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domingo, 25 de novembro de 2018

OLHANDO O DEDÃO DO PÉ


Rodolfo Civile era fundamentalmente um romancista. Seu primeiro livro, publicado em 1993, intitulado “A História de uma Família Calabresa”, tinha como principal protagonista seu avô, Antonio Civile. Em maio de 1994, foi realizado em São Paulo XV Congresso Nacional da SOBRAMES e ele foi premiado com a medalha de prata por seu segundo romance “Olhando o Dedão do Pé”.
Eu era um neófito em assuntos literários, tendo ingressado neste sodalício apenas dois anos antes, porém já publicara meu primeiro romance “O Baú do Passado”.
Não sei se foi por isso que Civile me solicitou que revisasse os originais de seu livro. Entreguei-lhe a revisão na forma de um livro digitado e encadernado com espiral, além de um disquete que posteriormente utilizou como base para a publicação do livro. Tenho até hoje uma cópia do livro digitado, além de cópia da carta que lhe mandei: “Civile — Esta é a minha maneira de lhe dizer o quanto gostei e apreciei o seu livro ‘Olhando o Dedão do Pé”. Forte abraço — Walter —16.09.94 (Livro + disquete).
Por ocasião da publicação do livro pela JAC Editora, o Civile pediu que fizesse a apresentação do mesmo. Descrevi que se tratava da história de duas famílias calabresas radicadas no Bexiga, em São Paulo, além de um médico que as conhecia bem, física e emocionalmente. Sofrimento, dor, paixão e tragédia e amor se mesclavam, com os personagens e fatos se desenrolando diante de nossos olhos, descritos pelo digno facultativo. Quando a história termina, lamentei que o fim tivesse chegado. Queria mais.
A sua dedicatória para Marisa e para mim data de 08.02.95, muito embora o lançamento só tivesse ocorrido em 16.08.95, no Hall livre da biblioteca do Centro Cultural São Paulo, na Rua Vergueiro, 1000, uma realização da Prefeitura de São Paulo, através da Secretaria Municipal da Cultura, com apoio cultural da Novelli karvas.
Civile nunca se esqueceu de minha singela atuação em “Olhando o Dedão do Pé”, anunciando aos quatro ventos o que havia feito e pela qual estava eternamente grato.
Sempre alegre e brincalhão, sabia ser solene quando a ocasião demandava. Sua vida no Bexiga e suas observações sobre o cotidiano demonstravam sua grande capacidade de discernimento e análise do ser humano.
Rodolfo Civile era único e fará muita falta em nosso meio, bem como, tenho certeza, em outros locais também.

Rodolfo Civile era médico, formado em
1952. Fez parte da Sobrames –SP. Faleceu
em 07.10.2018, aos 93 anos de idade.

sábado, 3 de setembro de 2016

HISTÓRIAS DE HIGHLANDERS




Highlanders são os escoceses que vivem nas Terras Altas da Escócia. Tradicionalmente, são pessoas rudes, fortes e guerreiras, porém têm um princípio muito importante, o de serem sempre hospitaleiros, e com todos. Há muitas histórias sobre eles, haja vista aquelas eternizadas por grandes escritores, como o novelista Sir Walter Scott e o poeta Robert Burns. Fato ou lenda, todos os escoceses estão familiarizados com as mesmas, como as duas histórias a seguir.


O thistle, aqui conhecido por cardo, é um arbusto espinhento que dá flores roxas muito exóticas. Conta-se que, no século X, os highlanders de um certo castelo escocês já haviam rechaçado várias investidas de vikings provenientes da Noruega. E eles, por sua vez, estavam cansados de tantas derrocadas. Decidiram, então, atacar as fortificações escocesas na calada da noite. Inteligentemente, contando com o elemento surpresa, foram descalços, para que sua presença não fosse percebida. Foi necessário que atravessassem o fosso junto ao castelo, no qual cresciam plantas silvestres, justamente os thistles. Os escoceses foram alertados pelos gritos de agonia dos invasores ao pisarem nos espinhos e, mais uma vez, os vikings foram derrotados. Desde então, o thistle tornou-se a flor-símbolo da Escócia.



Os clãs da Escócia são possuidores de terras que, em geral, eram passadas de geração em geração, sem a menor preocupação de qualquer registro de propriedade. Os limites territoriais, frequentemente, eram motivo de discussões acaloradas e de guerras entre os clãs, com grande perda de vidas. Os MacLeods e os MacDonalds estavam se dizimando devido à disputa de uma península na Ilha de Skye, que fica na costa oeste da Escócia. Os chefes dos clãs estavam preocupados com as mortes que ocorriam e, certa vez, reuniram-se para tentar pôr fim àquela luta. Ficou decidido que se faria uma corrida de barcos, com a partida a uma determinada distância no mar aberto, e quem chegasse primeiro à praia, seria declarado vencedor. Lá se foi um barco-a-remo de cada clã, contando com vários highlanders de braços fortes em cada um. Foi dada a largada e, desde o começo, os MacLeods se encontravam à frente. Os MacDonalds lutavam para passar os adversários, mas, quando se emparelhavam, os MacLeods se esforçavam mais e conseguiam a dianteira. Os chefes dos clãs estavam na praia, aguardando a chegada. O sorriso de satisfação do chefe MacLeod era aparente, pois a poucos metros da praia, a embarcação dos seus estava se aproximando. Repentinamente, um MacDonald levantou-se no seu barco, tirou o punhal preso à sua perna, decepou sua própria mão e a atirou na praia, por cima dos MacLeods, portanto chegando antes deles. Com isso, conquistou o direito de posse das terras para seu clã. Durante toda a vida, aquele highlander foi tratado como herói. Para perpetuar a memória do grande feito, uma mão faz parte do brasão dos MacDonalds. Até hoje, os descendentes daqueles guerreiros são os donos daquela parte da ilha.

thistle

  Brasão dos MacDonalds


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

MEMÓRIAS DE SÃO PAULO



Na minha juventude, morava no bairro de Campo Belo, e as ruas eram de terra batida e não havia calçadas. As ruas principais do bairro (Rua Prudente de Moraes, hoje Rua Antonio de Macedo Soares, e a Rua Vieira de Morais) que cruzavam com as outras, eram as únicas cobertas com paralelepípedos, alguns quarteirões com calçadas, outros não. O movimento de automóveis era pequeno, com trânsito maior de caminhões e ônibus. Dependíamos destes ônibus e dos bondes para ir e vir do centro.

Andar de bonde, então, era uma aventura. No trajeto que ia da Praça João Mendes até Socorro, o bonde levava quase duas horas. Depois de descer a Rua Conselheiro Rodrigues Alves e passar pelo Instituto Biológico, entrava numa longa reta, com trilhos à semelhança de uma estrada de ferro. Da mesma forma que uma ferrovia, as paradas tinham os nomes em placas presas entre dois postes com a identificação pintada em letras pretas sob fundo branco, cuja sequência até chegar em Santo Amaro eram: Ipê, Monte Líbano, Moema, Indianópolis, Vila Helena, Rodrigues Alves, Campo Belo, Piraquara, Frei Gaspar, Volta Redonda, Brooklin Paulista, Petrópolis, Floriano, Alto da Boa Vista e Deodoro. Daí por diante, os trilhos voltavam a ficar embutidos nos paralelepípedos e viam-se muitas casas e lojas comerciais. Pois o fato é que durante todo o trajeto desde o Biológico, havia grande número de chácaras e poucas casas, estas últimas se aglomerando junto às paradas dos bondes. Do Largo 13 de Maio, centrão de Santo Amaro, o bonde, que era fechado, descia até a Praça São Benedito. Quem quisesse atravessar a ponte sobre o rio Pinheiros e chegar à Praça de Socorro, fazia a baldeação para um bonde aberto. Pergunto-me até hoje o motivo disso. Será que a ponte não suportava o peso de um bonde maior, ou não havia passageiros suficientes e era vantagem retornar logo para a cidade com o bonde maior?

Íamos de bonde para o Colégio Estadual que ficava em Santo Amaro. Muitas vezes os nossos professores nos faziam companhia, pois poucos tinham seus próprios carros. Lembro-me bem de uma ocasião em que os bondes pararam no Brooklin, um atrás do outro e tivemos de ir a pé até a escola, uma pernada e tanto. Os meus colegas e eu passamos em frente à fábrica de chocolates Lacta. Logo adiante, vimos o motivo. Na parada Petrópolis, um bonde em alta velocidade havia colhido um caminhão distribuidor de água da Fonte Petrópolis (que existe ainda hoje), arrastando-o por vários metros. Não me lembro se alguém saiu ferido. Havia garrafas de água e cacos de vidro por todo lado. Será que o motorneiro desceu o declive existente em frente à Lacta à toda e não conseguiu parar em tempo e pegou o caminhão que estava atravessando a linha?

A vida, na adolescência, era bastante pacata e singela. As andanças de bicicleta com um grupo de coleguinhas era uma delícia. Dois quarteirões depois de nossa rua, começavam as chácaras onde eram plantadas hortaliças que abasteciam a cidade de São Paulo. Havia estreitas passagens nas chácaras pelas quais íamos com nossas bicicletas até chegarmos ao Aeroporto de Congonhas. Naquele tempo, o aeroporto não era cercado e íamos até a cabeceira da pista e lá ficávamos observando os aviões passar por cima de nossas cabeças para pousar. Nem imaginávamos o perigo pelo qual passávamos, porém a gente sabia que estávamos errados pois, vez ou outra, saíamos correndo de lá quando um jipe vinha em nossa direção, piscando os faróis. Era apenas um incentivo para ousarmos voltar. Será que cercaram o aeroporto por nossa causa?

A nossa rua de terra era um convite para se jogar “taco”, uma modalidade brasileira simplificada do “cricket”. A finalidade era derrubar, com uma bola (geralmente de tênis), uma casinha em formato de tripé feita com alguns finos galhos de árvore e que era defendida por quem estivesse com o taco. No jogo inglês, há três pequenos postes, unidos por travessas pequenas no seu topo que precisam ser derrubadas. Meu pai esculpiu um lindo taco para mim, que era invejado por todos os jogadores. Está guardado como lembrança daqueles tempos.

Outro jogo bastante gostoso era com bolinhas de gude. Fazíamos três buracos equidistantes alinhados na terra e um quarto buraco em ângulo reto com o buraco da ponta. Tínhamos de alcançar aquele último, mas também precisávamos afastar os adversários, atingindo suas bolinhas com a nossa. Depois de fazer nossas lições de casa, ficávamos jogando até o anoitecer, quando nossos pais nos chamavam para jantar e dormir. É desnecessário dizer que voltávamos para casa resmungando e de mau humor.

Os dias passam céleres e eis que estamos retratando fatos de mais de cinquenta anos atrás! Como era bom não ter responsabilidades, não ficar preso dentro de casa em frente a uma televisão, que poucos tinham naquele tempo. Não havia computadores, nem éramos escravos de celulares, tablets etc. Eram outros tempos. Ah, tempos idos, que não voltam nunca mais...

sábado, 5 de setembro de 2015

MEU GATO FUGIU!

Tenho um gato preto. Ele é gordo e folgado. Está lá com seus nove anos de idade. Chegou em casa com apenas 15 dias, portanto hoje faz parte da família. Junto com ele vieram mais três gatos, todos da raça SRD (Sem Raça Definida!). Com o passar dos anos, restaram somente ele e mais um.

Durante o dia, dormem juntos no sofá. Quando chegamos em casa, seja de dia ou de noite, parecem adivinhar que estamos do outro lado da porta do apartamento, pois lá encontram-se eles esperando para nos cumprimentar. O poder auditivo de gatos é algo impressionante.

É aí onde reside o perigo. Houve várias tentativas do gato preto sair para o hall, mas toda vez, com o pé, conseguia fazê-lo voltar para dentro de casa. Um dia até conseguiu esquivar-se e foi parar no meio do hall. Porém, ao chamá-lo, voltou correndo. Temos de ficar sempre atentos para que nenhum dos dois escapem, embora o outro gato seja mais tranquilo e jamais pôs as patas para fora de casa.

Rotina vai, rotina vem. Gosto de chamá-los quando estou em casa. Certo dia, cadê o gato preto? O outro respondeu, mas nada do gato preto. Procurei em todos os esconderijos habituais. Nada. Procurei atrás do monitor do computador, um lugar predileto. Nada. Afastei sofá e poltronas da sala para ver se estava lá. Nada. Mesmo tendo a certeza de que não poderia ter escapado, sai para o hall e o chamei. Nada. Voltei. Achei que ouvira um fraco miado. O desgraçado estava gozando de mim? Vasculhei a casa toda de novo. Nada. Quando menos espero, ouço novamente aquele miado. Olho para cima e ei-lo, belo e folgado no topo de uma cristaleira alta que quase toca o teto. Ele me olha e eu o encaro. Como é que subiu ali, seu gato maroto?  Solta um mio mais forte, como a dizer: Achou!

Naquele fatídico dia, o gato preto consegue se desvencilhar dos meus pés e sai pelo hall afora. Chega próximo das escadas que vão para o andar de baixo, olha para mim como a me desafiar: Venha me pegar! Naquele instante, ouve-se o latido do buldogue do vizinho por detrás da porta. O gato se assusta e desce correndo pelas escadas. E eu corro atrás dele. Ele para no hall daquele andar; parece hesitar, não sabendo o que fazer. Ouve meus passos e minha respiração ofegante. Espera até eu vê-lo e, de novo, desembesta pela escada abaixo para o outro andar. Só que desta vez ele encontra a porta de um apartamento aberta e entra, sem cerimônia, talvez pensando que fosse o seu. Estou chegando lá, suando às bicas, quando sou quase atropelado por ele, pois sai voando do apartamento perseguido por um enorme gato alaranjado, da raça Maine Coon. Sei que, em geral, são animais dóceis, porém meu gato preto invadiu seu espaço. E lá vou eu, subindo lances de escada atrás deles para ver o que aconteceu. No meu andar, uma cena inusitada: o Maine Coon está na soleira da porta de casa, se esfregando no meu outro gato.

E o gato preto? Aquele covarde foi encontrado, mais tarde, debaixo do sofá. Ficou dois dias sem se alimentar, tamanho o susto que levou. Atualmente ele não se digna nem a levantar para vir nos cumprimentar quando chegamos da rua.  Deve ainda sonhar com o Maine Coon, o maior gato doméstico existente e que, para ele, deve ser parecido com algum tipo de monstro.


sexta-feira, 18 de junho de 2010

A PROCURA PELA PEDRA FLEXÍVEL

Quando mencionei a um amigo escocês que iria passar uns dias em Ouro Preto, ele fez um pedido bastante curioso: queria que comprasse uma pedra flexível de cuja existência eu desconhecia. De fato, duvidava que houvesse algo assim na natureza. No entanto, consultando a Internet, encontrei referências à pedra flexível, e em Ouro Preto! Mesmo assim, continuei descrente, sem imaginar como ela seria.

Aparentemente não se trata de uma rocha muito conhecida, pois a maioria das pessoas questionadas não tinha ouvido falar na dita cuja. Meu amigo teve a mesma dificuldade quando esteve em Ouro Preto anos atrás. Parecia que ele sabia mais a respeito da pedra flexível que os moradores. Chegaram a me sugerir que fosse a pedra-sabão, tão divulgada em Minas Gerais graças às obras do Aleijadinho, mas eu sabia que sua consistência não permitiria que se tornasse flexível.

Procurei informações no centro histórico da antiga capital de Minas Gerais. Numa joalheria, a gerente me disse que era uma pedra muito rara e não soube especificar onde encontrá-la. Visitando uma feira de artigos em pedra-sabão, mais uma vez insisti na minha busca. Numa das bancas sugeriu-se que procurasse um senhor num dos cantos da feira que vendia diversos tipos de pedras. Fui atendido por um comerciante usando óculos grossos, os tradicionais “fundos de garrafa” e que conhecia a rocha. Explicou-me que era realmente uma pedra muito rara e achava que o único lugar possível onde poderia vê-la seria no Museu de Mineralogia de Ouro Preto.

Entrando no museu, minha primeira pergunta foi sobre a pedra flexível. Lá estava ela em exposição na própria recepção do museu, dentro de uma caixa de vidro, com uma base de madeira e suportes para manter a pedra em pé em seu interior. Na base desta caixa estava sua identificação: quartzolito flexível. Era ver para crer!

Havia também peças à venda. Tenho minhas dúvidas quanto à raridade da pedra flexível, pois havia várias para escolher. O quartzolito flexível se assemelha ao arenito e tem a consistência dura de qualquer rocha. Examinei e escolhi uma pedra medindo cerca de 40 x 20 cm, com uma espessura próxima a um centímetro. Ela só pode ser levantada em posição vertical, com todo cuidado, como se fosse uma lâmina de vidro, para não partir no meio. Nesta posição pode-se observá-la em todo seu esplendor de flexibilidade, rebolando como uma gelatina. É difícil crer, mas a pedra balança e se move mesmo!

Parece que a flexibilidade da rocha se deve a grãos de quartzo bem interligados e que se encontram separados um dos outros por espaços vazios supostamente causados por uma dissolução química nas bordas destes grãos.

Vitorioso por ter encontrado a famigerada pedra, ao voltar para casa mandei um E-mail para meu amigo escocês. Ele estranhou que tivesse tido dificuldade em encontrar o quartzolito, pois ele o tinha visto no Museu de Mineralogia. Só não me informou porque eu não havia perguntado! Na ocasião em que ele esteve em Ouro Preto, não conseguiu encontrar quem lhe vendesse a bendita pedra.

Foi até bom que não tivesse conhecimento de onde encontrar a pedra flexível. Assim tornou-se mais interessante a aventura de descobrí-lo. A pouca divulgação sobre aquela pedra faz supor que não há muita procura por ela, fazendo com que as pessoas que já tomaram conhecimento de sua existência não-lendária a considerem uma pedra muito rara.

Foi necessário um estrangeiro em visita ao Brasil, vindo da longínqua Escócia, nos alertar da presença desta rocha tão interessante em nosso meio. A peça foi acondicionada adequadamente para não quebrar e será levada para ele como uma lembrança por ter-me dado esse prazer de conhecer mais um mistério de nosso país.