas. Aprendeu Lógica e outros assuntos pertinentes com Abu Abdallah Natili, famoso filósofo daqueles tempos.

Aos dezessete anos, quando todos os outros médicos tinham desistido, pôde curar o rei de Bukhara de uma doença. Como recompensa, apenas pediu permissão para freqüentar a exclusiva Biblioteca Real dos Samânidas, onde aprimorou ainda mais seus conhecimentos.

Depois da morte do pai e a conquista dos samânidas pelos turcos, deixou Bukhara e perambulou pela Pérsia até se estabelecer em Hamadan, onde tratou o rei local, Shams al-Daulah, de uma grave cólica. Tornou-se o médico da corte, ocasião no qual começou a escrever Al-Qanun fi al-Tibb, O Cânon de Medicina, uma imensa enciclopédia médica, com mais de um milhão de palavras. O livro avalia todo o conhecimento médico disponível de fontes antigas e islâmicas. Além de classificar estes conhecimentos, o livro é rico com as próprias contribuições de Avicena. Por exemplo, o reconhecimento da natureza contagiosa de doenças como a tuberculose, a disseminação de doenças pela água e pelo solo, e a interação entre psicologia e saúde. O livro trata de 760 fármacos, descrevendo suas propriedades, qualidades, virtudes e modos de conservação. Ibn Sina foi o primeiro a narrar a meningite e fez grandes contribuições para anatomia, ginecologia e saúde infantil. O Cânon permaneceu como importante fonte de referência durante seis séculos, tendo sido traduzido para o latim por Gerardo de Cremona. Está entre os mais famosos livros da história da medicina.

Sua enciclopédia Kitab al-Shifa, O Livro da Cura, é um trabalho monumental, abrangendo vasto espectro de conhecimentos. Avicena classificou todos os assuntos da seguinte forma: conhecimento teórico — física, matemática e metafísica; e conhecimento prático — ética, economia e política. Sua filosofia sintetizava a tradição aristotélica, influências neoplatônicas e teologia islâmica.

Entre suas façanhas, observou Vênus como um ponto contra a superfície do Sol e deduziu corretamente que Vênus era mais próximo da Terra que o Astro-rei. Ao se referir que a percepção da luz é devida à emissão de algum tipo de partículas, chegou à conclusão, embora não se saiba como, que a velocidade da luz é finita.

Escreveu mais de 250 obras, dentre elas um tratado de minerais, que foi utilizado como principal referência sobre geologia para os enciclopedistas cristãos do século XIII.

Participou de campanhas militares e muito de sua obra foi escrita durante as mesmas. Numa destas, ficou muito doente e, apesar de tentar aplicar em si seus conhecimentos de medicina, não teve sucesso e morreu.

domingo, 23 de novembro de 2008

TRINDADE (livro de Leon Uris)


Quando um Parlamento decide que nenhum católico pode possuir terras, nem votar, exercer cargos públicos, ser funcionário estatal, portar armas, ter bens superiores a cinco libras, ser educado no estrangeiro, ou exercer profissões liberais, entre outras restrições, é possível começar a entender uma parte da revolta dos católicos que viviam na Irlanda nos séculos XVIII e XIX. Esse código penal foi revogado mais tarde, mas as seqüelas permanecem gravadas no subconsciente dos irlandeses até os dias de hoje.

Este romance, do mesmo autor de Exodus, confunde-se com a própria história da Irlanda. Apesar do livro ter sido escrito há mais de vinte e cinco anos é, com certeza, muito atual. Leon Uris escolheu, para iniciar a narrativa, os meados do século XIX, quando a Grande Fome assolou o país, principalmente Ulster (condados do norte da Irlanda), devido à podridão das batatas, monocultura de sobrevivência para os irlandeses católicos. Deus abandonou a Irlanda em 1846. A praga atacou em anos seguintes também. Mais de um milhão de irlandeses morreram. Os ingleses fizeram de tudo para dificultar ainda mais a vida dos irlandeses católicos, no intuito de proteger seus próprios interesses na Irlanda. Houve muita crueldade, além de pouco caso por parte da comunidade britânica. Os católicos que puderam, juntaram suas parcas economias e emigraram para outros países, geralmente de língua inglesa (a própria Inglaterra, assim como Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia e Austrália).

Descreve-se o conflito e a luta da Irlanda para conquistar sua independência. É a história de católicos menosprezados e de magnatas protegidos pela Coroa Britânica. Um jovem católico rebelde, uma garota protestante corajosa e um aristocrata anglicano arrogante são alguns dos personagens entremeados nesse romance histórico. A nítida diferença entre a classe trabalhadora católica de baixa renda e os abastados da oligarquia dominante é uma preocupação constante do autor.

O livro termina com o Levante na segunda-feira após a Páscoa de 1916, quando foi criada uma declaração de independência. Os líderes da revolta foram condenados à morte por um tribunal secreto e fuzilados. Com aquelas execuções, o povo irlandês sentiu-se mais ultrajado do que nunca, e o levante converteu-se na derrota mais gloriosa da Irlanda.

Cinco anos mais tarde, em dezembro de 1921, com a exceção dos condados de Ulster, onde há predomínio de protestantes anglicanos e presbiterianos, os irlandeses obtiveram sua independência, formando a República da Irlanda (Eire), cuja capital é Dublin. Ulster, ou seja, Irlanda do Norte, permanece nas mãos dos britânicos até hoje, e cuja capital é Belfast.

Qualquer leitor, quando findar o livro, não será mais o mesmo. Além de vislumbrar com maior clareza a causa irlandesa, compreenderá por que mesmo hoje os britânicos não conseguem controlar a minoria católica irlandesa da Irlanda do Norte, a qual reivindica sua independência.

Nas palavras de Leon Uris: “A república acabou surgindo, mas as mágoas e os problemas nunca abandonaram aquela terra trágica e maravilhosa. Pois, veja você, na Irlanda não há futuro, apenas o passado ocorrendo indefinidamente.”

domingo, 9 de novembro de 2008

REMEMBRANCE SUNDAY


HOJE É O DOMINGO MAIS PRÓXIMO DE 11 DE NOVEMBRO.

NAQUELA DATA, EM 1918, TERMINAVA A PRIMEIRA GRANDE GUERRA.

SÃO 90 ANOS DESDE AQUELE CONFLITO QUE MUITO MARCOU O SÉCULO XX.

(vide o ensaio "Dia da Papoula")

domingo, 10 de agosto de 2008

IN MEMORIAN


ESTÁ ÓBVIO QUE A GRAFIA DO TÍTULO ACIMA É UM ERRO CRASSO pois, em latim, “em memória de...” é IN MEMORIAM, com “M” no final.

Foi uma lástima que o latim deixasse de ser ensinado no curso secundário, base para tantos idiomas, inclusive o inglês, responsável por aproximadamente 70% daquela língua, face à permanência dos romanos na Inglaterra por 400 anos, no início da Era Cristã.

Lembro-me bem da morte do Papa João XXIII. Naquela ocasião, o Brasil lançou um selo postal em sua homenagem, com os dizeres “In Memorian”, com “N” no final. O selo foi recolhido quando se descobriu o erro, porém foi liberado a seguir, para não fazer com que os poucos selos vendidos se tornassem valiosas peças raras de filatelistas.

Em convites de casamento, então, é muito freqüente essa grafia errada, ao se referirem a um dos genitores dos noivos, já falecido.

Essa problemática nos leva a outra, de tal semelhança, que é justamente a tentativa de se escrever em outra língua, quando não a conhece suficientemente bem, induzindo a erros. Os exemplos mais evidentes são do mau uso de palavras inglesas no comércio. Visitantes estrangeiros não conseguem nem entender o seu significado, empregado naquele sentido, embora sabe-se de exemplos escritos propositalmente assim, para chamar a atenção, como é o caso de ‘Ocean Pacific’, quando deveria ser ‘Pacific Ocean’.

Muito mais sério que isso, é a divulgação internacional de revistas científicas brasileiras, em que firmas são contratadas para traduzir os trabalhos e apresentá-los numa coluna ao lado do texto em português. Para os incautos, aceita-se de olhos fechados a tradução feita. Enfim, fora feita por profissionais. Os erros são tantos que foi motivo de um protesto de minha parte a uma determinada revista médica que o encaminhou ao tradutor, um médico, que me mandou um E-mail grosseiro, referindo que residira no exterior e freqüentara importantes universidades, para justificar sua capacidade de tradutor. Respondi, dizendo-lhe que sua agressividade era descabida, haja vista que minha queixa fora dirigida ao editor da revista, sem saber que era um colega de profissão que estava fazendo aquela tarefa que, sem dúvida, era bastante árdua.

Essa questão não ocorre apenas no Brasil. Vem-me à mente os manuais de instruções de equipamentos eletrônicos oriundos dos países asiáticos, cujo inglês é pecaminoso, chegando-se a ponto de não se entender o que se diz com a instrução dada.

Outro exemplo, voltando a falar do serviço postal, é dos editoriais emitidos pelos Correios a cada novo selo lançado. Houve uma época que eram trilíngües (português, inglês e francês). Pelo menos, o inglês era uma vergonha. Atualmente, alguém tem feito boas traduções para esses editais.

Precisa haver uma conscientização geral de que, no que tange a linguagem escrita, o domínio do idioma é imprescindível, fundamentalmente a oficial, ou quando o público-alvo seja um profundo conhecedor da língua. Obviamente, não é o caso da língua falada, onde admitem-se erros mais aparentes e que são perdoados. Como diz o ditado: “palavras ao vento...”.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A AZALÉIA



Durante o outono, observamos a queda da folhagem das árvores e as plantas começam a se desnudar, no preparo para o inverno. Diferentemente do hemisfério norte, poucas são as folhas que ficam coloridas, ornamentando a paisagem.

Quando chegam os meses de inverno, em especial julho e agosto, algumas espécies apresentam sua florada invernal, geralmente de flores menores, como é o caso das quaresmeiras e primaveras. Contudo, prevalecem em todo seu esplendor, as azaléias.

São Paulo é conhecida como a cidade das azaléias, tal a maravilhosa variedade de suas flores, que embelezam os jardins e parques da metrópole. As flores variam de vermelhas a brancas, podendo apresentar tons de roxo e róseo, simples ou dobradas. Minha cor predileta é uma cor-de-rosa listrada com branco que me lembra fatias de presunto. É também conhecida por azaléa ou azálea. Seu nome científico é Rhododendron indicum, pertencente à família das ericáceas. Sua origem é chinesa. Existem muitas espécies no Tibete e Nepal.

Durante o resto do ano, a azaléia se mantém como um arbusto um tanto insignificante e é utilizada como cerca viva. Aceita podas após a floração, tomando o formato desejado pelo jardineiro. A bem da verdade, só chama a atenção quando se arrebenta em flores, mais intensas em meados de agosto. A um quarteirão de casa, há alguns anos, fotografei um jardim por entre as grades. Quem plantou as azaléias teve muito bom gosto, misturando as diversas cores.

No hemisfério norte, nas zonas temperadas, há outras variedades de azaléias, conhecidas por rododendros. Também vindos da China, em geral são arbustos de grandes proporções e as flores se dão em cachos, o que não ocorre com as espécies daqui. As cores são exuberantes, desde o branco a diversos tons de vermelho e com variedades amarelas e alaranjadas.

Curiosamente, os rododendros contêm uma toxina chamada graianotoxina, existente no pólen e no néctar. Devido a isso, o mel produzido a partir dessas plantas é venenoso. O resto da planta também é venenoso, especialmente as folhas.

Quando no Reino Unido, visitamos Inverewe Garden, uma enorme área paisagística de plantas exóticas que se localiza no extremo noroeste da Escócia e é uma região bastante inóspita. Existe desde o fim do século XIX, graças à idealização de Sir
Osgood Mackenzie que a transformou em local fértil. Há muitos rododendros de formas e cores diferentes. Mesmo nas cidades, essas flores se tornam favoritas para agraciar os jardins.

São Paulo está abençoada pelas azaléias. Não há quem não as aprecia e admira sua corajosa proliferação nos meses mais frios do ano. É uma dádiva da Natureza, que nos faz esquecer um pouco as agruras do inverno.

domingo, 15 de junho de 2008

QUEM ANDA DO LADO ERRADO?

Antigamente, a lógica mandava que as pessoas circulassem pelas estradas e nas ruas da melhor posição possível para poderem usar uma espada para se proteger. Como a maioria é destra, tinha de se manter à esquerda, para não ter de encarar um eventual ataque por cima da cabeça de seu cavalo. Por volta de 1300, esta prática foi oficializada através de uma bula papal, pelo Papa Bonifácio VIII, que recomendava a todos os peregrinos para que andassem à esquerda.
Nada mudou até 1773, quando o aumento de trânsito à cavalo fez com que o governo britânico exigisse que se circulasse do lado esquerdo das vias, e isto virou lei em 1835.
Está menos claro porque muitos adotaram o lado contrário para circular. A versão mais aceita é de que os franceses, como católicos, seguiram a bula papal. Durante o período que antecedeu a Revolução Francesa, a aristocracia guiava suas carruagens em alta velocidade pelo lado esquerdo das ruas, forçando a plebe a pular para o lado direito, para maior segurança. Com a Revolução, os instintos de auto-preservação levaram o que sobrou da aristocracia a se juntar à plebe do lado direito das ruas. O primeiro registro oficial de se manter a circulação do lado direito das vias públicas é de 1794, na cidade de Paris.
A expansão colonialista da Grã-Bretanha espalhou pelo mundo o conceito de se manter o lado esquerdo. Isto incluiu a Índia, Australásia e grande parte da África (embora muito países africanos mudaram para o lado direito depois da sua independência).
A França também manteve muitas colônias após as guerras revolucionárias e conservou as regras de se circular pelo lado direito na maior parte da Europa, estendendo-se a colônias como o Egito. Parece que em relação aos Estados Unidos, foi o General Lafayette que recomendou que se adotasse o lado direito como parte do apoio dado aos americanos durante a preparação para a Guerra da Independência. A primeira lei americana estabelecendo a obrigatoriedade de se ficar à direita data de 1792, em relação a uma estrada entre Lancaster e Philadelphia.
Na época da Rainha Vitória, o Japão foi obrigado a abrir seus portos para os britânicos, por motivos diplomáticos, e os japoneses foram convencidos a adotarem a circulação pelo lado esquerdo, o que permanece até hoje.
Os primeiros automóveis seguiram o princípio das carruagens a tração animal, com o chofer sentado no centro. Quando os proprietários dos carros descobriram como era interessante dirigir, quiseram que as pessoas se sentassem a seu lado enquanto guiavam, e o volante foi definitivamente colocado em um dos lados do painel.
O lado onde ficava o volante seguiu a tradição de cada país e, portanto, os primeiros carros (Benz na Alemanha), o tinham do lado esquerdo, pois se circulava pela direita. A principal exceção foi dos carros de corrida, cujos volantes eram construídos do lado direito, que ficava melhor para corridas em círculo. Por isso, na Europa, quase todos os carros esportivos italianos antes de 1950 tinham o volante do lado direito. Todos os Bugatti também o têm do lado direito.
Apesar da insistência de outros países europeus, é bem provável que a Grã-Bretanha e outros países que circulam do lado esquerdo nunca adotem uma mudança para o lado direito. É economicamente inviável, pelo número elevado de veículos existentes com volante à direita e, também, porque o Japão, o maior produtor de automóveis do mundo, que precisa produzir veículos para seu próprio mercado e para exportação, já alegou que jamais mudará de lado, assim garantindo suprimento para o mundo inteiro.
Desde as primeiras locomotivas, nos primórdios do século XIX, os trens circulavam nas ferrovias pelo lado esquerdo. Isto acontece até hoje, inclusive aqui no Brasil. No entanto, o trânsito por via fluvial se faz pela direita, mesmo na Inglaterra. Não há uma explicação plausível para isto, mas a teoria favorita é de que se nos barcos impulsionados por vara (como as gôndolas) ou a um remo só, o remador destro fica à esquerda, o timoneiro tem de ficar do lado direito, e quando a embarcação chega à margem, a tendência é descer por aquele lado.

sábado, 3 de maio de 2008

GUARDA-CHUVAS

Os guarda-chuvas foram inventados na Mesopotâmia, há cerca de 3400 anos atrás, como símbolos de status e de distinção. Tanto lá, como nos antigos Egito, China e Índia, eram utilizados para produzir sombra, protegendo pessoas importantes do sol, e não para resguardá-las da chuva. Muitas vezes, eram grandes e manipulados por escravos.

O Dicionário Aurélio dá como sinonímia “guarda-sol, chapéu-de-chuva, chapéu-de-sol, chapéu, pára-sol, pára-chuva, sombrinha, umbrela, umbela, barraca e, quando preto e de homem, parteira”. Em inglês, tem-se “umbrella” e em italiano “umbella”, termos que derivam do latim “umbra”, que significa “sombra”.

Na cultura chinesa, os guarda-chuvas significavam riqueza e realeza, porque apenas os ricos podiam possuir um item tão bonito e decorativo. Geralmente, eram feitos de papel especial. Os melhores ainda procedem das províncias chinesas de Fujian e Hunan. Num casamento chinês tradicional, o guarda-chuva protege a noiva dos maus espíritos ao deixar sua casa para aguardar o noivo. Abri-lo, durante a cerimônia, representa a fertilidade da noiva e a prosperidade do casal. Muitas vezes é de cor vermelha, um símbolo asiático tradicional da sorte.

Entre os gregos e romanos, os guarda-chuvas eram usados apenas pelo sexo feminino. Em eventos públicos, foram quase banidos, pois obstruíam a visão das pessoas. Foi necessária a intervenção do Imperador Domiciano, a favor das mulheres, para que pudessem continuar a existir. Parece que os romanos foram os primeiros a se proteger da chuva com essa peça. Os antigos gregos ajudaram a introduzir guarda-chuvas na Europa para proteção do sol. Tornou-se modismo entre as mulheres francesas, sendo oficialmente catalogado por volta de 1650.

No século XVIII, um inglês, de nome Jonas Hanway, usou guarda-chuvas a vida toda, fizesse sol ou chuva. Foi humilhado e ridicularizado em público, por este motivo. Após 30 anos de insistência, os homens começaram a reconhecer sua utilidade, e os carregam até os dias de hoje. Por muito tempo, guarda-chuvas, no Reino Unido, eram conhecidos por Hanways.

Poderia se indagar por que são freqüentemente pretos. É certo que não é pelos céus escuros de tempos chuvosos. Origina-se na forma como eram fabricados no século XVIII. O tecido do qual eram feitos precisava ser à prova d’água. Isso se obtinha embebendo-o num tipo de óleo que deixava o tecido bem escuro. Tradicionalmente, a cor preta tornou-se o mais comum.

Hoje, encontram-se guarda-chuvas de todos os tipos e com as mais diversas cores. Há sombrinhas feitas de bambu, umbelas de plástico transparente, guarda-sóis enormes de praia, aqueles automáticos que, às vezes, tornam-se verdadeiras armas nas mãos dos incautos, entre tantos outros diferentes.

Não se pode olvidar da conhecida superstição de que dá azar abrir guarda-chuva dentro de casa. Pode levar a infortúnios e problemas de saúde dos familiares, além de atrair mais chuva.

É um objeto fácil de esquecer em qualquer lugar. Lembro-me de certa vez em que portava um guarda-chuva tradicional e tomei um ônibus. Este estava lotado, e tive de viajar em pé. Pendurei-o no cano metálico horizontal à minha frente e lá ficou, ao descer. Levei uma belíssima bronca de meus pais, já que era deles e de estimação.

Em outra ocasião, estava no centro da cidade, e começou a chover. Não estava prevenido e decidi comprar um guarda-chuva. Era daquele tipo dobrável, que fica reduzido a uns vinte centímetros de comprimento. No entanto, a chuva estava forte, e acabei decidindo voltar para casa de táxi. Nem cheguei a abrir o guarda-chuva. Sentei no banco de trás do veículo e coloquei-o a meu lado. É desnecessário dizer que, ao sair do táxi, deixei-o ali mesmo. Desta feita, eu mesmo me dei uma bronca daquelas pelo esquecimento. Espero que o motorista tenha feito bom proveito...

segunda-feira, 21 de abril de 2008

O SORRISO

São necessários 43 músculos para fazer cara-feia, mas apenas dezessete para um sorriso. Portanto, é 2,5 vezes mais fácil sorrir.
Essa expressão facial não é ensinada. Haja vista que uma criança nascida cega sorri da mesma maneira que uma pessoa normal, mas jamais viu alguém sorrir. Um bebê, mesmo com dois dias de idade, reage com um sorriso ao interesse dos que o circundam.
Há muitos tipos de sorrisos, mas a maioria denota emoções positivas, como alegria, alívio, diversão, felicidade, prazer e orgulho. Há estudos que sugerem que, ao sorrir, o indivíduo está feliz, e isso o ajuda para que se sinta melhor e a vislumbrar o lado mais leve e cômico da vida.
Fazer careta e ficar mal-humorado são emoções negativas. Essas também estão sendo estudadas. É certo que não dói sorrir, mesmo quando se tem aparelho nos dentes!
É quase certeza que o sorriso faz aproximar as pessoas. Sinaliza que você pode ser alguém interessante, agradável para conhecer, para fazer amizade.
Infelizmente, muitas vezes, a vida o joga em uma situação díficil, onde não há lugar para alegria. Pode-se ficar triste por um motivo ou outro, mas isso, de vez em quando, é normal. Pode não haver nenhuma razão para um sorriso, mas faça uma tentativa: olhe-se no espelho e dê um sorriso, mesmo forçado. Verá que as coisas irão melhorar. Ficando na companhia de alguém que esteja alegre poderá, também, ajudá-lo a voltar a sorrir.
Um sorriso é contagiante, portanto, espalhe-o. Andando pela rua, sorrindo, poderá deixar todos a seu redor mais felizes. Uma pessoa sábia disse, certa vez: — Um sorriso não custa nada, mas dá um grande retorno. Enriquece quem o dá. Leva apenas um instante, mas dura uma eternidade na memória. Ninguém é suficientemente rico, para que possa viver sem ele.
Talvez um dos sorrisos mais famosos ficou gravado para sempre na tela de Leonardo da Vinci, “Mona Lisa”. Acha-se que foi um nobre de Firenze, Bartolommeo di Zanobi del Giocondo, que a encomendou de Leonardo, em 1503. Seria a pintura de sua terceira esposa, Lisa di Antonio Maria di Noldo Gherardini. Ela teria, então, 24 anos de idade.
Quando Leonardo deixou Florença, em 1507, levou o quadro com ele, e o vendeu ao Rei Francisco I, da França, para o castelo de Ambroise. Ficou depois em Fontainebleau, Paris, Versailles e, posteriormente, na coleção de Luiz XIV. Após a Revolução Francesa, ganhou um lugar no Louvre, mas Napoleão o levou de lá e pendurou em seu quarto de dormir. Quando Napoleão foi preso, “Mona Lisa” voltou para o Louvre.
Em 1911, a pintura foi roubada por um italiano, que a levou para a Itália. Surgiu dois anos depois em Florença. Após várias exposições, foi devolvida ao Louvre. Nas décadas de 1960 e 1970, foi exposta em Nova Iorque, Tóquio e Moscou. Hoje se encontra no Louvre, em Paris, por trás de vidro à prova de bala, e há acordos internacionais que não permitem que saia mais dali.
Há também a história da diretoria de uma rede de supermercados, nos Estados Unidos, que orientou seus funcionários para receber os clientes com um sorriso e contato visual direto. Houve 12 funcionárias que processaram a firma, depois de receberem propostas indecorosas de clientes!
É óbvio que não há necessidade de exageros, andando por aí com um sorriso congelado na cara. Mesmo quando está se divertindo, não precisa sorrir o tempo todo. Basta fazê-lo no auge. Mas...

Sorria!
Nem que seja um sorriso triste.
Por que mais triste que um sorriso triste,
É a tristeza de não saber sorrir.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

BORBOLETAS

Quando criança, um de meus passatempos era caçar borboletas. Naquela inocência infantil, não passava pela cabeça que estava matando insetos inocentes. É, sim, pois esses lindos animais eram anestesiados com doses letais de éter — que ainda se comprava sem nenhuma restrição —, alfinetados pelo corpo, de costas sobre um tabuleiro, com as asas cuidadosamente espraiadas até que ocorresse a rigidez cadavérica e, depois, virados para mostrar o espécime em todo seu esplendor.
Durante vários anos, talvez até a adolescência, mantive uma bela coleção, mas com outros interesses, foi abandonada e teve de ser destruída quando, um dia, ao olhar as borboletas, descobri que estavam mofando e sendo devoradas por larvas de algum outro tipo de inseto. Mas o interesse por borboletas não arrefeceu e, como sou filatelista, tenho uma vasta coleção de selos, cujo tema é borboletas.
As borboletas e mariposas estão entre os insetos mais apreciados. As primeiras são mais populares, talvez porque voam durante o dia e têm cores mais vivas e atraentes, enquanto as mariposas já são mais sombrias e noctívolas. Pertencem ao gênero Lepidoptera, que significa "asas escamosas", porque as asas são recobertas por milhares de escamas sobrepostas. Há quase 200.000 espécies diferentes e apenas 10% são borboletas, o restante mariposas.
Esses insetos vivem e se adaptam a quase todos os climas, variando desde as tundras do Ártico e os altiplanos andinos, até as florestas tropicais e os pântanos costeiros.
Sua principal alimentação na fase adulta é o néctar das flores, porque só se alimentam de substâncias líquidas e, devido a isso, tornam-se importantes polinizadores. As borboletas e mariposas alimentam-se através de um tubo oco parecido a uma língua que enrola e desenrola para alcançar a profundeza das flores.
Algumas das principais diferenças entre borboletas e mariposas, além de suas cores, são o corpo mais delgado das borboletas, as antenas peludas das mariposas e as asas fechadas das mariposas quando estão em repouso. Obviamente, há várias outras características e exceções.
O ciclo de vida desses insetos consiste de quatro fases: ovo, taturana (lagarta ou larva), pupa (casulo) e adulto. A lagarta se desenvolve na capa protetora do ovo. A fase de larva é a mais ativa para a alimentação. Para crescer, a taturana precisa trocar de pele várias vezes. Na fase de pupa, os componentes do corpo sofrem uma transformação, virando a borboleta ou mariposa, que é a fase adulta. São essas que põem os ovos. O ciclo de vida é conhecido por metamorfose completa e varia muito, dependendo da espécie, mas geralmente o ciclo completo dura de 2-12 meses.
É uma lástima que, atualmente, a quantidade e variedade de borboletas e mariposas decresceu muito em nosso meio, pela grande devastação das áreas verdes, substituídas pelos arranha-céus. No entanto, no interior, temos a oportunidade de ainda nos beneficiar com inúmeras multicoloridas e diferentes.
Algumas espécies de minha infância e adolescência já estão em extinção, haja vista o monarca, famoso por ser uma borboleta que emigrava em bandos desde o México para cá e era abundante 50 anos atrás. Hoje não a vemos mais por aqui.
Na minha antiga chácara, sempre tínhamos borboletas. Lembro-me bem de um tipo que gostava dos pés de maracujá e era uma verdadeira praga, porque as lagartas devoravam as plantas. Mas a borboleta era linda, cor de laranja no dorso e a parte ventral repleta de manchas prateadas.
Sem dúvida, há taturanas interessantes, também. Há uma espécie que gosta de mamona. É uma lagarta verde com quase 10 cm de comprimento, da espessura de um dedo mínimo. Como crianças, colocávamos duas num mesmo galho e atiçávamos para que fossem uma de encontro a outra. Saía cada briga, para ver quem dava passagem!
Lá na chácara, certo dia, minha esposa ouviu um ruído de mastigação no jardim. Ao investigar, descobriu uma taturana comendo a folha de uma frutífera. Quando foi arrancar a folha com o inseto para me mostrar, quase tombou de susto, pois não é que a lagarta, que era verde, soltou dois chifres alaranjados que estavam escamoteados, em sua defesa.
É isso. Cabe apenas lembrar que nem todos esses insetos são tão inocentes quanto parecem. É fato notório que muitas taturanas, principalmente as peludas, queimam (na verdade, produzem uma reação alérgica), porém há borboletas e mariposas que são venenosas também.

Referências:
— Carter, David – Butterflies and Moths – Dorling Kindersley Ltd., 1992.

— Sandars, Edmund – A Butterfly Book for the Pocket – Oxford University Press, 3rd. impression (reset), 1955.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

SÃO NICOLAU

O Dia de São Nicolau é celebrado no dia 6 de dezem-
bro, por ser o dia de sua morte, conforme as antigas tradições cristãs. A data é festejada principalmente no Centro e Leste Europeu e em países como a Alemanha, Bélgica e Holanda.
Há controvérsias sobre a existência de São Nicolau, santo-padroeiro de Apulia (na Itália), Sicília, Grécia e Lorraine (na França), além de um número grande de cidades da Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda, Rússia e Suíça.
Tem-se que Nicolau era nativo de Patara, uma vila da Lícia, na Ásia Menor, perto da atual cidade de Kalamaki, na Turquia. Acredita-se que tenha nascido numa família abastada, entre 260 e 280 d.C. Desde criança, fora educado e orientado nos ensinamentos de Cristo, tornando-se um cristão devoto. Ainda jovem, perdeu os pais para a peste e herdou uma imensa fortuna. Obedecendo as palavras de Jesus de “vender o que era seu e de dar o dinheiro aos pobres”, Nicolau usou sua herança para assistir os necessitados, doentes e vítimas de injustiças.
Uma das histórias mais tradicionais a respeito de São Nicolau conta sobre um nobre empobrecido e suas três filhas. Naquele tempo, era costume que o pai oferecesse, pela filha, um dote ao futuro noivo. Sem o dote, as moças dificilmente conseguiriam se casar e terminavam como escravas ou prostituídas. Nicolau ficou sabendo da situação e, um dia, às escondidas, subiu no telhado da casa daquele senhor e jogou um saco de ouro pela chaminé. No dia seguinte, o pai encontrou o ouro e ficou muito feliz, pois então salvaria a filha mais velha daquele destino cruel. Na noite seguinte, Nicolau repetiu sua visita secreta. Embora contente com o que ocorria, o pai estava curioso para saber quem era seu benfeitor e, assim, flagrou-o quando mandava o terceiro saco de ouro pela chaminé. Uma das filhas havia deixado suas meias para secar na lareira e, justamente dentro de uma delas, caiu o ouro. Nicolau pediu que o homem agradecesse a Deus, e não a ele, e que também não contasse a ninguém. Porém, agradecido, não pôde deixar de elogiar Nicolau. Seu prestígio, que já era dos melhores, cresceu ainda mais.
Nos países protestantes, após a supressão da evocação aos santos, surgiu a veneração holandesa de “Sinter Klaus” (uma variação de Saint Nicholas, ou seja, São Nicolau) e que foi levada para a América do Norte pelos colonizadores holandeses. Posteriormente, foi transformada na história de “Santa Claus”, aquele velho risonho e bonachão, de barba branca, vestido de vermelho, que todos conhecem como Papai Noel. A tradição de que ele desce pela chaminé e deixa presentes em meias penduradas na lareira está alicerçada nas histórias contadas sobre São Nicolau.
Nicolau foi, inicialmente, monge de um mosteiro perto de Mira (atual Demre, na Turquia). Conta-se a história de que, quando o Bispo de Mira faleceu, um prelado idoso teve um sonho: que o mesmo deveria chegar cedo, no dia seguinte, à igreja, para receber a primeira pessoa que chegasse, cujo nome deveria ser — Nicolau — e essa seria o próximo bispo. Como de costume, Nicolau foi à igreja para orar. Cumprimentou o velho padre, com o respeito devido. Ao ser perguntado, e dito seu nome, foi-lhe informado que seria o próximo bispo de Mira. O povo da cidade, já conhecedor das atividades benevolentes dele, ficou muito satisfeito com a indicação de Nicolau que, então, aceitou a recomendação.
São Nicolau é considerado o patrono-protetor das crianças, navegantes, agiotas, estudantes, banqueiros, juristas, viajantes, solteiras, noivas, fabricantes de cerveja, fabricantes de perfumes e, por incrível que pareça, dos ladrões! Fato interessante é que o símbolo adotado por banqueiros e agiotas é o de três sacos ou bolas de ouro, devido à história acima relatada.
Há muitas outras histórias sobre seus feitos e milagres através dos tempos. Seu exemplo de generosidade e compaixão com os necessitados, principalmente com as crianças, fez com que se tornasse um modelo de vida e, por isso, é venerado por católicos e ortodoxos, e honrado pelos protestantes.
Sob o domínio do imperador romano Diocleciano, que perseguia os cristãos, sem trégua, o Bispo Nicolau foi exilado e preso. Após sua liberação, Nicolau atendeu o Concílio de Nicéia (Nicaea, atual Iznik, na Turquia), em 325 d.C. Embora não apareça em todas as relações, seu nome está na lista grega mais antiga daquele concílio e em mais cinco listas.
Ele faleceu, em Mira, no ano 343, e foi enterrado em sua igreja-catedral. Na atualidade, seus restos mortais repousam em Bari, uma cidade portuária no sudeste da Itália, para onde foram transportados em 1087, depois que Mira caiu nas mãos de invasores islâmicos. A Turquia também alega estar de posse do ossário de São Nicolau.
Durante a Idade Média, seu túmulo foi um dos grandes centros de peregrinação religiosa, e Nicolau ficou conhecido como o “Santo de Bari”. Até hoje, peregrinos e turistas visitam a grande Basilica di San Nicola, onde o relicário ainda exala uma fragrância, a mirra.
Entre as muitas orações a São Nicolau, destaca-se esta: “Através da intercessão de São Nicolau, mantenha-nos seguros de todos os perigos, para que possamos seguir adiante, sem receio, no caminho da salvação. Amém”.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

O CALENDÁRIO E O ANO BISSEXTO

Sendo 2008 um ano bissexto, interessou-me pesquisar sua origem, razão de ser e, ao mesmo tempo, estudar o calendário que adotamos.
Desde os tempos mais remotos existiram calendários, devido à necessidade do Homem de contar o tempo e à observação do dia e da noite, e das estações do ano. Muitos calendários passavam de pais para filhos oralmente, quando ainda não existia a escrita e, mais tarde, havendo-a, baseou-se freqüentemente na ascensão dos monarcas, levando a enormes confusões na cronologia da história da humanidade.
Havia grandes dificuldades para sua adequação, justamente porque a duração do dia e de um mês não é um múltiplo exato, resultando num ano inexato.
Muitos séculos antes de Cristo, os egípcios já utilizavam um ano de 360 dias que se iniciava com a enchente anual do Nilo. A cada 4 anos, começaram a adicionar um dia, depois de deduzirem que um ano correspondia a 365,25 dias.
Em 46 a.C., o Imperador Júlio César (Gaius Julius Caesar, 102-44 a.C.) reformou o calendário existente em Roma, no qual se introduzia um 13º mês sempre que se achava necessário e, assim, surgiu o Calendário Juliano, com 12 meses em que, a cada 4 anos, havia um ano de 366 dias. Esse calendário foi adotado na Europa por cerca de 1500 anos.
Foi observado que, apesar da correção a cada 4 anos, o Calendário Juliano não era preciso, pois o ano apresentava 11 minutos e 14 segundos a mais em relação ao Ano Solar. Com o passar do tempo, essa diferença afetava as datas do início das estações e dos festivais religiosos.
Em 1582, o Papa Gregório XIII (1502-1585), após vários estudos juntamente com astrônomos e matemáticos, modificou o Calendário Juliano e elaborou o Calendário Gregoriano, que é utilizado até os dias de hoje. Através de muitos erros e acertos, chegou-se à seguinte regra, que é seguida desde então: “Será bissexto todo ano cujo número seja divisível por 4 e não divisível por 100, sendo também bissexto os anos divisíveis por 400”.
Como o Ano Juliano é mais longo que o Ano Solar, no final de um século há um excedente de cerca de ¾ de um dia. Em 4 séculos, essa diferença corresponde a aproximadamente 3 dias. Como a cada 4 anos há um ano bissexto, em cada 400 anos teríamos 100 bissextos. Considerando-se que os dias excedentes seriam introduzidos nos futuros anos bissextos, a solução ao problema foi de eliminar 3 anos bissextos para se eliminar os 3 dias excedentes, ou seja, a partir de 1582 somente poderiam existir 97 anos bissextos a cada 400 anos. Escolheu-se então retirar os anos bissextos divisíveis por 100 (que seriam 4), mas para poder retirar apenas 3, manteve-se o único ano bissexto divisível por 400. Por esse motivo, um em cada 4 anos de fim de século é considerado ano bissexto, mas tão somente se for divisível por 400. Os anos de 1700, 1800, 1900 não foram anos bissextos, assim como 2100 não o será, porém 1600 e 2000 foram bissextos, por serem divisíveis por 400. A engenhosidade para resolver este problema talvez seja um dos cálculos mais brilhantes do século XVI.
Quando Júlio César introduziu seu calendário em 46 a.C., ele fez com que o ano se iniciasse em 1º de janeiro, mas nem sempre foi assim. A Igreja não gostava das festividades quase pagãs que ocorriam no Ano Novo e, em 567 d.C., o Concílio de Tours declarou que iniciar o ano em 1º de janeiro era um erro que precisava ser corrigido. Durante a Idade Média várias datas foram usadas, gerando muitos problemas de interpretação.
Apesar de representar um avanço, e muitos países adotarem o Calendário Gregoriano, principalmente os países protestantes demoraram para aceitá-lo. Na Alemanha só foi adotado no século XVII, e países europeus como Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia, no séc. XVIII. Curiosamente, na Inglaterra (e não na Escócia), o ano histórico começava em 1º de janeiro e o ano litúrgico se iniciava no primeiro dia do Advento (quatro semanas antes do Natal). No entanto, o ano civil variou muito: do século VII ao século XII, começava em 25 de dezembro; do século XII até 1751, em 25 de março. Somente após 1752, quando adotou-se o Calendário Gregoriano, oficializou-se a data de 1º de janeiro. Vários países só adotaram esse calendário no século XX, como Bulgária, Grécia, Iugoslávia, Romênia, Turquia e União Soviética. Na China foi aceito para vigorar simultaneamente com o calendário tradicional chinês. No Brasil, colônia de Portugal, então sob domínio da Espanha, passou a vigorar em 1582, data em que fora instituído pelo Papa Gregório XIII.
É interessante saber a forma inglesa de se chamar o ano bissexto: leap year. Ao pé da letra, significa “o ano que pula”. Cogita-se que deriva do fato dos festivais, após o dia intercalado (29 de fevereiro), “pulam” um dia à frente.
O antigo calendário romano apresentava três dias fixos no mês, baseados no ciclo lunar e um mês dividia-se em três partes, separadas por calendas (lua nova), nonas (quarto crescente) e idos (lua cheia). Os demais dias eram contados de trás para a frente em relação ao dia fixo subseqüente. O dia 2 de janeiro, por exemplo, era antediem IV nonas januarii, “quatro dias antes da nona de janeiro”, o dia 3 de fevereiro, antediem III nonas februarii, ou seja “três dias antes da nona de fevereiro” e assim por diante. Obviamente, calendas resultou no termo “calendário”.
Júlio César não inventou um novo dia (como existe hoje o dia 29 de fevereiro) para compensar o dia a mais a cada 4 anos, mas escolheu, aleatoriamente, o dia 24 de fevereiro para ser repetido novamente. Esse dia, em latim, chamava-se bis sextum antediem calendas martii, “o segundo sexto dia antes da calenda de março”. Daí a origem do termo bissexto.