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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

NEVE!

A neve caía incessantemente. Quem estava no grande salão do hotel cinco estrelas dos Alpes italianos achava lindo o cenário que se apresentava através da imensa janela de vidro temperado, com o branco caindo sobre as encorpadas coníferas das encostas da montanha. Era ainda o meio da tarde. Uma lareira acesa aquecia o ambiente e saboreavam-se deliciosos vinhos do norte da Itália. A balburdia de vozes se misturava ao estalar da lareira. Alguns hóspedes estavam sentados em poltronas lendo jornais, revistas ou livros, outros cochilavam. Havia pufes espalhados pelo salão e quem sentava no chão ficava encostado nos mesmos. Era um lugar tranquilo de pessoas endinheiradas.
Alice estava lá, tentando imaginar como seu marido Marcelo iria voltar da vila que ficava ao pé da montanha, localizada a mais de cinquenta quilômetros do hotel. Com essa tempestade de neve, as estradas deveriam estar em péssimas condições. O frio intenso era preocupante pois, quando as estradas congelavam, criava-se uma fina camada de gelo que fazia com que os veículos derrapassem. Mesmo pensando assim, distraía-se pois precisava cuidar dos dois filhos do casal, de quatro e seis anos.

O tempo estava implacável. Nevava cada vez mais. Repentinamente ouviu-se um estrondo e uma grande quantidade de neve despencou do telhado do salão, caindo na frente da grande janela. As crianças correram até lá. O visual que se apresentava era de neve coletada sob a mesma, ao mesmo tempo que uma parte rolava montanha abaixo. Os meninos conversavam animadamente sobre aquela cena inusitada. Alice tentava conter o ânimo deles. Era opinião geral de que agora o hotel ficaria isolado até a tempestade passar.

Alice conversou com Marcelo pelo celular, explicando-lhe o que ocorrera, aconselhando-o a não voltar enquanto não parasse de nevar. As crianças brincavam de pegador com outros pequenos que estavam no salão. Vários hóspedes decidiram jogar cartas, sentados em volta de mesas quadradas cobertas com o tradicional feltro verde. Era uma boa forma de passar o tempo, já que tinham pouco mais a fazer.

No final da tarde, quando começou a escurecer, garçons entraram no salão trazendo cestos de pães e bules de café, chá e leite, além de outras bebidas, como vinho, cerveja, sucos e água. Todos foram se servir numa mesa comprida encostada na parede oposta ao janelão. Os filhos de Alice corriam e gritavam em torno das pessoas que estavam comendo e bebericando perto da mesa. A uma certa hora, os meninos travessos se enfiaram embaixo da mesa e começaram a cutucar as pernas dos hóspedes. Alice foi obrigada a entrar por baixo para agarrá-los, mas eles se esquivavam dela, dando gargalhadas com a brincadeira. Foi quando ouviu-se novo estrondo.

Os hóspedes pouca atenção prestaram ao fato, pois seguramente tratava-se de mais neve se deslocando do telhado. No entanto, repentinamente sentiu-se um sacolejar violento e a parede oposta à grande janela explodiu como se tivesse sido feito de papelão, jogando toneladas de neve, terra e pedras para dentro do salão esmagando tudo e todos à sua frente. Se não bastasse isto, perdendo a sustentação das paredes, o prédio do hotel de dois andares ao lado ruiu, bloqueando completamente a saída do salão. O teto do salão, por receber todo o impacto da avalanche, caiu sobre todos. A avalanche continuou, vindo do topo da montanha, soterrando o hotel de maneira que nada restou. Apenas como resquícios do desastre, havia restos da floresta de coníferas espalhados no caminho da avalanche. Reinava total silêncio.

A escuridão era total. Alice abriu os olhos e não enxergou nada. Perto de onde se encontrava, ouviu o choro de uma criança. Sem entender o que acontecera, tentou levantar e bateu a cabeça numa coisa dura. Passou a mão e sentiu acima dela uma superfície plana, parecendo madeira. Lembrou-se então que se encontrava debaixo da mesa quando tudo ficou escuro. Desmaiara. Subitamente recordou-se porque estava ali, tentando controlar seus filhos. Desatou a chamá-los e, para sua alegria, aquele que estava chorando respondeu e logo a seguir o outro, embora mais distante, também atendeu o seu chamado.

Ainda não sabia o que havia acontecido. Palpou seus bolsos, mal conseguindo mexer os braços e descobriu que estava com o celular. Ligou o aparelho e pela sua tênue luz viu que estava debaixo da mesa, isolada por terra e neve à sua frente. À sua esquerda havia um grande vácuo e à sua direita, a mais ou menos meio metro dela, estava seu filho mais velho, sangrando de um corte na testa. Movendo um pouco mais o celular, enxergou seu outro filho mais além, imobilizado porque as pernas pareciam estar presas em alguns escombros. Alice estava apavorada e incapaz de se mexer de tanto medo. Procurando se acalmar, pediu que o filho chegasse mais perto dela devagar e com cuidado. Veio sorrateiramente e ela retirou um lenço do bolso para limpar seu rostinho.

Finalmente compreendendo o que ocorrera e que tiveram sorte por sobreviver, pediu que o menino fosse até o irmão para tentar soltar suas pernas. Alice se contorcia, finalmente conseguindo ficar de bruços e, usando os cotovelos para se locomover, foi se arrastando até seus filhos. Teve de parar várias vezes, pois seus movimentos faziam entrar neve e terra. Cavando e removendo o entulho com as mãos, puderam libertar o menino. Ela orientou os dois para segui-la até a outra extremidade do buraco onde estavam, porque lá era maior. Pediu que ficassem perto dela, procurando confortá-los, tentando lhes explicar o que provavelmente tinha acontecido e para que ficassem bem quietos para não consumir rapidamente o oxigênio, pois logo, logo, socorro chegaria e seriam resgatados. O filho menor choramingou pelo pai e o maior disse que ele já deveria saber do acidente. Alice não tinha tanta certeza disso, pois quem o avisaria? Ficou estupefata quando o filho sugeriu que ligasse para o pai pelo celular. Nem lhe havia ocorrido isso. Acendendo o celular, viu que havia sinal. Será quê?... Com as mãos trêmulas, digitou o número do Marcelo.

Marcelo encontrava-se numa lanchonete na vila onde aguardava o tempo melhorar. Comia hambúrgueres com um amigo quando o celular tocou. Ainda nevava bastante. Era noite fechada. Com a voz beirando a histeria, Alice lhe contou o que sucedera. Falou rapidamente com seu amigo que saiu da lanchonete para o posto policial do outro lado da rua para alertar I Carabinieri. O chefe de plantão veio correndo, tomou o celular das mãos de Marcelo e falou no aparelho, procurando acalmar a moça em apuros, para depois obter preciosas informações sobre o desastre.

Concluiu-se que houvera uma avalanche e que o hotel estava soterrado. O chefe garantiu ao Marcelo que conheciam perfeitamente a região e, apesar de noite fechada, um grupo de resgate já sairia por terra. Marcelo e seu amigo foram aceitos também, na condição de obedecerem ordens. Ao amanhecer, com o tempo melhor, segundo a previsão meteorológica, helicópteros também se deslocariam para lá.

Em menos de quinze minutos, o posto policial fervilhava de soldados e de voluntários residentes na vizinhança acostumados com este tipo de ação. Seguiram em três viaturas carregadas de ferramentas e Marcelo ia atrás, na caminhonete que havia alugado. Tiveram sorte que, mesmo com a baixa temperatura, não havia pistas congeladas, apenas muita neve. Conseguiram fazer o percurso em pouco tempo.

Quando chegaram na altura da estrada onde existia um desvio que subia para o hotel, não havia mais nada, nem estrada principal, nem o desvio. Tudo estava coberto por neve, terra, pedras e pedaços de paredes e concreto com ferros retorcidos. Subiram a encosta a pé, usando potentes faroletes para iluminar o caminho.

Foi Marcelo quem primeiro identificou uma área que parecia parte do hotel. Todos carregavam varões de ferro, usados especialmente para perfurar a neve para tentar achar estruturas mais firmes embaixo da superfície fofa. Se ali fosse mesmo o hotel, estaria debaixo de uma camada bastante espessa de neve. Nem pensaram em deslocar as árvores caídas, por serem pesadas demais. Marcelo começou a sistematicamente furar a neve com o varão. Em dado momento, sentiu alguma resistência. Chamou os outros que concordaram que havia alguma coisa embaixo. Desataram a cavar e chegaram até o objeto: era uma porta de madeira quebrada. Na porta ainda estava preso um número, mostrando que se tratava da porta de um apartamento do primeiro andar. Conseguiram retirá-la, mas por baixo só havia neve e o varão nada revelou.

Marcelo ligou para Alice pelo celular, mas não conseguiu contato. Será que acabara sua bateria? Tinha toda a esperança de encontrar sua família, mas o tempo urgia. Já sabia que dependiam de um bolsão de ar para se manterem vivos. Ele suava naquele frio, de tanto espetar o varão na neve. Sentia-se extremamente ansioso e cansado. Apesar de estar atento na tarefa à sua frente, seus pensamentos divagavam, relembrando os melhores momentos que tivera com Alice, seu namoro, seu noivado, o casamento e o nascimento de seus filhos. Fora uma excelente vida. Ela e os meninos não mereciam esse destino.

Julgando que a porta do apartamento teria se deslocado para baixo com o impacto da avalanche, subiram mais um pouco sempre cutucando a neve com os varões. Novamente, encontraram uma resistência e cavaram. Chegaram numa estrutura toda retorcida que parecia um telhado e bateram nele com as pás. O amigo do Marcelo pediu silêncio pois achou que ouvira um som que não era eco. Bateu a pá novamente e ouviram com segurança um fraco som distante. Chamaram os outros companheiros e todos começaram a trabalhar na estrutura até abrirem um buraco. Com uma lanterna, iluminaram o local. Era um quarto com todos os móveis quebrados ou tombados e havia quatro pessoas lá dentro. Um estava deitado com a perna torcida num ângulo impossível e sangrava. Os outros pareciam estar bem. Alargaram o buraco e entraram no recinto. Conseguiram retirar os hóspedes. O ferido foi posto numa padiola que um dos soldados trouxera. Explicaram que aquele apartamento se localizava no segundo andar do hotel. O chefe determinou quem levaria o ferido e os outros para os carros lá embaixo, enquanto começou a discutir a situação com os demais.

Se aquele apartamento havia suportado a carga, outros quartos poderiam também estar com pessoas dentro. Não havia como acessar o corredor pela porta, que estava bloqueada. A única solução seria por cima. Embora nunca tivesse prestado muita atenção no desenho do hotel, Marcelo lembrava que o salão nobre era uma projeção que ficava à direita dos apartamentos, quando se olhava para a montanha, portanto o resgate de sua família teria de ser feito por ali.

Neste momento, tocou o celular. Alice estava bastante aflita, ficando mais tranquila ao saber que Marcelo estava por perto. Ele lhe explicou o que estavam fazendo e garantiu que logo os tiraria de lá. Ela agarrou os filhos mais perto, não só para se sentirem mais seguros, mas também porque estava muito frio naquele local. Procuraram ficar bem quietos. Ela sentiu quando os dois adormeceram. Ficava impossível dela dormir. Não sofria de claustrofobia; no entanto, a dificuldade de se locomover fazia com que ela se sentisse desesperada e deu graças a Deus que os meninos dormiam para não testemunhar sua angústia

Tremeu visivelmente quando tocou o celular. Marcelo, com a voz embargada, queria saber como estavam. Já estava amanhecendo e haviam procurado o salão a noite toda. Quando estavam quase perdendo as esperanças, um soldado tropeçou, sofrendo violenta queda. Após socorrê-lo, foram analisar o que causara o tombo e viram que era uma ponta de telhado, à semelhança do outro dos apartamentos. O telhado foi removido aos poucos, revelando uma cena dantesca, com corpos retalhados por todos os lados. Cavando freneticamente, conseguiram chegar até a mesa. Não havia como cavar mais, porque pesados troncos de árvores se encontravam tombados bem à sua frente. Marcelo avisou que iam serrar a mesa com uma motosserra e para ela tomar cuidado.

Já não era sem tempo. Os meninos tinham acordado e apresentavam dificuldade para respirar. Alice também sentia que o ar estava rareando. Com mãos trêmulas, tentou fazer outro contato com Marcelo pelo celular, mas não conseguiu ligá-lo. A bateria se esgotara. Subitamente ouviram a motosserra cortando a mesa perto de onde haviam libertado as pernas do filho menor. Alice achava que realmente não teria forças para chegar até lá. Em questão de minutos, uma parte da mesa foi retirada, mas o tampo começou a se inclinar perigosamente, quase obstruindo a passagem pela qual deveriam alcançar a abertura. Alice pediu para os meninos irem na frente, que ela seguiria atrás. Lentamente, conseguiram chegar e foram içados para fora por fortes mãos e em pouco tempo estavam sendo abraçados pelo pai. O dia já estava claro. Vários sobreviventes estavam sendo transportados aos hospitais mais próximos por helicópteros. Os mortos foram colocados um ao lado dos outros para serem transportados mais tarde. Embaixo da mesa comprida, Alice se arrastava pelos cotovelos até a abertura. Suas forças estavam minguando e sua respiração cada vez mais difícil. Ela via claramente que o deslocamento do tampo da mesa deixara um espaço muito estreito para ela passar. Passou por sua mente de que deveria ter feito um regime e assim mais magra, passaria com maior facilidade. Deu até uma risadinha. Ouviu um barulho de terra se deslocando, teve tempo apenas de estender uma mão para a frente num pedido silencioso de socorro e sentiu um forte golpe na cabeça, forçando seu rosto ao chão. Depois tudo ficou escuro.

Marcelo viu quando o buraco que haviam feito começou a ruir e se encher rapidamente de terra e entulho. Desatou a gritar por ajuda e vários voluntários e soldados correram até ele e todos passaram a cavar freneticamente. Ele berrava e gesticulava pedindo a todos para se apressarem senão sua mulher morreria. Foi necessário retirá-lo de perto e segurá-lo. Com o passar dos minutos, conseguiu se acalmar e ficou de joelhos, abraçado aos dois filhos, olhando aquela cena como se já soubesse do resultado.

Após quase uma hora, conseguiram remover a mesa e cavar por baixo dela, até atingir o corpo inerte de Alice.

sábado, 21 de novembro de 2009

A VELHINHA

Essa zona rural mais parecia uma fotografia de calendário. A estrada pela qual eu guiava meu carro era de terra e acompanhava o caudaloso rio que serpenteava vagarosamente em direção ao vilarejo onde planejava passar a noite. Pelo espelho retrovisor, observei que minha passagem levantava uma vasta cortina de poeira. Ainda bem que não cruzara com ninguém, senão o coitado sofreria de um mal súbito de tanto comer pó! Mas, apesar da intensa seca, o rio apresentava uma exuberante mata ciliar e, do lado oposto da via, campos plantados com canola enchiam os olhos com suas brilhantes flores amarelas. Aqui e acolá, uma árvore se sobrepunha ao mar dourado, destacando-se pela sua pujante nobreza esverdeada.

Havia reparado que de tempos em tempos os campos de canola eram recortados por estreitas ruelas que desembocavam na estrada por onde eu andava. Entretanto, estavam desertas a esta hora, logo após o meio-dia. Provavelmente os lavradores estavam repousando na sombra de alguma daquelas imponentes árvores no meio da plantação. Qual não foi minha surpresa ao ver uma nuvem de pó se erguendo da canola, como a estragar o belo visual do óleo em flor. Era mais uma estradinha vista a distância, tão estreita que seria impossível receber veículos largos, fossem automóvel, caminhão ou trator. Era tão somente apropriada para pedestres.

Tive de frear abruptamente, mais pela aparição inesperada do que para evitar um acidente, ao surgir uma bicicleta do meio da canola sem me dar a mínima atenção, como se eu e meu carro não existíssemos, e que virou na mesma direção em que eu ia. O que era inusitado e inesperado foi a pessoa que a guiava. De onde eu estava, não conseguia ver seu rosto, mas pelas vestimentas, era óbvio que se tratava de uma mulher. E ela dirigia a bicicleta com habilidade. Logo percebi que era antiga, pois não dispunha de marchas e a roda traseira era recoberta por uma tela para não deixar que seu vestido se enroscasse nos aros. Diminuí a velocidade do meu carro, pois não queria envolvê-la com a poeira da estrada. Vagarosamente emparelhei-me com ela. Tive vontade de parar e oferecer-lhe uma carona, mas sabia de antemão que não teria onde por a bicicleta, se é que ela estava realmente indo para a mesma vila que eu. Seu vestido era branco, todo decorado com enormes flores azuis, fazendo com que o vestido mais parecesse azul do que branco. Usava um chapeuzinho preso sob o queixo com uma fita também azul. Quando, rapidamente, os raios solares iluminaram seu rosto, me surpreendi. A ciclista não era uma moça e sim, uma senhora. Havia rugas nas suas faces, daquelas típicas de quem fica muito tempo exposto ao sol e tem de cerrar os olhos devido a seu brilho. O que impressionou-me foi sua expressão de determinação como se precisasse chegar a todo custo aonde quer que estivesse indo. Mas havia lá outra expressão que pude ver naqueles breves instantes de luz sob o chapéu: uma ternura ímpar, uma aura de bondade que me emocionou. Ela olhou momentaneamente para mim, sorriu e acenou, gesticulando para que eu seguisse adiante, dando a entender que não se importava com a poeira.

Cerca de meia hora depois, eu entrava na pacata vila e, após me informar a respeito de acomodações, dirigi-me ao único hotel existente. O calor estava incrível e fui direto tomar um banho para me refrescar. Desci ao saguão para o restaurante do hotel, que mais servia aos moradores da vila que aos hóspedes. Travei uma conversa com o gerente que me orientou de como chegar ao hospital que viera conhecer, motivo principal de minha vinda a essa região.

As distâncias a serem percorridas eram muito curtas naquela minúscula cidade. Entretanto, descobri que o hospital ficava na periferia da vila. Indo a pé naquele calor do meio da tarde, cheguei todo suado. Carregava meu paletó na mão. Estacionado num local reservado para bicicletas — aparentemente todos as usavam — estava a bicicleta que eu vira na estrada. Além de ser a única que não dispunha de marchas e com a armação tipicamente feminina, apresentava aquela providencial rede traseira. Tinha mais um acessório que não havia constatado na estrada: um cesto metálico à frente do guidão, cuja parte inferior apoiava no para-lama dianteiro. Portanto aquela senhora estava aqui no hospital. Será que se sentira mal andando de bicicleta naquele calor e teve de procurar assistência médica? Ou será que era uma enfermeira ou então fazia parte da administração da instituição?

Deixei minhas conjecturas para lá e me concentrei no objetivo de conhecer o hospital. Mas precisava satisfazer minha curiosidade a respeito daquela senhora. Perguntei para um, perguntei para outro, e fiquei sabendo que a tal senhora se encontrava na ala pediátrica do hospital. Minha conclusão lógica foi de que pelo menos não estava doente. A Pediatria ficava numa área enorme, bem iluminada e com inúmeras janelas, com camas postadas uma ao lado das outras, separadas apenas por pequenos armários que também serviam de criados-mudos. As cabeceiras das camas eram voltadas para as paredes, deixando um espaço grande no centro da enfermaria que servia de local de recreação para as crianças. Ao entrar no recinto, vi que as camas estavam vazias. Seus ocupantes, em pijamas de várias cores e tipos, encontravam-se sentados no chão em círculo, absortos e encantados com as palavras da pessoa que, sentada numa banqueta, segurava um livro e lia para eles. Embora estivesse de costas para mim, logo a reconheci como sendo a mesma que vira na estrada, uma vez que ainda usava o mesmo vestido. Silenciosamente fiquei ouvindo e admirando a atuação dela. A seguir, fui me apresentar a meus colegas que me levaram para visitar outras dependências do hospital. Soube que outrora a casa fora uma antiga residência de ricaços que a doaram para a cidade. A casa fora transformada no único hospital da região. Suas instalações foram modernizadas. Recebia a todos gratuitamente. Dispunha de subvenções governamentais para seu sustento. Fundamentalmente priorizava o atendimento de crianças e se tornara uma instituição famosa por isso. Comentei sobre a grande enfermaria que havia visto e da senhora que lia para os garotos. Os colegas sorriram, dando a entender que a velhinha era uma excêntrica e inofensiva senhora da vila. Quanto ao tamanho da ala de pediatria, achavam que fora o salão de festas do casarão. Agradeci pela gentileza de me terem recebido e fui embora.

Voltei ao hotel satisfeito de ter conhecido o hospital a respeito do qual se falava tanto no meio médico e que tinha motivado minha visita. Eu ainda tinha mais uma missão para cumprir naquele vilarejo: saber de uma prima de minha mãe que deveria estar beirando os 100 anos de idade. No final da tarde, depois de me refrescar de novo, mais uma vez tive de recorrer ao gerente do hotel para me informar como chegar à residência da prima. Na rua indicada havia meia dúzia de casas, todas idênticas. Mas eu sabia que era a última antes da esquina. Abri o portãozinho e cheguei na porta de entrada sob uma pequena varanda. Procurei pela campainha que não achei. Bati palmas, bati na porta, chamei por ela. Em vão. Aparentemente, ou estava de cama, ou não estava em casa. De tanto barulho que fiz, alertei a vizinha que, ao saber quem eu era, disse-me que minha prima era um pouco surda e me mostrou onde estava a campainha, escondida no meio da hera perto da varandinha.

A porta foi aberta por uma senhora de idade avançada. Com certeza era minha prima. Havia um estreito vestíbulo de frente à escadaria que subia para o andar superior. A cozinha ficava nos fundos e à direita havia duas salas: uma de estar e outra de jantar. Entramos na primeira. Conversamos amenidades. Fiquei sabendo que tinha 95 anos de idade. Certamente não aparentava. Quando lhe contei do falecimento de meus pais, ficou triste por uns momentos, comentando que trocara correspondência com minha mãe quando eram adolescentes. Para mim, a prima seria uma fonte importante de informações, uma vez que eu me autodenominava o narrador oficial da história da família. Ao lhe explicar meu intento, sorriu. Eu conhecia aquele sorriso. Provavelmente me lembrava de parentes nossos ou vira fotografias dela quando era mais jovem.

Minha prima era tagarela. Não parava de falar, contando sobre episódios de nossos parentes que eu desconhecia. Quando ela começou a falar de sua família próxima, dando os nomes dos netos e bisnetos, tive de interrompê-la e pedir caneta e papel para escrever tudo. Mais uma vez sorriu e me convidou para a cozinha para tomar um chá. Acrescentou que a mesa de lá seria mais adequada para fazer minhas anotações. Em dado momento, quase deixei cair a xícara no chão. Olhando através da porta dos fundos, vi que havia um barracão onde certamente guardaria velhas quinquilharias e implementos de jardinagem. Aliás, à entrada da casa havia um minúsculo jardim de roseiras, muito bem cuidado. No lusco-fusco do fim de tarde, observei que o jardim dos fundos era igualmente cuidado com capricho. Consegui salvar a xícara de um desastre e não passar vergonha diante de minha prima. Recuperei-me. Pois não é que, encostado no barracão, estava a bicicleta que vira várias vezes no transcorrer do dia. Então era ela a velhinha que eu vira na estrada. Era ela que tinha entretido as crianças no hospital com a leitura.

Contei para a prima de nosso encontro na estrada e de minha ida ao hospital e que a vira lendo para os doentinhos. Mais uma vez, vi aquela ternura e determinação estampadas em seu rosto. Como o vilarejo era muito pequeno, explicou, não dispunha de uma biblioteca. Numa reunião da comunidade local ela havia sugerido que se providenciasse uma biblioteca para todos, em especial para os jovens. Sua sugestão nem foi considerada. Em casa tinha poucos livros, principalmente por falta de espaço, segundo ela. Sabia que a cidade vizinha tinha uma biblioteca e se dispôs a pedir emprestado livros para as crianças de seu vilarejo, porém logo reconheceu seu erro: os pais achavam que ela estava se intrometendo em suas vidas. No entanto, queria fazer alguma coisa de útil e descobriu que os menores internados ficavam à mercê de suas doenças, apenas recebendo visitas esporádicas dos parentes. Conversou com o diretor do hospital e ele concordou que ela lesse para as crianças. Não havia como chegar à cidade vizinha a não ser com transporte coletivo que dava uma volta imensa, ou então cortar caminho pelas plantações de canola. Optou ir de bicicleta. Havia dois anos que fazia isso toda semana, buscando livros e devolvendo-os na semana seguinte. Carregava-os no bagageiro dianteiro de sua bicicleta.

Acredito que o exercício lhe fazia bem. Apesar das rugas e da idade, parecia ter saúde de ferro. Tinha uma lucidez invejável. Fiquei muito satisfeito em encontrá-la. Ela deu-me várias fotografias da família, com minha promessa de que seriam aproveitadas no livro que pretendia escrever. Quando me despedi, jurei manter contato, e foi o que fiz durante os três anos seguintes. Mandava-me cartas prolixas, relatando todos os fatos novos sobre seus parentes próximos. Eu lia com avidez e respondia sempre.

Certo dia teve uma queda dentro de casa sofrendo fratura de colo de fêmur. Os filhos a levaram para uma cidade grande, onde foi operada. Insistiu em voltar para o vilarejo após a cirurgia. Na sua última carta para mim, contou que as crianças, para quem tanto leu no hospital, vinham visitá-la e as mais velhas faziam questão de trazer livros para ler para ela. Pacientemente, em agradecimento, ela ouvia tudo com lágrimas contidas.

Quando completou 100 anos de idade, recebeu uma carta de parabéns assinada de próprio punho pela rainha Elizabeth II da Inglaterra, costume antigo para todos os seus súditos centenários. Soube do evento porque um de seus filhos mandou-me um recorte de jornal com uma entrevista dela. Logo depois, sua mente começou a vagar e foi necessário colocá-la numa casa de repouso para receber cuidados apropriados. Não tinha mais condições de morar sozinha. Uma semana após completar 103 anos de idade, houve um surto de influenza na casa de repouso, o vírus levado por uma visita de outro paciente. Tanto ela como mais três ou quatro idosos ficaram gripados, evoluíram para pneumonia e faleceram.

Essa simpática velhinha mexera comigo. Pude observar e admirar sua altivez e dedicação altruísta às crianças. Ela foi um exemplo de vida e, sem dúvida, o orgulho de todos que se sentiram atingidos pela sua alma caridosa e envolvidos pelo seu calor humano.

sábado, 17 de outubro de 2009

A SALA DE ESPERA

Quando entrei no consultório, vi que teria de esperar muito para ser atendido. Todas as poltronas estavam ocupadas, menos uma para onde me dirigi. Quase perco o lugar. Não é que um garoto de uns oito anos quis sentar logo ali! E meus pobres ossos, como é que ficam? Fui salvo pelo gongo.

— D. Francisca, pode entrar com o Marcelinho. É sua vez de passar com o Dr. Juvêncio — disse a recepcionista.

O menino, um tanto contrariado, abandonou sua investida ao meu lugar e foi ter com o pediatra, levado pela mãe.

Sentei-me. Dei um suspiro. O homem a meu lado deu uma olhada de soslaio. O que é, pensei, nunca viu alguém suspirar? A verdade é que eu estava cansado após andar vários quarteirões desde a estação do metrô. Preferia vir ao médico de metrô do que de ônibus por ser mais confortável.

O coração já voltava à sua palpitação normal. Pude então tomar conhecimento do ambiente. Lá estava D. Lúcia, a recepcionista, atrás do balcão, com um telefone em cada mão, olhando para o cliente que acabava de chegar e acenando com o fone para que aguardasse enquanto terminava de anotar alguma coisa, provavelmente a marcação de uma consulta. Ao mesmo tempo, sua boca não parava de se movimentar, mastigando o interminável chiclete. Olhei para a porta de entrada de vidro transparente e vi que estava escurecendo lá fora. Ia cair uma tempestade, e eu não tinha trazido guarda-chuva.

Gosto de passar o meu tempo observando o ambiente onde me encontro até chegar minha vez de ser atendido. Só espero que nem toda essa gente esteja aguardando pelo Dr. João. É claro que não. É uma clínica bem grande, com vários médicos. As paredes da sala de espera estão pintadas de verde claro e os quadros pendurados ficam realçados devido às molduras escuras dos mesmos. Numa delas há dois de natureza morta, um tanto desbotados. Não sei se o pintor quis assim, ou descoloriram com o passar dos anos. Não gostei deles.

Epa! À minha frente, um paciente bocejou. Automaticamente, transmitiu a vontade do bocejo a vários outros dos presentes. Não pude evitar e também abri a boca para bocejar.

Centrada numa outra parede estava a reprodução de uma pintura que sempre apreciei pois, quando pequeno, havia uma parecida na sala de espera de meu pediatra. Nossa, quantos anos isso já faz! Depois de adulto, fui procurar a obra. Seu título: O Médico. O pintor: Sir Luke Fildes, um pintor inglês que retratou uma criança deitada em duas cadeiras forradas de travesseiros, com um médico sentado ao seu lado, com ar pensativo. O médico passara a noite toda ali e o pacientezinho já mostrava sinais de que estava se restabelecendo. Ao fundo, mãe e pai ainda desesperados. Segundo consta, Fildes pintou o quadro para homenagear um médico devido à sua dedicação ao cuidar de seu filho que, todavia, não teve o mesmo final feliz.

Meus devaneios foram interrompidos pela D. Lúcia, que já chamava outro paciente. O interessante foi que nenhum dos pacientes era para o Dr. João. Quis levantar para perguntar se ele se encontrava, mas a preguiça venceu e permaneci sentado.

Comecei a olhar para os rostos dos pacientes. Num canto da sala estava uma senhora de meia-idade, com os cabelos pintados de vermelho. Será que não sabia que essas tinturas destroem as raízes capilares, aumentando o risco de ficar careca? E nunca se olhou no espelho para ver como fica ridícula com aquela cor? “Madame,” gostaria de lhe dizer, “se já tem cabelos brancos e precisa pintá-los, então, por favor, use uma cor marrom ou preta. E pelo amor de Deus, tire esse batom vermelho rutilante da cara. Fica com cara de prostituta!” Ah, se tivesse coragem de ir até ela para dizer isso...

Oposto de onde eu estava sentado, um homem de uns quarenta anos não parava de digitar no seu laptop, apoiado no colo. Era o mesmo que havia bocejado. Parece que agora estava concentrado no que fazia. Vez ou outra, coçava a cabeça, o nariz, o pescoço. Parecia um verdadeiro pulgueiro. Será que veio ver um alergista?

Quais pensamentos teriam o menino e a menina sentados no chão, no meio de todos aqueles adultos? Brincavam silentemente, com alguns objetos de plástico colorido que eu tinha dificuldade de identificar de onde eu estava. Certamente era alguma brincadeira tranquila, que não requeria uma disputa, senão estariam gritando um com o outro ou pelos menos estariam se agitando.

Falando em agitação, na recepção ocorria algum problema. Um sujeito sisudo discutia com D. Lúcia. Ela ainda mastigava um chiclete e segurava um telefone na mão. Com a outra, gesticulava, tentando se defender das agressões verbais do homem. Eu observava isso consternado, pois conhecia a recepcionista há bastante tempo e sabia que era incapaz de fazer mal a uma mosca. Da mesma forma, era incapaz de se defender de atitudes como aquela. Será que eu deveria intervir?

Em dado momento, não resisti e de onde estava, falei, talvez até um pouco alto demais:

— Ei, moço! Vamos com calma!

Os outros pacientes olharam para mim, meio assustados. Imagine intervir numa discussão alheia. D. Lúcia que se virasse!

O homem parou de discutir com a recepcionista e virou-se para mim:

— Como é que é? O senhor que se meta com sua vida!

E soltou meia-dúzia de palavras que não poderia transcrever aqui. Várias pessoas ficaram boquiabertas com as suas vociferações, mas permaneceram inertes à sua reação exagerada. Eu é que não poderia ficar quieto.

— Ora, rapaz, se não quer respeitar alguém que tem idade de ser seu pai, pelo menos considere as senhoras e crianças que aqui estão.

— Eu já disse para se meter com sua vida, seu velho-de-araque!

Já se dirigia em minha direção. Não podia nem imaginar que tentaria me agredir fisicamente. A D. Lúcia estava freneticamente ligando o telefone e falando apressadamente no fone. Com certeza chamava o segurança para retirar o inconveniente dali. Ele se aproximava cada vez mais de mim. Eu gelei. Sabia que não teria condições de me defender, nem me embater com ele. O sujeito era mais alto do que eu, bem forte e estava chegando mais perto. Quis gritar, mas não saía um som sequer de minha boca. Ele se postou à minha frente e sua mão direita desceu no meu ombro.

— Senhor, senhor, acorda! O Dr. João está lhe aguardando!

Abri os olhos. Olhei a meu redor. Ainda havia pacientes na sala de espera. A senhora dos cabelos vermelhos estava lá. O homem do laptop também. Todos olhavam para mim e sorriam. Olhei para o balcão da recepção. D. Lúcia não estava lá, mas ao meu lado, com a mão no meu ombro e repetia:

— O Dr. João o aguarda. O senhor está bem?

Eu ainda não me conformava com aquela situação.

— Cadê o homem que estava gritando com você no balcão e que veio até aqui para me bater?

Tenho certeza que devo ter feito cara de vítima. D. Lúcia me respondeu:

— Eu acho que o senhor estava sonhando, porque ninguém gritou comigo, nem veio aqui bater em você.

Bem, acho que fiz cara de idiota, dei de ombros e me levantei.

Será que tudo fora um sonho mesmo, ou melhor, um pesadelo, ou o cara me acertou e eu apaguei. E agora, com receio de que eu pudesse processar a clínica, estavam todos fingindo que nada acontecera. Mas, pensando bem, não estou sentindo nada, nenhuma dor.

Ah, sei lá!...

domingo, 24 de agosto de 2008

O CACHORRO E O MENDIGO

De longe, ouvi quando ele foi chamado pelo seu dono.
— Venha, Piolho, venha.
O mendigo estava de cócoras e estalava os dedos na direção do cachorrinho, oferecendo-lhe um pedaço mal-encarado de um pãozinho, que propunha dividir com seu companheiro.
Descrever aquele espécime de animal talvez fosse difícil, visto que não era muito diferente dos outros cães que costumam acompanhar os mendigos. Era um macho de porte mediano, de pêlo liso amarelo-escuro. O que chamava atenção era uma mancha preta em volta de um dos olhos, como se usasse um tapa-olho.
Piolho atendeu imediatamente o dono, abanando o rabo, dando um latido rouco e correndo em disparada até ele. Enquanto o cãozinho saboreava o “delicioso” pão, o mendigo sorria e acariciava-o.
Junto a eles, estava uma carrocinha de um só eixo, com duas rodas de automóvel de diferentes tamanhos e pneus bem carecas e, vista por trás, pendia para o lado da roda menor. Estacionada, a parte da frente ficava erguida, com uma travessa de madeira que servia para o mendigo puxar o carrinho. Dentro dele, havia uma montoeira de objetos, desde papelão, sacos com garrafas “pet” e uma roda de bicicleta, até vários ferros retorcidos e um sem número de jornais e revistas.
Era fim de tarde, o Sol já estava se pondo e os transeuntes passavam apressadamente, ignorando completamente os dois, na sua pressa e preocupação em chegar, o mais breve possível, ao aconchego do lar. O mendigo também não demonstrava nenhum interesse pelos cidadãos, assim como não pedia esmolas. Piolho, por vezes, se afastava para cheirar os calcanhares de alguma pessoa, porém logo desistia e voltava para junto da carrocinha. Como o mendigo estava sentado à beira da calçada, no meio-fio, o cachorrinho se esgueirava e lhe dava lambidas no rosto. Ele sorria, mesmo que fosse um sorriso um tanto triste, tentando afastá-lo dele e passando a manga suja da camisa nas cansadas fácies, para enxugar a saliva do cão.
Escarafunchou um saco de papel todo amassado, enquanto o cachorro o rodeava, mais uma vez abanando a cauda. Achou o que estava procurando: outro pãozinho. Parecia que o cão tinha mais fome que ele, pelos pulos que dava e seus latidos. Repetindo seu gesto anterior, o mendigo dividiu a refeição com Piolho. Lentamente, levantou-se e foi buscar na carrocinha uma garrafa “pet” com água. Bebeu um pouco do gargalo e depois despejou o resto numa pequena tigela metálica. A água foi prontamente aceita pelo animalzinho.
Não havia pressa, pois não iam a lugar algum. O mendigo já estava se preparando para a noite que chegava. Tirou da carrocinha vários trapos que colocou no chão ao lado da mesma e, por cima destes, dois ou três cobertores velhos, rasgados e sujos. O Sol já havia descido no horizonte. A escuridão tomava conta do pedaço, pois não havia iluminação de rua no local onde estava estacionada a carrocinha. O mendigo deitou-se, cobrindo-se com as mantas. Nem precisou chamar pelo fiel companheiro. Este se acomodou a seu lado, deu um gostoso bocejo, se ajeitou, encostando-se no homem, colocou a cabeça sobre as patas dianteiras e fechou os olhos. Por algum tempo, o mendigo permaneceu de olhos abertos. Parecia devanear. O que será que passava pelos seus pensamentos? A sua infância? Seus sonhos inalcançáveis? Uma família perdida? Aos poucos, o sono foi chegando, os olhos cerrando. Houve um último momento no qual se posicionou melhor naquele chão duro, e dormiu.
No despertar, bateu-lhe forte uma saudade no peito. Restava apenas uma velha coleira ainda com alguns pêlos grudados e um pão amanhecido que não tinha com quem dividir...

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A LIBÉLULA

O calor dos últimos dias assolava aquela tarde de primavera. Não havia um canto onde pudesse se ajeitar naquele sol das quatro da tarde. O verde do gramado já estava um tanto amarelado, queimado que estava pela falta d’água. Donde me encontrava, suava às bicas sob o guarda-sol, deitado numa espreguiçadeira. Na mesinha ao lado, suco de laranja gelado que tinha acabado de despejar de uma garrafa térmica. Não deveria me queixar daquela tarde de ócio, porém a temperatura exageradamente elevada estava me enervando e, ao mesmo tempo, deixando-me sonolento. A pouca distância de lá, havia um laguinho, com plantas aquáticas, as ninfas em flor brotando de suas folhas flutuantes, a água habitada por várias espécies de sapinhos e visitada por dezenas de insetos diferentes.
Crente de estar sendo atacado por uma porção de abelhas, movimentei as mãos para afastá-las de mim e tive a certeza de ter acertado pelo menos uma. Abri os olhos e vi, na palma da minha mão, uma agonizante libélula. Ela não conseguia se erguer e eu, impotente, apenas a fitava.
— Por que fez isso comigo? — perguntou, com voz trêmula.
Mal pude crer em meus ouvidos. Havia realmente escutado uma libélula falar? Como é que seria possível? Já sabia. Estava dormindo e sonhando. A libélula estava em minha mão direita, portanto dei-me um forte beliscão com os dedos da mão livre e pulei com a dor. Então, era verdade. Estava prestes a ter uma conversa com um inseto! Olhei para todos os lados, pois não queria que ninguém me ouvisse e pensasse que era doido.
— Desculpe, querida, mas pensei que fosse uma abelha e iria me picar.
— E eu lá tenho cara de abelha? E não me chame de querida. Sou muito macho!
Barbaridade! Só dou fora mesmo! Nem consigo acertar o sexo. Terei de tomar mais cuidado com o que digo.
— Conte para mim, Libélula — disse eu —, devo chamá-lo de “Libélulo” ou Sr. Libélula?
— Basta chamar-me de Libélula.
— Está certo! O que posso fazer depois desse mal que lhe causei?
Parecia que a libélula erguia sua cabeça para olhar dentro de meus olhos. Senti que suas patinhas faziam esforço na minha mão, na tentativa de se levantar.
— Tenho a impressão que você não pode fazer nada para me ajudar. Ainda estou meio tonto com o tapa que me deu, mas acho que daqui a pouco me recupero e saio voando. Pelo menos minhas asas parecem estar em ordem — e deu uma batidinha com suas quatro asinhas, de uma tela rósea delicadamente tracejada.
— Se você não se importa, gostaria de saber como é que nós estamos aqui falando um com o outro.
— Ah, mas isso é fácil — explicou a libélula —, somos de uma família de insetos muito antiga. Existimos há mais de 320 milhões de anos. Com o transcorrer do tempo, aprendemos a nos comunicar com os humanos em ocasiões especiais.
Para a libélula parecia uma explicação lógica. Deixei passar.
Reparei que, à medida que ia falando, sua voz se tornava cada vez mais forte, mais potente. As asas, que antes vibravam pouco, agora zuniam. Estava preocupado de que fosse embora antes de dar por encerrado nosso papo.
Indaguei então: — É verdade que vocês picam e sugam sangue? Sempre tive medo de libélulas.
— Ora, imagina! — respondeu a libélula. — Essa é uma idéia absurda. Nossa alimentação se restringe a outros insetos como mosquitos, moscas, abelhas e borboletas.
Continuou a conversa: — Infelizmente, nós é que servimos de alimento para diversos animais e há gente que nos frita dizendo que somos uma gostosa iguaria. Outros até nos trituram para virar remédio!
Observei que havia várias libélulas rondando meu guarda-sol e estava preocupado com um ataque-conjunto para salvar o Sr. Libélula e de como iria me safar daquela tropa. Ele me viu olhando para cima e para os lados e comentou:
— Não fique preocupado, não. Minhas companheiras vieram saber o que havia acontecido comigo. Eu sou muito macho — repetindo o que dissera logo no começo —, e tenho dezenas de namoradas. Como não vou viver para sempre, preciso aproveitar cada instante.
A libélula parecia levantar uma pata dianteira para sinalizar às suas amigas que tudo estava bem.
— Acho que você me deve uma — disse a libélula.
— Como assim? — perguntei, curioso.
— Sim! Depois de ter-me machucado. Quem sabe você podia fundar a S.P.L. ...
— S.P.L.? — repeti, com cara de idiota.
— É claro: a Sociedade Protetora das Libélulas!
Juro que a libélula estava sorrindo.
O número de libélulas-fêmeas havia aumentado e, então, ele me colocou a par da situação.
— Elas estão querendo que eu me vá, porque estão cheias de ovos e precisam pô-los antes do anoitecer. E só conseguirão fazer isso se estiverem tranqüilas, sabendo que estou são e salvo.
Não queria que partisse. Estava gostando cada vez mais de nossa conversa. Para mantê-lo mais um pouco comigo, fiz-lhe uma última pergunta:
— Bem, antes de ir embora, diga-me uma coisa: o que acontece depois que suas amigas põem os ovos?
— Disso eu entendo! — respondeu, entusiasmadamente. — São postos n’água ou nas proximidades e as larvas que nascem, vivem debaixo d’água. A transformação para uma forma adulta como eu pode levar até cinco anos.
— Puxa, que interessante!
Ouvi uma voz ao longe, perguntando:
— O que é tão interessante assim?
Abri os olhos e uma sombra pairava sobre mim. Minha vizinha estava de mãos na cintura e me olhava com ar desconfiado.
— Por acaso falava a meu respeito, da minha pessoa?
Olhava de boca aberta para ela e depois para a minha mão vazia. Devo ter feito uma expressão de total surpresa e também de decepção. Ela que interpretasse como quisesse. Mas para onde fora meu amiguinho, A Libélula?

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O RESGATE

extraído do livro
“A Árvore de Chocolate:
a saga de uma família”,
2ª Edição, 2001


Em plena Primeira Guerra Mundial, um acampamento inglês em solo francês fora duramente bombardeado e os soldados ingleses batiam em retirada.
Os alemães estavam fazendo de tudo para acabar com a Divisão, atacando com forças de terra e de ar e sua pontaria era certeira e mortífera.
Comandados por um oficial, saíram em fila indiana. Um atrás do outro, tentavam manter certa disciplina, apesar das circunstâncias, evitando as estradas e andando rapidamente, na tentativa de se afastar o mais rápido possível dali.
O caminho estava cheio de percalços, de terreno naturalmente irregular. Nas áreas de vegetação densa, sentiam-se seguros da aviação alemã, mas nas regiões descampadas, doíam-lhes os pescoços, de tanto olharem para o céu para ver a chegada de aeroplanos inimigos.
Não tardou muito para que o grupo de cerca de trinta homens fosse avistado por alemães que se encontravam num balão de observação. Mais que depressa, avisaram os colegas de terra. Estes, por sua vez alertaram os pilotos que partiram à caça de suas vítimas.
A aproximação de quatro aeroplanos fez com que todos procurassem abrigo, muito difícil naquele momento. Estavam atravessando um enorme pasto. Havia pouco gado, mas o pouco que estava ali, nem tomou conhecimento da presença dos forasteiros.
Ouviram-se os primeiros tiros vindos dos aparelhos. Arthur, que se deitou próximo de uma ribanceira, levantou a cabeça para ver o que estava acontecendo. Viu quando uma vaca foi atingida em cheio. Pareceu explodir, com pedaços de carne voando para tudo quando era lado. Arthur sentiu ânsia de vômito ao presenciar a cena, mas logo a esqueceu, preocupado com sua segurança.
Viu Walter, que estava do outro lado da mesma ribanceira e acenou. Ele respondeu também com um aceno e indicou uma vala mais à frente, sugerindo, por sinais, que fossem até lá. Arthur se levantou e saiu correndo. Walter fez o mesmo.
Um aeroplano britânico apareceu e começou a atacar os alemães. Um deles se separou dos demais para travar combate, enquanto os outros trataram de metralhar os soldados em terra. Um a um, os homens foram tombando, feridos demais para se erguer.
O piloto britânico conseguiu eliminar um dos aeroplanos alemães que caiu com grande estrondo de bico no chão. Os outros alemães tentaram, em vão, atacar o inglês, mas era um exímio aviador e não tiveram sucesso. Saíram do local, para se reagruparem.
Por sorte, Walter e Arthur não sofreram nenhum ferimento, mas perceberam que estavam sozinhos. Gritaram por seus parceiros, por cima do ruído dos motores, mas ninguém respondeu. Os homens tinham sido dizimados.
Sabiam que estavam liquidados. O aviador inglês, do ar, também percebeu a delicada situação em que se encontravam. Não havia mais nenhum soldado em pé. Os aeroplanos alemães estavam se direcionando de novo para eles.
O britânico, num gesto arrojado e destemido, baixou o biplano que pilotava e tentou pousar, fazendo sinais com uma das mãos para que os dois soldados chegassem mais perto.
Arthur e seu companheiro entenderam de imediato qual era sua intenção. Largaram tudo que carregavam e correram como doidos em sua direção. Os aeroplanos alemães estavam chegando mais perto.
Assim que tocou o solo, o piloto gritou com toda a força de seus pulmões:
— Depressa! Segurem em alguma coisa! Vamos sair daqui! Vamos! Vamos!
Tanto Walter como Arthur se atiraram no chão quando as asas do aeroplano passaram por cima deles e conseguiram se agarrar ao trem de pouso.
Satisfeito com o que viu, o piloto abriu o acelerador e puxou o bastão contra si. O motor reclamou e gemeu com o excesso de peso, mas obedeceu ao comando.
Com as pernas balançando perigosamente ao sabor do vento e os corpos pendurados do trem de pouso, Walter e Arthur faziam um esforço sobre-humano, tentando se ajeitar numa melhor posição, para não caírem. A trepidação do biplano nada os ajudava. Suavam profusamente em sua concentração de se manterem agarrados à vida. Era sua única chance e sabiam disso.
Os alemães, reconhecendo o drama e o heroísmo do piloto e dos dois soldados, passaram por eles, balançaram as asas em cumprimento e foram embora, deixando-os à própria sorte.
Não tardou e estavam sobrevoando uma região tranqüila, atrás das linhas aliadas.
— Vou descer — gritou o piloto, erguendo-se do assento e se esgueirando perigosamente para fora, para se fazer ouvir. — Quando estiver quase tocando o solo, larguem-se, com o corpo bem mole.
O campo que escolheu era de feno, que estava pronto para ser colhido. Quando as rodas estavam tocando o feno, soltaram-se do trem de pouso e caíram no meio da plantação.
Ambos perderam os sentidos e foram encontrados por camponeses que viram o aeroplano praticamente aterrizar e depois arremeter. Um deles estava certo de que vira uma pessoa pendurada do aparelho e que ela não estava mais lá quando o aeroplano subiu de novo.
Foram carregados para a casa da fazenda e colocados de cama. Quando despertaram, mal podiam acreditar que estavam vivos. Ao lado deles estavam um casal de camponeses franceses, dois rapazes de dezesseis-dezessete anos de idade e também o piloto inglês, que lhes sorria amigavelmente, por entre dentes e bigode amarelados por nicotina.
— Fico contente que estejam vivos — disse.
— Não... não sei como agradecer — balbuciou Arthur. Tinha dificuldade em mover os lábios. Seu rosto estava todo esfolado pela queda ao chão.
Walter só olhava para o piloto. Faltava-lhe palavras para exprimir sua gratidão por ter-lhe dado nova chance de viver. Mais tarde, com suas emoções sob controle, pôs em palavras seu pensamento. O piloto, que se chamava Alaric Hugh Farrar, ficou encabulado.
Assim que Arthur e Walter voltaram para Abbeville, fizeram um relatório do ato do piloto Farrar. Em virtude disso, o piloto recebeu a maior comenda militar por bravura da Grã-Bretanha, a Victoria Cross.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

UMA TARDE NA VARANDA

A varanda era voltada para o ocaso. Por isso, ficar lá no período da tarde era a distração favorita de meu avô. Lembro-me tão bem. Ele sempre andava a passos lentos, metido em suas alpargatas, com um casaco de lã, mesmo no calor, e ainda usava um boné. Eu brincava em volta dele com meus carrinhos, sem perturbá-lo. Ao escrever essas reminiscências, procurei calcular sua idade na época. Perguntei até para minha mãe. Não me surpreendi com a resposta: teria mais de noventa anos.

Meu avô ficava horas em sua cadeira de balanço, olhando para o nada. Não cochilava. Fixava o olhar num ponto distante, para além do jardim que começava a partir de nossa varanda. Freqüentemente, dos meus brinquedos e sentado no chão, eu virava para o velho, tentando imaginar sobre o que pensava. Quantas vezes não quis perguntar-lhe o que estava vendo, mas faltava-me coragem.

Entre meus folguedos, passar um tempo na varanda era um de meus prediletos. Achava que a companhia de meu avô nada tinha a ver com isso, pois mal trocávamos palavras. Sentia seu silêncio e, em conseqüência, também mantinha-me calado. Até quando movia meus carrinhos, fantasiando uma corrida de automóveis, estes percorriam as distâncias mudos, sem nenhuma imitação vocal do ronco dos motores. Tenho a ligeira impressão de que meu avô apreciava essa presença silente, pois jamais reclamou de eu estar ali.

Ele não era de me chamar para sentar em seu colo, nem me afagava os cabelos. Permanecia sentado e imóvel, com as mãos entrelaçadas sobre a barriga. Muito mais tarde, fiquei sabendo que tivera uma aventura extraconjugal que perdurara por vários anos. Terminada, guardou lembranças daquela moça que conhecera. Após o falecimento de minha avó, quis tentar reativar aquele romance e fora procurar a garota de outrora. Sua decepção fora enorme ao encontrar uma pessoa completamente diferente da criada pela sua imaginação ao longo dos mais de trinta anos desde que a vira pela última vez. Ao retornar para casa, contara para minha mãe, que soube dar-lhe o apoio de que necessitava em seu aborrecimento, embora, intimamente, ela se chocasse com a revelação. Nunca em sua vida — contou-me — observara qualquer desvio na dedicação que tivera com minha avó.

Relato isso porque é bem provável que naquelas tardes na varanda, olhando fixadamente o horizonte, sonhava com uma imagem virtual que nunca fora uma realidade. Qual homem não tem sua fantasia numa mulher ideal, inalcançável? Contudo, como criança, eu não poderia sequer pensar em algo assim para justificar sua imobilidade na varanda. Quantos outros idosos não ficam apenas cochilando em seus lugares? Não era este o caso. Até me impressionava vê-lo assim, parado. Vez ou outra, levantava-se e ia para dentro de casa. Acho que ia ao toalete. Depois voltava e sentava-se na cadeira de balanço.

Não consigo precisar quanto tempo passei naquela varanda, mas estou seguro de que deve ter sido durante dois ou três anos. Tomava por certo sua presença. Eu não dava a mínima importância para isso. Aliás, era o que eu achava. Até que, certo dia, houve um grande reboliço em minha casa, todos chorando copiosamente. Não entendia o que estava acontecendo, porém soube que meu avô não ficaria mais na varanda e que nunca mais o veria.

Daquele dia em diante, deixei de brincar com meus carrinhos na varanda de casa.

sábado, 22 de dezembro de 2007

O MENDIGO DE GRAVATA

Fazia minha caminhada matinal pelo canteiro central da avenida, quando me deparei com um mendigo mexendo em sacos de lixo na calçada, do outro lado da rua. O que prendeu minha atenção foi que parecia estar usando terno e gravata. Mesmo assim, foi apenas uma imagem que rapidamente passou pelos meus olhos. Continuei andando.
Quando voltava, encontrei-o novamente. Desta vez, chafurdava uns sacos pretos que estavam colocados no próprio canteiro central. E não me enganara, ele estava mesmo de terno e gravata. O terno marrom era bem surrado, mas, de onde eu estava, não se via um único remendo. Não dava para saber a cor da camisa, porque só se via o colarinho, mas juro que algum dia fora branca. Com o tempo frio se aproximando, justificava-se o pulôver que vestia. A gravata vermelha desbotada se escondia, em parte, sob o colarinho e debaixo do pulôver.
O mendigo não teria 50 anos, porém, maltrapilho assim, aparentava bem mais. Portava duas sacolas a tiracolo e estava absorto escolhendo garrafas, algumas de vidro, outras de plástico e latas de refrigerante e cerveja, que colocava com cuidado nas sacolas. Só se deu por satisfeito quando as duas estavam cheias e transbordando.
Pareceu que minha presença passara despercebida, pois situava-me a uns dez metros de distância. Havia parado para observá-lo. Com tempo de sobra naquela manhã, decidi seguí-lo, pois queria desvendar o mistério desse homem e saber porque um mendigo se trajava daquele jeito.
Tendo terminado de coletar seus objetos, atravessou a avenida e começou a andar na direção oposta àquela de onde eu tinha vindo. Fui acompanhando-o, porém, pelo canteiro central. Só passei para a outra calçada quando o mendigo entrou numa rua que saía da avenida. Quando eu consegui chegar na esquina, vi que ele havia progredido bastante, pois estava quase um quarteirão à minha frente. Dobrou outra esquina. Tive a sorte de vê-lo entrando num terreno cercado. Quando cheguei ao portão, entendi onde me encontrava, pois havia um cartaz anunciando que aquele era um depósito de material para reciclagem. Havia sacos de lixo e caixas de papelão cheios por todos os lados, provavelmente trazidos pelas carrocinhas, das quais havia várias estacionadas. Contudo, nada do mendigo de gravata. Assim que vi alguém circulando pela área, indaguei pelo homem de terno.
— Ah — respondeu —, deve ser Seu Benedito. Ele está lá no escritório.
Apontou para uma estrutura que eu não tinha observado antes e que ficava a poucos metros de lá. Era um barracão de madeira, com janela, da qual saía um feixe de luz emanado do teto do recinto, proveniente de uma luminária de luz branca. Dirigi-me ao local e entrei pela porta semi-aberta.
Sentado atrás de uma escrivaninha delapidada, estava nosso homem, com um jornal na mão e um charuto na boca. Não havia sequer tirado o paletó. Na mesa, havia uma garrafa térmica e um copo descartável com café pela metade.
— Então conseguiu chegar até aqui... — comentou, tirando o charuto da boca e esboçando um sorriso, com dentes amarelados e cariados à vista.
Para justificar minha curiosidade, expliquei-lhe que desejava entrevistá-lo. Foi, então, que contou-me um pouco de sua vida.
Fazia dois anos que perdera tudo que tinha quando ocorreu uma enchente na periferia da cidade. Sua moradia desabou, levando junto sua mulher e único filho. Na ocasião, estava desempregado e soube da tragédia apenas quando retornou para casa à noite, após longo dia em busca de trabalho. Só lhe restara a roupa do corpo. Com um gesto, deu a entender que era a mesma que estava usando!
Fora acolhido por vizinhos, que sofreram menos com a catástrofe, porém, também se encontravam em situação crítica. Um deles trabalhava neste depósito de reciclagem e o convidou para vir com ele. A caminho, foram recolhendo os utensílios que pudessem ser aproveitados para reciclar.
Por usar terno e gravata, fato inusitado entre os demais trabalhadores, logo foi elevado a gerente do depósito. Desde então, apesar de ter arranjado um novo lugar para residir e estar numa situação econômica um pouco melhor, vinha diariamente ao depósito vestido tal qual no primeiro dia, para nunca mais se esquecer que fora com a ajuda dos amigos que conseguira superar as dificuldades ocasionadas pela tempestade.
No entanto, não conseguiu perder o hábito de separar todos os objetos para reciclagem que achava a caminho do trabalho, pois sabia que fora isso que se tornou seu ganha-pão, e que o fizera se reerguer.
Agora, quando vou caminhar e vejo alguém revirando o lixo da avenida, eu me pergunto:
— Será o Benedito?